30 de setembro de 2022


Tradutor de som em imagens


15/03/2007


Rodrigo Caixeta
16/03/2007

João Wainer é, hoje em dia, um dos nomes mais respeitados na fotografia brasileira. O sobrenome famoso é herança de família, e, ao contrário do que possa parecer, não exerceu nenhuma influência em sua opção pelo fotojornalismo. Ele é neto do jornalista Samuel Wainer, dono da extinta Última Hora. De forma isenta, João diz que “jornalismo não está no sangue”, mas reconhece que “ser neto de Samuel é um enorme prazer”.

O interesse de João pela fotografia foi despertado em 1990, quando ouviu, pela primeira vez, um disco dos Racionais MCs:
— Acho que virei fotógrafo para poder traduzir em imagens aquele som que me deixou louco quando ouvi. A música era cinema puro. Devo minha profissão ao Mano Brown, vocalista daquele grupo e ícone do rap brasileiro. A conseqüência disso é ter fotografado a primeira geração de rappers do movimento hip-hop brasileiro.

A estréia profissional, no entanto, aconteceu dois anos mais tarde, em 1992, quando começou como estagiário do Jornal da Tarde, de São Paulo. Em seguida, trabalhou em um estúdio como assistente de Bob Wolfenson. Foi contratado pela Folha de São Paulo, em 1996, onde está até hoje.
— São 15 anos de carreira. Comecei muito cedo, aos 16. Lembro bem da minha primeira foto de capa, no JT, em que aparecia o jogador Viola ao lado da modelo Cláudia Liz, num desfile da Fórum, na estação Júlio Prestes, em São Paulo. Fiquei eufórico. Diferentemente daquela época, hoje em dia tenho migrado um pouco para a fotografia em movimento, mas sempre com um pé na redação.

Para João Wainer, a principal qualidade que o fotógrafo deve ter é inteligência — “se o cara souber entender o que está fazendo, o resto é fácil”. E recomenda aos interessados em ingressar na profissão que “pensem antes de clicar”.Tendo a tecnologia como aliada, ele usa câmeras digitais o tempo todo, mas também tem equipamento analógico, ainda que o use cada vez menos. Diz, no entanto, que o digital não tirou o charme da fotografia:
— Isso é uma grande besteira. O mundo avança e mudanças fazem parte dele. Assim com existem desvantagens, existem vantagens e temos que nos adaptar. Esse tipo de reclamação faz parte do processo e é natural que aconteça. A tecnologia digital não prejudica em nada, muito pelo contrário. A máquina de escrever também foi extinta e no começo reclamaram, mas hoje ninguém tem saudades dela.

Entre as diversas coberturas das quais participou, João não sabe eleger qual foi a melhor, porém, a mais emocionante, diz, foi a da eleição do Presidente Lula, em 2002. Modesto, ele não costuma inscrever seus trabalhos em premiações de fotojornalismo, mas brinca que deveria fazê-lo “pelo dinheiro”, porque o prêmio em si não o empolga. Exposições, no entanto, contabiliza algumas no currículo:
— As mais legais foram “Retrato de campanha”, com fotos da primeira corrida eleitoral de Lula à Presidência, expostas em São Paulo, em 2002; e “Marginália” — ensaio com imagens dos contextos inspiradores das composições de rappers brasileiros —, que, em 2006, passou por Paris, Bordeaux, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Campinas e Curitiba.

Paralelamente ao seu trabalho na Folha, João Wainer cuida de projetos pessoais: está agora fazendo a finalização de um documentário em vídeo e, em seguida, retoma outro projeto antigo feito na periferia da capital paulista. Em meio a toda a correria da vida de um fotógrafo, ele ainda encontrou tempo para se dedicar aos livros “TTTSSS” e “As últimas praias”:
— São dois trabalhos diferentes. O primeiro é sobre “pixação”, que eu adoro, e considero um meio de expressão muito forte da periferia de São Paulo. Não é grafite, é pichação mesmo, que eles escrevem com “x”. Aquelas letras góticas nas paredes têm um significado fortíssimo que a maioria das pessoas desconhece. Em “As últimas praias” mostro a região entre Ubatuba e Paraty, que freqüento desde que nasci. Tenho fortes ligações com essas cidades, pois meu pai e toda minha família são nascidos lá.

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