Um imigrante que resgatou as raízes em imagens


17/07/2008


José Reinaldo Marques 
01/08/2008

 Juan Esteves

Desde que abandonou o magistério para se dedicar integralmente à fotografia, o italiano Emidio Luisi tem contribuído para preservar a memória da diversificada cultura brasileira. Nascido em Sacco, na região da Campânia, Sul da Itália, em 11 de janeiro de 1948, ele vive há 53 anos no Brasil e conta que resolveu cursar Matemática depois de ter sido reprovado no vestibular para Arquitetura, seu sonho de carreira acadêmica. Virou professor, mas logo se decepcionou:
— A escola não oferecia uma visão pedagógica mais filosófica e criativa da matemática. Mesmo assim, tentei realizar um projeto que unisse a matemática, o lúdico e a fotografia, com uma turma adolescentes.

Em 1975, criou novo projeto: ensinar xadrez aos alunos, com o objetivo de unir os conceitos de história, lazer e jogos dramáticos. Em sua última tentativa para fazer a idéia funcionar, reuniu um grupo de 50 estudantes e alguns fotógrafos iniciantes e organizou um torneio de xadrez em um grande tabuleiro montado numa praça pública de São Paulo:
— No fim da atividade, fizemos uma exposição fotográfica. Assim, eu senti que tinha alcançado um pouco do que pensava, que era mexer com a matemática na sua forma mais pura: raciocínio e criatividade. Creio que foi também meu princípio nas atividades profissionais da fotografia.

Influência

Amadoristicamente, Emidio começou a se relacionar com a fotografia na infância, incentivado por uma tia-avó que lhe mandou da Itália uma câmera. Na adolescência, era o fotógrafo oficial dos eventos do colégio em que estudava. A proximidade com o irmão Pietro — artista plástico que voltou a viver na Itália — também influenciou na decisão profissional:
— Com freqüência, ao invés de ir para as aulas do pré-vestibular, eu ia para o ateliê do meu irmão e acompanha suas produções artísticas. Isso me deu uma base para ver a fotografia como uma linguagem pessoal.

Também nesse período, teve início o envolvimento de Emidio com o teatro e a dança, pois seu irmão criava cenários e figurinos para muitas produções:
— Por conta disso, acabei conhecendo os principais espetáculos montados na ocasião. Já me encontrava ávido para fazer fotografia de palco quando me deparei com o então iniciante Ballet Stagium, em 1971. Em 77, conheci o trabalho do Antunes Filho, com quem mantenho uma relação não só profissional, mas também de amizade.

O resultado do trabalho pode ser apreciado no livro de Emidio “O palco de Antunes, 50 anos de teatro”. Já a documentação da companhia de dança rendeu “Stagium 35 anos”, em que as imagens são acompanhadas de textos de Oswaldo Mendes, Helena Katz, Walter Firmo, Paulo Boni e Wladimir Catanzaro.

Pesquisa

Outra obra importante na carreira de Emidio Luisi é “Ue’ paesà” (“Olá, conterrâneo”, na sua língua materna), sobre a imigração italiana no Brasil. Resultado de uma pesquisa iniciada em 1982, o livro foi lançado em 97, relançado em 2000 e, segundo o autor, deve muito ao que aprendeu como assistente do fotógrafo Sandro Spini, também italiano, que lhe deu os primeiros ensinamentos sobre como conduzir um projeto “etnofotográfico”:
— A partir desse aprendizado, iniciei uma trajetória de buscas e andanças pelos principais bairros da cidade de São Paulo, por onde os imigrantes passaram, como o Bixiga. Com isso, fui percebendo que eu não era somente o autor, mas também um personagem dessa história e me entusiasmei tentando entender a minha origem. Um dia, tive a nítida sensação de caminhar em direção à minha sombra, em busca do tempo.

O interesse etnográfico acabou rendendo outros livros, como “Caixa memória”, sobre o Centro Histórico paulistano; e “Caixa populi”, que mostra a diversidade na capital paulista. Em todos, encontra-se sua marca registrada: o uso do preto-e-branco.
— Como dizia Luigi Mamprin, “a vida é colorida, mas a realidade é em preto-e-branco”. Talvez essa frase fale um pouco sobre o que seria a passagem entre o claro e o escuro, que é mais evidente e contundente no p&b. E eu acho que ele tem esta magia. É claro que há trabalhos que devem ser feitos em cor. Mas, em se tratando de gente, acho que o preto-e-branco realça mais o clima. Pode-se ir muito rapidamente para a ausência e a soma de luz, o claro-escuro que tanto fascinou grandes pintores.

Liberdade

Sempre envolvido em novos projetos, Emidio diz que precisa de liberdade de ação e de oportunidade de se reciclar, independentemente da tendência que o mercado exige. Com uma produção intensa, participa de exposições no País e no exterior e recebe muitos convites para coordenar oficinas de fotografia Brasil afora. Desde 1985, mantém a Fotograma Imagens, que teve como sócios os colegas Ed Viggiani e Rosa Gauditano:
— Queríamos sair da imprensa diária e fazer um fotojornalismo mais personalizado. Era uma tendência do mercado brasileiro na época, especialmente em São Paulo, Rio e Brasília. Nossa inspiração foi a Magnum francesa, a mãe de todas, que atuava em forma de cooperativa sob a direção de Henri Cartier-Bresson.
 

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