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Quando matam um jornalista, matam um direito de todos


18/06/2026


Por Ricardo Viveiros (*)

Por que o assassinato de um jornalista provoca tanta repercussão e indignação? A vida de um profissional da imprensa não vale mais do que a de qualquer outra pessoa. Toda vida tem o mesmo valor. A diferença está no significado coletivo desse crime.

Quando um jornalista é morto por exercer sua profissão, o alvo não é apenas um indivíduo. O ataque também busca silenciar informações, intimidar colegas e impedir que fatos de interesse público venham à tona. Trata-se de uma agressão direta ao direito da sociedade de ser informada.

Em 2025, essa realidade voltou a se impor de modo dramático. Segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), 67 jornalistas foram assassinados em razão de seu trabalho. Não foram vítimas de acidentes nem de danos colaterais. Foram mortos porque investigavam, denunciavam, registravam e informavam.

As zonas de guerra seguem entre os lugares mais perigosos para a profissão. Cerca de 43% dos jornalistas assassinados nos últimos 12 meses morreram na Faixa de Gaza – Palestina, em ações atribuídas às forças armadas israelenses. Na Ucrânia, jornalistas nacionais e estrangeiros continuam sob a ameaça de ataques russos. Já o Sudão consolidou-se como outro dos cenários mais mortais para quem tenta documentar conflitos e crises humanitárias.

A violência contra a imprensa não está restrita às guerras. O México tornou-se, em 2025, o segundo país mais perigoso do mundo para jornalistas, com nove profissionais assassinados. O avanço do crime organizado e a incapacidade do Estado em garantir proteção alimentam um cenário alarmante. Especialistas apontam ainda para a violência contra a imprensa na América Latina, continente que responde por 24% dos assassinatos de jornalistas registrados no planeta. E nessa estatística também entram, além do México, Índia, Peru, Filipinas, Turquia, Egito, Venezuela e Brasil.

Os profissionais locais são os que mais sofrem. Dos jornalistas mortos neste ano, apenas dois foram assassinados fora de seus países de origem: o fotojornalista francês Antoni Lallican, morto por um ataque de drone russo na Ucrânia, e o jornalista salvadorenho Javier Hercules, assassinado em Honduras, onde vivia havia mais de uma década. Todos os demais perderam a vida cobrindo acontecimentos em seus próprios países.

A perseguição à imprensa vai muito além dos assassinatos. Atualmente, 503 jornalistas estão presos em todo o mundo. A China mantém o maior sistema de encarceramento de profissionais da mídia, com 121 detidos. A Rússia aparece logo atrás, com 48 presos, incluindo 26 jornalistas ucranianos. Na Síria, um ano após a queda de Bashar al-Assad, dezenas de repórteres seguem desaparecidos, tornando o país líder mundial nesse tipo de violação. Também têm mais de uma dezena de jornalistas presos: Israel, Mianmar, Belarus e Azerbaijão.

Para o historiador francês, Thibaut Bruttin, diretor-geral da RSF, o aumento da violência é resultado de um ambiente de hostilidade crescente contra a imprensa e da impunidade dos responsáveis. Segundo ele, a crítica aos meios de comunicação é legítima e necessária, mas não pode se transformar em ódio aos jornalistas, quase sempre estimulado por grupos armados, organizações criminosas e interesses políticos.

A advertência é contundente: jornalistas não dão a vida pelo jornalismo; ela lhes é roubada. E quando isso acontece, não é apenas uma tragédia individual. É um ataque à liberdade de imprensa, ao acesso à informação e à própria democracia. Importante, em qualquer contexto, ter claro que liberdade de expressão implica em responsabilidade de expressão. Em compromisso com a verdade.

Uma sociedade que permite o silenciamento de seus jornalistas corre o risco de permanecer no breu da ignorância em relação aos fatos, aceitar versões mentirosas deles. Quando o medo cala a imprensa, todos perdem.

(*) jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta, aos domingos às 7 horas (da manhã), na TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.