Silvio Paixão, o repórter sem medo


08/09/2011


O jornalista Sílvio Martins Paixão, 81 anos, morreu às 20h de sexta-feira, 2 de setembro último. Há anos ele lutava contra a ameaça insidiosa e mortal que se instalou em seu corpo, mas deixou-lhe a alma intacta para curtir até o final atividades como a de Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).  

Ele, que sempre fez da luta diária contra a morte seu principal impulso para viver. Principalmente como repórter com o perigo e a emoção a segui-lo de perto, marcando-lhe a carreira desde muito jovem. E fazendo dele o intimorato jornalista que, nos anos 1960, ao emigrar da bucólica Itaperuna de sua infância no Norte fluminense, buscou o jornalismo profissional para se realizar. Ele gostava de dizer que Itaperuna foi sua ”segunda cidade natal”, desde que, aos dois anos, sua família deixou Caratinga, MG, onde ele nasceu a 27 de março de 1930. 

Nesses anos de 1960 foi que ele ingressou na “Ultima Hora” carioca. E o fez – contavam colegas de Redação – “a sangue frio, no peito e na raça”, todos espantados com seu repentino ingresso em UH ao se apresentar anonimamente – “como um simples jornalista diletante” – ao editor Flávio Brito e ser aceito como repórter de assuntos policiais. Ingressava, assim, na mais aguerrida das editorias especializadas não só de UH, como também da imprensa do Rio de Janeiro. 

Foi nessa seção de Polícia com fama de “nunca ser furada” e, muito ao contrário, “sempre dar furos”, que o repórter Sílvio Paixão se formou e mergulhou fundo na apuração de crimes. Inclusive graves crimes oficiais/oficiosos, como foram os casos dos Esquadrões da Morte que tiveram em Sílvio Paixão um vigilante autor de reportagens-denúncias.  E cujas investigações chegaram a livrar da execução pelo menos um condenado, não tivesse sido ele – o condenado – localizado por Sílvio Paixão em um dos “xadrezes da morte” que funcionava na Baixada Fluminense. E o fez conseguindo que um advogado de confiança visitasse o preso em encontro fotografado e publicado em UH “antes que fosse tarde demais”. 
 
Fechada a “Ultima Hora” pelos golpes da ditadura militar, Sílvio Paixão já fizera fama como repórter de cidade, indo trabalhar no Globo, após passagem pelos Diários Associados, “Jornal do Brasil” e pelo “O Fluminense”, onde exerceu a chefia de Reportagem por longos anos. Depois do Globo, foi Subeditor da revista “Brasil Mais”, publicada pela Editora Europa do Rio.

Em 1999 – ele, que já era um ativista sindical desde o ingresso na imprensa profissional – se elegeu presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro. Sua plataforma foi a recuperação da entidade, dando continuidade à missão iniciada pelos antecessores na Presidência – Gilson Monteiro e Gentil da Costa Lima.

Paixão morreu no Hospital de Clínicas de Niterói assistido pela esposa Maria Helena e os filhos Sávio, Saulo e Sabrina. Foi sepultado na tarde de 3 de setembro na Charitas – um bucólico campo santo que lembra os cemitérios de sua Itaperuna. Os companheiros que foram ao adeus lembraram o metafísico poeta John Donne, um inglês do século XVII, que pregava o coletivismo até no ato final da vida: “Ninguém morre sozinho, a morte de um é parte da morte de todos”. Com a partida do companheiro Paixão vai muito de todos os jornalistas e amigos que o admirávamos/amávamos/respeitávamos.

Pinheiro Junior, membro do Conselho Deliberativo da ABI, trabalhou com Silvio Paixão por quase 30 anos em vários jornais do Rio e Niterói.