Uma aula sobre o rádio esportivo no Brasil


06/08/2009


Bernardo Costa

Luiz Mendes, Álvaro Oliveira Filho e Ronaldo Helal

O jornalismo esportivo e sua relação com a história do rádio brasileiro foi o tema do quarto encontro do ciclo de palestras “Futebol-arte: a arte do futebol”, promovido pela Associação Brasileira de Imprensa, em parceria com o Grupo de Literatura e Memória do Futebol (MemoFut), o Laboratório de História do Esporte e do Lazer da UFRJ (Sport), o canal SporTV e as editoras Livrosdefutebol.com, e Apicuri.

O evento, realizado na primeira terça-feira de cada mês, tem por objetivo reunir jornalistas, pesquisadores e representantes da área cultural para debater o esporte a partir de ângulos distintos como o samba, a dança, as artes plásticas, a literatura e o cinema.

Formaram a mesa de debates, Luiz Mendes, decano do jornalismo esportivo brasileiro, Álvaro Oliveira Filho, comentarista e gerente nacional de esportes do Sistema Globo de Rádio, e Ronaldo Helal, professor da Uerj especializado nas relações entre esporte e meios de comunicação.

O jornalista José Rezende, Coordenador do Centro-Histórico e Esportivo da ABI, abriu o encontro apresentando ao público fotografias de importantes nomes do rádio esportivo nacional e áudios com trechos de partidas de futebol narradas por Ari Barroso, Oduvaldo Cozzi, Gagliano Neto, Antônio Cordeiro, Jorge Cury, José Carlos Araújo, entre outros:
— É um momento de saudade, pois muitos deles já se foram. Vocês terão uma idéia de como eram as locuções antigas em comparação com as de hoje e os diferentes estilos de narração das escolas paulista e carioca. Os paulistas aplicavam o estilo “metralhadora”, e os cariocas eram mais descritivos. 

—Às vezes as preliminares são melhores do que a partida principal!, disparou Luiz Mendes ao chegar no evento, provocando risos na platéia que saudou de pé efusivamente a entrada do “comentarista da palavra fácil”.

Álvaro de Oliveira Filho, mediador do encontro, iniciou o debate ressaltando a facilidade do rádio em criar mitos em função da ausência do recurso da imagem:
— As pessoas em casa ouvem as mesmas palavras durante a transmissão dos jogos, mas cada um imagina uma cena diferente.

Ronaldo Helal

Para Ronaldo Helal, a mitologia do futebol não existiria sem o rádio. O veículo, segundo o sociólogo, foi responsável pela transformação do esporte em paixão nacional e pelo surgimento do patriotismo entre os brasileiros:
— Nosso País não tinha uma idéia de nação. O jornalismo esportivo, através do rádio, trouxe o sentimento de brasilidade a partir das transmissões de partidas de futebol.

A época do surgimento da televisão, quando muitos acreditavam que o novo veículo provocaria a extinção do rádio, foi recordado por Helal. Para o professor da Uerj, aconteceu o contrário, “pois foi a TV que precisou se adaptar”.
— Basta ver que hoje todos estão com seus radinhos nos estádios, apesar de estarem vendo o que está acontecendo em campo. Isto porque o poder de formar a opinião pública é muito maior no rádio. Na televisão, você tem a repetição do lance e pode contestar a opinião do comentarista de arbitragem. Já no rádio, pela falta da imagem, o ouvinte confia na informação do repórter que está situado à beira do campo, afirmou Helal.

Problemas

Luiz Mendes

Luiz Mendes começou sua exposição destacando as dificuldades enfrentadas pelos pioneiros na transmissão esportiva no rádio brasileiro:
— Naquela época, entre 1947 e 1955, quando narrei jogos de futebol, não havia números nas camisas dos jogadores…olha que problema. Lembro que identificávamos os atletas pela maneira como jogavam. Quando as partidas eram internacionais, e recebíamos a visita de times europeus, a identificação dos jogadores era uma tarefa quase impossível. Ari Barroso, por exemplo, chamava os estrangeiros pelos nomes dos jogadores do Vasco, os quais, para ele, eram sempre os adversários(risos).

Luiz Mendes destacou também as carências na área técnica, como a precariedade do sinal das transmissões, segundo ele, fator responsável pelo surgimento da figura do comentarista no rádio brasileiro:
— Antigamente ficava uma pessoa no estúdio, fora do estádio, que fazia alguns comentários sobre o jogo durante o intervalo entre o primeiro e o segundo tempo. Certa vez, Gagliano Neto foi transmitir uma partida em Buenos Aires e durante o intervalo remeteu a transmissão para o estúdio no Rio. O sinal não voltou mais e ele ficou impossibilitado de continuar a narração. No jogo seguinte, para que a mesma coisa não acontecesse, ele convidou um jornalista que fazia a cobertura no estádio para comentar o jogo da cabine durante toda a transmissão. Foi assim que o repórter Ari Lund, do Diário de Notícias de Porto Alegre, se tornou o primeiro comentarista do rádio, mas ele não seguiu na profissão. Havia casos em que transmitíamos o jogo inteiro e só no final sabíamos que ninguém tinha ouvido.

O jornalista destacou ainda os problemas que os profissionais do esporte enfrentavam em relação ao vocabulário técnico:
— Naquele tempo, o narrador tinha que ter um vocabulário extenso, pois não podia repetir palavras durante as transmissões. Para a palavra bola, por exemplo, eram usados como sinônimo as expressões pelota, esfera, balão de couro, redonda, perseguida. A terminologia em inglês também era muito usada na época. Oduvaldo Cozzi era um dos que gostavam muito disso. Como eu tinha dificuldades com o inglês, comecei a aportuguesar os termos, sendo seguido por alguns profissionais. Quando me dei conta, já tínhamos um vocabulário próprio, center-half passou a ser centro-médio, full-back passou a ser zagueiro, e assim por diante.

Privilégio

Respondendo a pergunta de uma pessoa da platéia sobre o que sentiu ao narrar o segundo gol do Uruguai contra o Brasil na final da Copa do Mundo de 50, Luiz Mendes disse que, apesar de surpreso, continuou narrando o jogo normalmente:
— O mesmo não aconteceu com o Cozzi, que ficou perplexo. Também lembro que vi o locutor da rádio Continental sendo carregado para o departamento médico do estádio, desmaiado. Eu narrei o gol normalmente, apenas perguntei espantado: “gol do Uruguai? Sim, gol do Uruguai, senhores”.

A predileção de alguns jogadores para dar entrevistas após as partidas para TVs, em detrimento do rádio, foi outro ponto suscitado pela platéia. Segundo Luiz Mendes, o privilégio é natural, já que a televisão paga os direitos de imagem dos jogos e, com isso, financia os clubes.
— Quem agüenta o repuxo é a TV. Se os clubes já vão mal com o financiamento das emissoras, sem elas todos estariam com o pires nas mãos. Contudo, concordo que isto limita um pouco o rádio.

Para Álvaro Oliveira Filho, a blindagem imposta pelos assessores de imprensa e o aumento do número de jornalistas atuando na área são fatores que também contribuem para distanciar o jogador do repórter de rádio:
— Hoje não cabe todo mundo dentro do vestiário para entrevistar quem quer que seja, durante o tempo que quiser. Por isso foi criada a entrevista coletiva, o que prejudica muito as reportagens, pois o jogador só fala aquelas coisas pasteurizadas, inviabilizando as matérias exclusivas. 

Álvaro de Oliveira Filho

A perda de audiência para a televisão foi o assunto abordado no final do encontro. Segundo Álvaro, é necessário que os profissionais encontrem uma fórmula para manter os ouvintes ligados no rádio:
— A TV hoje faz tudo aquilo que o rádio faz. Anteriormente, tínhamos o diferencial das entrevistas antes e depois dos jogos, a movimentação dos times, a chegada aos estádios. Mas, com as emissoras de TV a cabo, isso também passou a ser feito. Acredito que a internet seja um importante instrumento para manter o público. Hoje as nossas transmissões são recheadas pelas participações dos internautas, que se sentem parte da transmissão e são atraídos por isso.

Já Luiz Mendes acredita que o rádio não será ameaçado:
— Quando surgiu o rádio disseram que o jornal impresso ia acabar; quando surgiu a TV, postularam o fim do rádio. Mas a verdade é que todos os meios de comunicação estão aí. Há espaço para todos.

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