27 de setembro de 2022


Semana da Consciência Negra: Sangue Negro na História do Brasil


28/11/2021


 

Por Norma Couri, diretora de Inclusão Social, Mulher e Diversidade

A Morte Era Uma Festa

Semana da Consciência Negra: Sangue Negro na História do Brasil

Cinquenta anos depois da chegada das primeiras caravelas em 1500 os portugueses iniciaram o negócio mais rentável da face da terra: a importação de escravos. Eles vinham em dupla, amarrados nos pés e no pescoço até o momento do embarque na Guiné, Angola, Benin, e mofavam na masmorra até cinco meses antes de embarcar, marcados a ferro em brasa. Na viagem recebiam meio litro de água, milho, e chegavam a Salvador desnutridos, submetidos a um regime de engorda para serem vendidos. Aí começava a história do horror que só terminava com fuga, fuzilamento, suicídio. A morte era a festa da liberdade. Os brancos, a Igreja, as autoridades fecharam os olhos durante cinco séculos para esta profunda cicatriz da história do país. Até hoje os brancos se surpreendem ao ver uma negra filósofa ousar, como Djamila Ribeiro, vestir Prada e receber cachê de R$ 16.000,00.

De 1550 até a dita abolição em 1888 os escravos organizaram pelo menos 15 rebeliões em Salvador, marca do preconceito contra negros. Segundo o historiador Boris Fausto, nesse período o Brasil acumulava 4 milhões de negros escravizados. Destino principal, Bahia, depois, Rio de Janeiro. O negócio valia a pena, mesmo que “a carga” ficasse pelo mar no meio do caminho, como aconteceu em 1805 quando um navio embarcou abarrotado com 340 “peças” e chegou com 110 esquálidos guineenses: um escravo valia três vezes no valor de mercado – no escambo, de oito a dez tolos de fumo –, e o comprador já amortecia o custo entre 13 e 16 meses de trabalho. O resto da vida, só lucro.  Sobre esta história que nos humilha do começo ao fim o jornalista e escritor Fernando Granato mergulhou 20 anos e acaba de lançar Bahia de Todos os Negros (Intrínseca). Ele mostra de quanto sangue negro é tecida a história do Brasil.

Eram os burros de carga das plantações de cana de açúcar e algodão, importados por São Paulo para o cultivo de café, e tanto fazia a época de ouro ou a estiagem, eles recheavam os 90% da população no limiar da pobreza. Os estrangeiros que nos visitavam saiam “enjoados” de ver, “os negros faziam as vezes de cavalos”, “barbeiros cortavam cabelos e arrancavam dentes”. Perplexos com os serviços forçados a que eram submetidos, alertavam “no domingo bois, jumentos, criados devem descansar…”. Não era para espantar, os motins na cidade aconteciam enquanto ocorria uma festa religiosa. Os negros vinham munidos de flechas, espadas, cutelos, machados e eram massacrados por fuzis. Os que sobravam eram afogados ou submetidos a 1000 açoites, tudo em praça pública.

Não foram reconhecidos como heróis da pátria mas lutaram na guerra da Independência e do Paraguai. Eram proibidos de praticar capoeira, rodas de samba, de trabalhar em saveiros, e até de vagar em busca de trabalho: presos por vadiagem. Terreiros de candomblé, nem pensar, eram presos por feitiçaria. Por suas moradias insalubres foram culpados pela febre amarela em 1849 e pela cólera em 1855.

A Inglaterra havia abolido os escravos em 1807, a comunidade internacional forçava o Brasil a retroceder. Nossas leis eram “para inglês ver”. Depois da proibição de importação de escravos em 1831 os desembarques se tornaram clandestinos, e os “proprietários” só emancipavam o negro que prestasse 14 anos de serviços, um “aprendizado de liberdade”.

A revolta mais sangrenta foi a dos Malês, muçulmanos em iorubá, e dela acredita-se que tenha participado Luíza Mahin, a mãe de Luiz Gama, segundo uma carta autobiográfica do abolicionista que ilustra o livro: “era quitandeira…e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos… em 1837, depois da revolução [Sabinada]…veio ela ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou”. As mulheres são uma história de estupro e violência à parte. Luíza Mahin fundou a Irmandade da Boa Morte, um movimento feminista e de resistência ao escravismo. Porque mesmo depois da Lei do Ventre Livre em 1871 as escravas que pariam apanhavam ao amamentar, e as fugitivas preferiam afogar os filhos e se matar do que voltar ao cativeiro.

Os escravos se suicidavam por enforcamento, armas de fogo, envenenamento, afogamento.  Roger Bastide descreveu a crença no candomblé de que as almas dos mortos deixariam o Brasil para se unir aos antepassados na África. Morte era liberdade. E era cantada em voz alta  nas ruas de Salvador, “ Desses quatro barris velhos/ Podem fazer meu caixão/ Para quem vive de dores/ Morrer é consolação” .

 

 

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