Vigia da Casa da Morte é preso e identificado pela Polícia Federal do Ceará


Por Cláudia Souza*

11/11/2014


 

Casa da Morte, em Petrópolis, no Rio de Janeiro (Foto: odia.ig.com.br)

Casa da Morte, em Petrópolis, no Rio de Janeiro (Foto: odia.ig.com.br)

O soldado reformado do Exército Antonio Waneir Pinheiro Lima, 71 anos, que foi carcereiro da Casa da Morte, em Petrópolis, Região Serrana do Rio de Janeiro, foi localizado no último fim de semana em Tauá, interior do Ceará, e conduzido à Polícia Federal em Fortaleza, onde prestou depoimento, sendo liberado, em seguida.

Após mais de quatro décadas escondido sob a alcunha de “Camarão”, Antonio Waneir Pinheiro Lima afirmou no depoimento que trabalhava como vigia da Casa da Morte, mas que desconhecia o que se passava dentro do imóvel. O ex-agente vinha sendo procurado há mais de dois meses por membros do Grupo de Trabalho do Ministério Público Federal Justiça de Transição, responsável pela investigação de crimes praticados pela ditadura militar.

A Casa da Morte, na época propriedade do alemão Mario Lodders, foi cedida ao Centro de Informações do Exército (CIE) que usou o local como um cárcere clandestino destinado a presos políticos considerados “especiais”, incluindo lideranças de grupos da esquerda. O imóvel funcionou como um dos centros de tortura mais violentos durante o regime militar brasileiro.

A existência de “Camarão” foi relevada por Inês Etienne Romeu, única presa política que conseguiu sair com vida da casa. Ela prometeu aos torturadores que se tornaria uma agente infiltrada, mas jamais pensou em cumprir o “acordo”.

Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Inês ficou detida entre maio e setembro de 1971, período no qual sofreu torturas físicas e psicológicas e, de acordo com o depoimento, foi estuprada duas vezes por “Camarão”. Ela prestou depoimento ainda no hospital, em 1971. O documento foi entregue à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em 1979, quando Inês terminou de cumprir a pena de prisão imposta pelo regime militar. A Casa da Morte só foi descoberta em 1981, a partir do número de telefone memorizado por Inês e transcrito no depoimento. Além de “Camarão”, Inês identificou outros agentes que atuavam no local.

Casa de Tortura

Com o fim do regime militar, em 1985, “Camarão” conseguiu um emprego de segurança de uma empresa de ônibus em Nilópolis, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, com a ajuda do tenente-coronel da reserva Paulo Malhães, conhecido como agente “Pablo”, que admitiu em 2012 ter sido o responsável pela implantação da casa de tortura. Malhães foi assassinado em abril último após ter prestado depoimento à Comissão Nacional da Verdade, no qual revelou detalhes sobre os crimes na Casa da Morte.

Em 2004, “Camarão” foi preso em Araruama, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, após discutir e dar quatro tiros (dois no tórax, um no punho e outro na coxa) no músico Lúcio Francisco do Nascimento, do grupo Molejo, mas conseguiu a absolvição do Tribunal do Júri da cidade.

No último mês de agosto, “Camarão” soube que estava sendo procurado por jornalistas, por membros do Ministério Público Federal e da Comissão Estadual da Verdade, e decidiu fugir de Araruama. No último fim de semana, ele foi localizado pela Polícia Federal em Tauá (CE). Após prestar depoimento em Fortaleza, “Camarão” foi liberado.

*Com O Dia, O Globo

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