Desde ontem vem sendo replicado nas mídias sociais e em grupos de WhatsApp um texto que, a propósito de manifestar uma justa indignação, trata de forma indigna e injusta toda uma categoria profissional, a dos jornalistas. Trata-se de um texto que, além de metonímico – toma a parte pelo todo – demonstra total desconhecimento do ofício que critica.
A começar por chamar de “manchete” o titulo de um editorial que, como deveria ser sabido, é um texto que expressa a opinião oficial da empresa jornalística sobre determinado tema. Pode até ser escrito por um jornalista, mas na condição de preposto do dono do negócio. Em uma empresa que emprega 100 jornalistas, por exemplo, um ou dois ocupam essa função de extrema confiança do patronato. E o editorial não segue nenhuma regra técnica e ética a que os jornalistas da redação estão obrigados, por dever de ofício.
O referido editorial, com um titulo deliberadamente ofensivo ao Estado iraniano, foi publicado por um velho jornal de São Paulo, conhecido pelo seu alinhamento automático com as entidades sionistas sediadas na capital desse estado. E é cruel com o povo iraniano, que não pediu intervenção a nenhum dos dois países atacantes.
No entanto, a autora indignada do referido texto não acusa o jornal ou a empresa jornalística e sim
todos os “jornalistas brasileiros, desumanizados, coisificados”; “esses jornalistas, esses “necrojornalistas” de plantão”; Vocês, jornalistas, que normalizam o genocídio, que relativizam o fascismo”. Ou seja, atribui a toda uma categoria profissional a manifestação espúria de uma empresa com histórico secular de apoio a regimes autoritários em nome da liberdade econômica.
Como jornalista graduada por uma universidade pública e 35 anos de ensino de jornalismo em duas universidades federais, me senti como se toda a minha trajetória profissional estivesse sendo achincalhada, jogada no lixo. E doeu mais ver o texto publicado – sem nenhuma ressalva ou adendo – pelo site de uma associação formada e sustentada por jornalistas.
É como se ambientalistas acusassem os operários de uma fábrica de agrotóxicos pelas mortes que o veneno que produzem provocam. Ou pacifistas fizessem o mesmo com os trabalhadores da indústria de armas. Jornalistas não são santos e muitos possuem afinidades ideológicas com seus empregadores. Minha defesa aqui não é corporativista.
Mas a César o que é de César.