08/12/2025
Por Marcos Gomes (*)

Com o tema Renascimento do panafricanismo e o papel da África na reforma das instituições multilaterais: mobilizar recursos e reinventar-se para agir teve início, nessa segunda-feira (8), no Centro de Convenções de Lomé, o 9º Congresso Pan-Africano, reunindo lideranças políticas, intelectuais, movimentos sociais e representantes da diáspora de diversos países. O Brasil participa com uma das maiores delegações do evento, formada por cerca de 60 pessoas, demonstrando o fortalecimento das relações com o continente africano e o compromisso histórico com o debate do panafricanismo.
Entre os brasileiros presentes, destacam-se importantes intelectuais negros e negras, como a professora da UFRJ, Helena Teodoro; a historiadora Wania Sant’Anna e o babalawô e professor Ivanir dos Santos, fundador do CEAP – Centro de Articulação das Populações Marginalizadas. A presença dessas lideranças reforça a centralidade da contribuição afro-brasileira na discussão sobre memória, ancestralidade, justiça global e direitos da diáspora.
Um dos momentos mais simbólicos da abertura foi a homenagem ao togolês Sylvanus Olympio, figura decisiva no processo de independência do Togo em relação à França. O gesto ganhou ainda mais significado pela presença dos herdeiros do jornalista brasileiro Olympio Marques – parente do Sylvanus – e que foi sócio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e destacado militante do Partido Comunista Brasileiros e do Movimento Negro. Compareceram à cerimônia, o filho Antonio Carlos Marques e os netos Hanna Marques, Ruben Jr. e Saulo Araujo, todos emocionados com o reconhecimento das raízes familiares e da trajetória política de Sylvanus Olympio.
Outro destaque da cerimônia foi a exibição da foto do senador, ativista e professor Abdias Nascimento, ovacionado pelo público. Para o poeta Ele Semog, presidente do CEAP, o aplauso foi “mais do que justo, porque Abdias foi a principal voz do panafricanismo no Brasil, sendo muito respeitado também no exterior”. A lembrança de Abdias reforçou a importância da contribuição intelectual afro-brasileira para o movimento panafricanista global. Também foram homenageada a vereadora Marielle Franco e Zumbi dos Palmares.
Em seu discurso, a vice-presidente da Colômbia, Francia Márquez, abordou o tema das reparações históricas pelos danos da escravidão e do colonialismo. “Essa precisa ser uma reparação pelo direito à moradia, à saúde, à educação, à qualidade de vida”, afirmou, destacando que países que enriqueceram à custa da exploração da mão de obra escravizada têm responsabilidade moral e política no processo.
O presidente do Conselho de Ministros do Togo, Faure Essozimna Gnassingbé, também enfatizou a urgência de reformar os mecanismos de governança global. Para ele, “o panafricanismo é uma exigência, e o mundo não pode mais ser governado sem a África”, defendendo que o continente tenha assento com voz e voto no Conselho de Segurança da ONU. Sua fala sintetizou a principal pauta política do congresso: o reposicionamento da África no sistema internacional.
Com debates, painéis temáticos, atividades culturais, o 9º Congresso Pan-Africano segue até sexta-feira, em Lomé, consolidando-se como um espaço estratégico de articulação para o futuro político, econômico e social do continente africano e de seus descendentes.
(*) diretor administrativo da ABI