16 de agosto de 2022


Torturas na ditadura e Esquadrão da Morte em filme no Macunaíma


01/06/2021


Macunaíma exibe um filme clandestino sobre ditadura

O Cineclube Macunaíma exibe hoje, a partir das 10hs até a próxima segunda-feira, Você Também Pode dar um Presunto Legal, documentário de Sérgio Muniz, de 39min, filmado, em 1976, durante a ditadura militar brasileira e lançado fora do circuito comercial, em 2006, em universidades, estando também no YouTube. É uma reflexão sobre a atuação do Esquadrão da Morte e do Delegado Sérgio Fleury, chefe do DOPS, em São Paulo, na década de 1970. Filmado clandestinamente, o documentário nunca foi exibido por representar risco de vida para seu elenco e equipe. Na época, seus negativos foram transferidos para Cuba, mas em 2006, o diretor digitalizou o filme.

Às 19h30, haverá um debate com os cineastas Sergio Muniz, João Batista de Andrade e Silvio Tendler, e o diretor de fotografia, Zetas Malzoni. Ricardo Cota será o mediador. Participaram do filme os atores Gianfrancesco Guarnieri (como o delegado paulista Sergio Fleury), Othon Bastos (como o promotor Hélio Bicudo) e Lafayette Galvão (como Arturo Ui, personagem de peça de Bertold Brecht). Assista o filme e o debate pelo canal da Associação Brasileira de Imprensa  do YouTube onde ficará gravado.

 

Filme

Com uma narrativa atual, o documentário utiliza-se de recortes de jornais e revistas, imagens captadas diretamente da televisão, transcrição de depoimentos de pessoas torturadas e fragmentos das obras de teatro A Resistível Ascensão de Arturo Ui (Bertold Brecht) e O Interrogatório (Peter Weiss), em exibição, na época, em São Paulo, que o diretor filmou e anexou ao documentário. Em 1970 e 1971, ele filmou clandestinamente Você Também Pode Dar Um Presunto Legal. E, em 1971, começou a filtrar as primeiras informações de tortura e quem torturava. Nesse primeiro momento da repressão, era a turma do Esquadrão da Morte, no caso de São Paulo, chefiado pelo delegado Fleury, que estava servindo de ensaio geral para a repressão que viria a seguir.

Além das duas peças em cartaz, Sergio filmou a Tradição, Família e Propriedade (TPF) em cenas cotidianas na Rua Augusta, inclusive um material inédito do arquivo jornalístico de uma emissora de televisão,nunca divulgado, onde o delegado Fleury é condecorado pela Marinha Brasileira pelos serviços prestados. Conseguiu os dois atores famosos – Guarnieri e Bastos –  para se fazerem passar pelo delegado Fleury  e pelo promotor Hélio Bicudo (militante dos Direitos Humanos).

Ainda em 1971, conseguiu revelar todo material filmado e transcrever o som. Depois de montado, ele mandou os originais acompanhados de uma carta (descrevendo o que queria como letreiros, trucagem, etc) para Cuba, para uma amiga que era montadora no ICAIC. Quando, finalmente, lhe entregaram uma cópia do filme sugeriram que naquele momento ele não o exibisse no Brasil, pois ele e os atores poderiam correr riscos.

O filme tem muitas músicas e peças de teatro e, no final de 2006, Sergio Muniz começou a fazer uma distribuição low profile porque, até hoje, tem medo de ter problemas de direitos autorais. Por precaução colocou um aviso nos estojos em que enviava o DVD com o filme: “pode ser exibido e copiado, desde que gratuitamente”: quer dizer, não está à venda. Tem músicas de Gilberto Gil, de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e alguns outros. Ele distribuiu para professores universitários e centros de estudos e, no seu computador, fez mais de 400 cópias, em 2006. Mas, o filme e foi para a Venezuela, Argentina, para uma Bienal em Valência, na Espanha e uma Trienal no Chile e, hoje tem vida própria. Está no Youtube e no site do Ministério da Justiça.

Sérgio Muniz é cineasta desde a década de 1960 e esteve na linha de frente de um momento singular da produção documentária brasileira, juntamente,  com Thomaz Farkas, Geraldo Sarno, Paulo Gil Soares, Edgardo Pallero, m melhor diretor no Festival de Gramado de 1978.

 

Debate

De debate sobre o filmes, particiam os cineastas Silvio Tendler, Sérgio Muniz e João Batista de Andrade, além do diretor de fotografia Zetas Malzoni.

João Batista de Andrade, por “Doramundo”,  foi premiado com o Kikito de melhor filme e melhor diretor no Festival de Gramado de 1978. Em 1981, o Kikito de melhor roteiro por “O Homem que Virou Suco”, que também ganhou a Medalha de Ouro de Melhor Filme no Festival de Moscou/1981. Em 1983, desmistifica violentamente a ilusão da abertura democrática em “A Próxima Vítima”, um de seus melhores filmes. Em 1987, ganhou quase todos os prêmios do festival  de Brasília, com o polêmico “O país dos tenentes”(com Paulo Autran) com temática ligada ao fim do regime militar. No ano seguinte, recebeu o prêmio de Melhor Filme no RioCine. Em 2005, realizou o documentário de longa metragem “Vlado, trinta anos depois”, sobre seu amigo Vladimir Herzog, morto em dependências do Exército em São Paulo em 1975. Em 2010, foi o grande homenageado do festival latino-americano de cinema (Memorial da América Latina).

Bastante atuante na área de política cultural, foi Ministro da Cultura  no governo Temer, mas pediu demissão, sendo ainda secretário estadual de Cultura de São Paulo na gestão Geraldo Alckmin, quando criou a Lei da Cultura (ProAc) com editais e incentivos para a produção cultural. Em 2012, foi nomeado Presidente da Fundação Memorial da América Latina.

Zetas Malzoni  é diretor de fotografia e tem seu nome impresso  em dezenas de filmes de cineastas como Silvio Tendler (“Anos JK” e “Jango”), Lúcia Murat (“Maré, nossa História de Amor”) e em uma coprodução internacional, “A Ilha dos Escravos” (Brasil, Cabo Verde, Portugal e Espanha). Realizou dezenas de curtas institucionais e fotografou longas de Roberto Santos  como “Nasce uma Mulher”,de Renato Tapajós, como o longa “Linha de Montagem”, eleito um dos cem melhores documentários brasileiros pela Abracine .Hoje, Zetas Malzoni cuida de sua fazenda. E conta história divertida: “um dia, fui negociar uma dívida com o gerente do banco. Ele não perdeu o jogo de cintura: “O senhor não se preocupe, porque cinema e cana-de-açúcar são a mesma coisa”, ou seja,  “um monte de gente sem dinheiro olhando o céu, perguntando se vai chover e garantindo que o próximo filme (ou a próxima safra) vai ser melhor”.

 

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