Um jornalismo que não foi vencido pela guerra


04/08/2009


Agostinho Chitata

“A guerra só traz desgraça!” A afirmação é do angolano Agostinho Chitata, diretor do Jornal de Economia & Finanças de Angola, para explicar que o exercício da profissão de jornalismo em seu país — por causa dos mais de 30 anos de conflitos armados entre o Governo estabelecido e a guerrilha, após a Independência, em 11 de novembro de 1975 — teve que vencer muitas barreiras para se manter vivo e dinâmico, como atualmente.

Em passagem pelo Rio de Janeiro, o jornalista visitou a sede da ABI, na tarde da última sexta-feira, 31 de julho, onde foi recebido pelo Presidente da entidade, Maurício Azêdo. O jornalista chegou ao Brasil no mês de julho, onde fica até 8 de agosto, para participar de encontros com profissionais brasileiros, com os quais pretende trocar experiências no campo da comunicação social.

Segundo Agostinho, a sua agenda no Brasil foi arranjada para que ele cumprisse um programa de intercâmbio profissional previamente estabelecido pelo jornal onde trabalha, e a partir também de contatos com alguns amigos brasileiros:
— Este programa passa não só por uma troca de experiências com alguns setores ligados à comunicação social de forma direta, mas também a outros que acabam por criar vínculos positivos no campo da informação. Por conta desse processo, eu estive em São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e agora no Rio de Janeiro, afirmou o jornalista.

Esta é a primeira vez que Agostinho Chitata vem ao Brasil e disse que entrou no País “com o pé direito”, porque foi muito bem recebido e pôde confirmar aquilo que sempre ouvia sobre o tratamento cordial do povo brasileiro com os estrangeiros que visitam o País:
— Estando aqui no Brasil eu tive o carinho das pessoas com as quais mantive contato diretamente, mas também contei com o apoio dos brasileiros amigos que sempre me encorajaram para a realização de um dos meus maiores sonhos: conhecer efetivamente este País e ter uma convivência muito mais abrangente com o seu povo e a sua cultura.

O jornalista afirmou que a cultura nacional é muito bem difundida em Angola, principalmente pela televisão, e que por isto os angolanos têm bastante familiaridade com alguns pontos da tradição cultural brasileira, que em muitos aspectos se assemelha com a angolana:
— Há elementos culturais que são muitos parecidos. Em Salvador, na Bahia, por exemplo, vi muitas coisas que se parecem com a África. Muitas situações culturais que eu consegui presenciar têm muito a ver com a minha realidade em Angola, a começar pela comida em si. A verdadeira questão que se coloca é a seguinte: o que não se parece com a África na Bahia? Podíamos até fazer um ensaio tentando identificar uma única coisa na cidade de Salvador que não se pareça com uma província africana.

Agostinho disse ficou impressionado com os traços de africanidade que encontrou nas capitais brasileiras que visitou. Contou que tanto no Rio quanto em São Paulo também se sentiu como se estivesse em casa:
— Até mesmo em Mato Grosso do Sul, que eu também visitei, interagi com pessoas e uma série de aspectos que eu identificava e sabia, pura e simplesmente, que não era algo alheio ou muito distante daquilo que se constitui a minha realidade.

Intercâmbio

Jornal de Economia & finanças

O Jornal de Economia & Finanças, ao qual Agostinho Chitata está vinculado, em 19 de agosto completa um ano de circulação. O título pertence à empresa estatal Edições Novembro, que também é responsável pelos veículos Jornal de Angola (jornal oficial que em 26 de junho completou 33 anos de fundação) e Jornal dos Esportos. É por meio da Edições Novembro, via Ministério da Comunicação Social, que os profissionais de imprensa angolanos têm estabelecido intercâmbios com jornalistas ou algumas empresas de comunicação brasileiras.

Segundo o diretor do Jornal de Economia & Finanças, o jornalismo em Angola é muito influenciado por aquele praticado em nosso País:
— O jornalismo brasileiro já se faz presente no mercado jornalístico angolano há muito tempo. Já conseguimos várias cooperações e interagimos com vários consultores do Brasil, que nos proporcionaram trocas de experiências, que para nós foram muito importantes. No Jornal de Economia & Finanças essa consultoria foi liderada pelo jornalista e professor brasileiro Antonio Prado (67 anos de idade, 44 de profissão), com passagens na cobertura política de grandes veículos de imprensa como O Estado de S. Paulo e as revistas Realidade e Visão.

Antonio Prado foi convidado para liderar o projeto de criação do jornal pelo Centro Angolano de Pesquisa e Estudos Sociais (Capes), fundado há mais de dez anos por brasileiros que trabalham em Angola. O projeto contou com o trabalho de profissionais de diversas áreas do jornalismo — desde a diagramação até a edição —, e foi elaborado após uma parceria que à época o professor firmou com o Curso Abril de Jornalismo.

De acordo com Agostinho Chitata, a partir dessa parceria foi possível formar um grupo de profissionais qualificados, que conseguiu fazer com que o Jornal de Economia & Finanças, que em breve fará circular a edição de número 50, até hoje continue a ser produzido.

Dificuldades

Graduado em Ciências Jurídicas e Econômicas, pela Universidade Agostinho Neto, Chitata é jornalista há 20 anos e começou a atuar na profissão na Rádio Nacional de Angola. Quando saiu da província de Lubango para fixar residência em Luanda (Capital do país) fez um curso básico de jornalismo, promovido pela Agência Angolana de Imprensa (Angop, órgão estatal), que o levou a ingressar na profissão.

Ele contou que foi um dos poucos que conseguiu chegar até o final do curso, que durou um ano. Quando acabou, foi trabalhar na redação da Angop, mas percebeu que o seu desejo era ingressar no Jornal de Angola. Queria ver o seu nome assinando matérias, coisa que seria difícil de acontecer se estivesse trabalhando na agência. Depois que ingressou no Jornal de Angola, Agostinho concluiu o curso médio de jornalismo (equivalente no Brasil a um curso técnico de nível médio).

O curso tinha como coordenadora a professora e escritora Gabriela Antunes, uma pessoa que deu muito de si para a formação dos jornalistas angolanos, ensinando também arte e literatura angolana e universal, além de inglês e português. Nessa época, Angola ainda não dispunha de escolas de jornalismo e comunicação social. Nem o próprio estado tinha ainda um instituto superior, como também não haviam surgido as universidades privadas.

Segundo Agostinho Chitata, o jornalismo em Angola atualmente tem como principal característica o fato de ser praticado por jovens e tarimbados profissionais. Mas ele faz questão de destacar o trabalho da antiga geração de jornalistas e radialistas que, no período da guerra pela Independência, foram muito importantes por causa da produção de programas que faziam “intervenções políticas”.

Agostinho Neto

Muitos desses programas eram conduzidos por pessoas que acompanharam a trajetória de Agostinho Neto — médico, poeta e um dos líderes do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), que presidiu de 1975 até 1979, data da sua morte. — Dentre eles destaca-se Francisco Simons, que nasceu em Góia e se naturalizou angolano; Rui de Carvalho, que veio a ser Ministro da Comunicação Social; Graça Campos, que atualmente é o diretor do jornal Angolense, mas que durante muito tempo trabalhou no Jornal de Angola:
— O Graça Campos eu acompanho desde a época em que estudava jornalismo e ele tinha uma coluna de crítica social, que eu achava muito interessante e era uma das minhas inspirações. Outro cronista importante também era o meu amigo Sílvio Peixoto, que começou como cronista muito jovem e teve uma participação significativa na nossa formação. Há um leque muito grande de figuras de outras gerações que marcaram o jornalismo em Angola. Tenho medo de cometer injustiça deixando de citar algum nome, afirmou Agostinho Chitata.

Quando ele começou a trabalhar na profissão de jornalista, os textos eram escritos em máquinas de datilografia. Mas nos últimos dez anos, com o avanço da tecnologia, a imprensa angolana já trabalha com base em um sistema totalmente digitalizado. Segundo o diretor do Jornal de Economia & Finanças, em Angola a atividade jornalística cresceu tendo à frente uma “malta jovem” e houve uma época que ele considerava como heróis aqueles que se dedicavam às tarefas jornalísticas no país:
— Durante um determinado período, fazer jornalismo para nós era um ato de heroísmo. Porque foi uma fase muito difícil por causa da guerra. Um período em que a circulação de pessoas e bens, por via rodoviária, era complicada. Os jornalistas não podiam usar as estradas para fazer coberturas jornalísticas.

Abertura política

Um aspecto delicado é que a guerra impedia que o jornalismo angolano fosse mais dinâmico. Ao mesmo tempo existia entre os profissionais um sentimento generalizado de não deixar morrer a atividade profissional no País, por causa da sua história: “Nem a guerra conseguiu matar o jornalismo angolano, que está aí, sobreviveu”, declarou Agostinho.

Em 1991, quando foi selada a paz entre o MPLA e a Unita — siglas que desde a independência do país de Portugal, travaram uma guerra cruenta na disputa pelo poder —, instalou-se o multipartidarismo em Angola. Com o novo modelo político o exercício do jornalismo tornou-se mais fácil:
— O multipartidarismo trouxe ao cenário político angolano vários outros partidos e também ajudou a diversificar o jornalismo, que durante alguns anos era restrito aos veículos oficiais. Mas em homenagem ao quadro democrático do país, surgiram outros órgãos de mídia, da iniciativa privada, alguns inclusive com mensagem crítica à própria política do Governo. Entre os quais O Imparcial Facto, Angolense, Folha 8, Capital, O País e a rádio Mais. Há um ano nasceu a primeira televisão privada de Angola, que se chama TV Zimbo.

De acordo com Agostinho Chitata, esse processo de abertura das comunicações foi salutar para o mercado de trabalho jornalístico de Angola, pois ampliou o número de oportunidades para os profissionais do país. Hoje já existem várias universidades que ensinam Jornalismo, uma delas é a Universidade pública Agostinho Neto:
— O nível acadêmico do jornalismo angolano já é alto em termos percentuais, diferentemente do tempo em que eu ingressei na profissão, quando bastava cursar o curso técnico do ensino médio. Como já existem cursos superiores, as redações passaram a fazer essa exigência. Apesar de que o fato de uma pessoa ter o diploma de jornalista não determina tudo. Temos em nossas redações elementos que são bons jornalistas e que não cursaram uma universidade. Mas têm muita experiência profissional, porque começaram a trabalhar quando eram jovens.

Agostinho Chitata disse também que somente depois do fim da guerra é que muita gente pôde procurar se matricular em uma universidade em busca da graduação de nível superior:
— Eu tenho o hábito de dizer que a guerra só traz desgraça. Em função disto, em Angola, muita gente só pode ingressar numa faculdade depois dos 40 anos de idade. No meu país isto é muito normal. As pessoas tiveram que ir para a guerra, devido ao compromisso de defender o país e a nossa soberania. Hoje, com a estabilidade política, é que a população desperta para essa necessidade de evoluir com os estudos — afirma o diretor do Jornal de Economia & Finanças. — Qualquer angolano sempre teve esse sentimento muito grande de defender a nação. Por isso, direta ou indiretamente, sempre estivemos convocados para a guerra, declarou Agostinho Chitata.

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