9 de agosto de 2022


Pratas da Casa – Ivan Proença: um capitão em defesa da liberdade


29/03/2021


Por Lucas Schuenck e João Batista de Abreu*

Ivan Cavalcanti Proença    Foto: Divulgação

As nove décadas do jornalista Ivan Cavalcanti Proença, comemoradas no último dia 17 de março de 2021, possuem similaridades com a jornada do herói, observada pelo escritor Joseph Campbell no livro O Herói de Mil Faces (1949). Sua trajetória poderia ser contada por meio de algumas fases e faces do personagem retratado: iniciou na carreira militar, tornou-se herói – título que rejeita até hoje – do episódio do Largo do Caco, em 1º de abril de 1964; virou prisioneiro do regime militar, dedicou-se ao magistério e se transformou em escritor.

Há mais de quatro décadas participando das lutas da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) pela democracia, Ivan Proença já foi presidente por quatro mandatos do Conselho Deliberativo e atualmente é um de seus membros mais atuantes. Aos 90 anos recém-completados, o também professor, escritor e ex-capitão do Exército Brasileiro narra sua história de vida para os colegas jornalistas Lucas Schuenck e João Batista de Abreu, também conselheiros da ABI.

A entrevista — que pode ser assistida na íntegra em nosso canal do Youtube – faz parte da segunda edição do ‘Pratas da Casa’, projeto criado pela Diretoria de Assistência Social em 2019.

Bolsonaro, o capitão que envergonha o Exército

Do alto de sua experiência, que enxergou e viveu diversos episódios da História brasileira, Proença se diz preocupado com a conjuntura que se apresenta politicamente em terras tupiniquins sob a administração de Jair Bolsonaro.

“É um tanto surpreendente o Brasil de hoje. Eu passei por várias fases de governos e desgovernos. O que está acontecendo hoje seria inimaginável há um tempo. Este governo extrapolou, foi muito além do que se poderia esperar de um mau governo. Além de ser péssimo política e administrativamente falando, prega elogios à ditadura, ao AI-5 e homenageia o torturador-mor (Carlos Brilhante Ustra). É um governo comprometido com tudo aquilo que aconteceu durante aqueles 20 anos da ditadura no Brasil”, afirma.

Com extenso currículo militar, o ex-capitão de Cavalaria do Exército diz que não considera o mandatário da República como um bom oficial. Para ele, Bolsonaro não representa os militares pensantes e reflexivos. “Ele foi um péssimo militar. Não pode servir de definição para a classe. Cercou-se de alguns desses militares mais entusiasmados, que pulam na frente, mas que não representam nem de longe a essência dos militares pensantes e reflexivos”, declara.

Proença constata ainda sua surpresa com a continuidade de Bolsonaro no Planalto. “Considero quase inacreditável a permanência de um espírito ditatorial, autoritário como este (na Presidência). Com um governo que trata a pandemia do jeito que ele trata, isto é uma coisa insana. Para mim, com toda experiência em todos meus convívios anteriores, este governo nos surpreendeu no aspecto negativo, pelos atos mais lamentáveis que se possam imaginar”, critica.
Vida militar iniciada aos 10 anos

Oriundo de uma família de oficiais das Forças Armadas, Ivan Proença ingressou no Colégio Militar do Rio de Janeiro aos 10 anos de idade. Destacou-se como estudante e, por isso, recebeu a patente simbólica de oficial-aluno. Após concluir o Ensino Médio, ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende, no Sul Fluminense.

Em um dia festivo, no ano de 1949, pediu a palavra na frente dos dirigentes máximos do Exército e do então presidente da República, Marechal Eurico Gaspar Dutra, para criticar a violência do trote e a sua contraindicação para jovens oficiais na unidade. Tempos depois, já capitão do Exército, envolveu-se em 1º de abril de 1964 num episódio que o imortalizou pelo ato de resistência em defesa da democracia.

O jovem oficial comandou a tropa que impediu a invasão de um grupo de milicianos favoráveis ao golpe militar à Escola Nacional de Direito, na Praça da República, no Rio de Janeiro, onde estudantes militantes do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (Caco) se refugiavam. Segundo Ivan, caso não o tivesse impedido, o grupo paramilitar “provocaria um massacre”.
O verdadeiro dia do golpe militar

O professor Ivan Proença não gosta de falar sobre o que aconteceu na tarde do dia 1º de abril de 1964 – data que, segundo ele, marca verdadeiramente o golpe militar. O desconforto em relatar o episódio está no que classifica como exagero ao lhe conferir o título de herói. “Eu apenas cumpri o meu dever”.

Proença evita falar sobre esse capítulo da História do país e da sua própria história. “Na ABI eu fui presidente do Conselho Deliberativo nas gestões de Maurício Azedo e de Domingos Meirelles. Nunca ninguém me viu falar sobre esse episódio por um motivo muito simples: eu fui agraciado na imprensa, na televisão e na Assembleia Legislativa com o título de herói. Não vejo heroísmo algum de minha parte. Eu rejeito o título de herói ou coisa similar porque, na verdade, eu dispunha de armas. Ia se perpetrar um massacre ali”, comenta, antes de narrar os fatos.

O então capitão conta que recebeu ordens, no início daquele dia, para verificar se João Goulart, então presidente da República, ainda estava no Palácio Laranjeiras, no Rio, ou se retornaria a Brasília.

“No dia 1º de abril — que é o dia verdadeiro do golpe, e não o dia 31 de março —, eu era de um regimento de elite, o Dragões da Independência, encarregado da guarda do Presidente. Eu era capitão, às vésperas de ser promovido a major, quando meu comandante, cedinho da manhã, me chama e diz: ‘Olha, eles (os golpistas) estão crescendo. Nós perdemos as comunicações com o Palácio Laranjeiras. Vá ao palácio saber se o Jango realmente foi embora. Temos que confirmar esta informação, se ele já foi de fato. Se ele foi, você assume o comando no Ministério da Guerra porque nós sabemos que alguns coronéis do golpe vão se reunir por lá hoje’”, relata Proença.

Assim que chegou ao palácio, o capitão constatou que Jango já tinha ido para Brasília: “Ele (o presidente) não queria derramamento de sangue entre brasileiros”. Quando chegou ao Ministério da Guerra, na Avenida Presidente Vargas, junto à estação ferroviária Central do Brasil, percebeu que, de fato, alguns coronéis golpistas estavam reunidos conspirando. Proença foi alertado por dois sargentos sobre um conflito que ocorria ao lado da Casa da Moeda — também guarnecida pelo Exército — que ficava ao lado da Faculdade de Direito da Universidade do Brasil.

O ‘anti-herói’ do Largo do Caco

Segundo os sargentos, um grupamento paramilitar armado com metralhadoras, revólveres e granadas de gás lacrimogêneo havia atirado contra estudantes contrários ao golpe. Os manifestantes buscaram, então, refúgio na faculdade, e ficaram encurralados.

“Na mesma hora, reuni meu pessoal, peguei um jipe e fui. Já estava todo equipado, de prontidão e fomos para lá. Em três ou quatro minutos, chegamos. Os caras estavam realmente com as armas em punho e os dois mais à frente jogaram granadas dentro da Faculdade de Direito […] Ou seja, os estudantes morreriam sufocados ou sairiam em direção às armas”, descreveu Proença.

O capitão dos Dragões da Independência alertou os milicianos para que deixassem a área e não foi acatado inicialmente pelo grupo. “Eu alertei que aquela era uma área que eles não podiam estar, que eles deveriam se retirar. Eles não se retiraram. Houve alguns problemas (trocas de tiros) entre nós e eu consegui que eles fugissem. Eles chegaram a ficar com as armas voltadas para nós, mas nós tínhamos um carro de combate, um tanque. Nós tínhamos superioridade e isso fez com que eles desistissem”, explicou.

Após a desistência dos milicianos, Proença entrou na Faculdade de Direito e, com medo de que os golpistas estivessem de tocaia, aguardando a saída dos estudantes, organizou a saída. “Eles viram a gente entrando ali e acharam que era outro ataque. Quando abriram a porta, vi uma cena horrível. Tudo esfumaçado, alguns caídos. Foi uma cena inesquecível. Eu organizei a fuga deles, em grupos de 10. Uns pela Rua Moncorvo Filho e outros pelo Campo de Santana. Estava com medo que os caras estivessem esperando armados lá fora. Então os cerca de 400 estudantes foram saindo com segurança”, detalhou.

Pelo episódio, Ivan Proença recebeu o título de presidente honorário do Caco. “Foi um episódio que, sinceramente, não foi mais do que obrigação”, resume o professor, com o sentimento de dever cumprido.
Prisão, academia e produção literária

Quando retornou ao Ministério da Guerra, Ivan Proença foi preso imediatamente e conduzido para a Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói. Após descobrirem um plano de fuga com outros presos, no entanto, o capitão foi transferido, sozinho, para o Forte Imbuhy, na mesma cidade. Neste período, também foi afastado do Exército. Depois de solto, Ivan ganhou a companhia permanente de um agente do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

Iniciou a vida civil e prestou vestibular para Letras na antiga Universidade do Estado da Guanabara (UEG), hoje Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Ele conta ter ouvido do policial que só cursaria a universidade porque passou em primeiro lugar geral naquele concurso. Segundo ele, o comando do Exército estava determinado a impedir que se tornasse professor.

“Só pude cursar a UEG porque tirei primeiro lugar na classificação geral. Aquilo deu notícia em jornal, em televisão, rádio e entrevista. Isso porque eu saí da prisão, fui fazer vestibular e tirei o primeiro lugar. Assim, eles não puderam me impedir de cursar. Não me queriam em uma formação universitária como professor, mas o meu agente do Dops, que cuidava só de mim, me disse: ‘Olha, o senhor vai poder ficar na UEG porque não compensa ao Comando Militar, aos órgãos de repressão tirar, porque seria um escândalo. O senhor vá sabendo que aula não vai dar. Professor não vai ser’”, relembra o velho mestre, que lecionou no ensino superior até os 85 anos.

A vida deu a volta por cima. Ivan concluiu o curso de Letras, fez mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, mais tarde, doutorado em Poética na mesma universidade. Lecionou, entre outros lugares, nas Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no bairro de Botafogo, e publicou 14 livros.

Aos 90 anos, mestre e doutor em Literatura, autor de inúmeros livros e ensaios, Ivan Cavalcanti Proença mostra-se um vencedor. Quando vestia farda de oficial, interveio para manter a paz. Civil, usou sua sabedoria para disseminar conhecimento entre os jovens. Até hoje ele coordena uma oficina de literatura e participa ativamente do dia a dia da ABI como conselheiro, provando que a idade não é problema para este capitão e mestre de fôlego invejável.
Mais sobre o Pratas da Casa

O Pratas da Casa foi criado pela Diretoria de Assistência Social (DAS/ABI) para reverenciar e valorizar seus jornalistas associados há mais tempo. Todos com relevantes histórias para contar, além de terem ajudado a construir e a solidificar a história e a memória da ‘Casa do Jornalista’. Afinal, a memória é um artefato poderoso que traz o ontem, a fim que se elabore o amanhã, a partir do que se vive hoje.

“A humildade e a altivez com que Ivan Proença nos brinda neste espaço, com tamanha riqueza de detalhes, como agente e protagonista de fatos históricos de nossa democracia, confirmam sua grandeza de herói em favor das liberdades e também seu valoroso legado para a ‘Casa do Jornalista’”, disse Rosayne Macedo, diretora de Assistência Social da ABI.

Segundo ela, esta edição do ‘Pratas da Casa’ com Ivan Cavalcanti Proença é mais do que uma homenagem a um dos nossos mais ilustres associados. É também um verdadeiro encontro de gerações do Jornalismo.

“Conseguimos reunir dois conselheiros da casa — os jornalistas João Baptista de Freitas, de 67 anos, e Lucas Schuenk, nosso mais jovem conselheiro, de 28. Sem dúvida, mais um fato histórico na memória da ABI, às vésperas de completar 113 anos”. A live contou ainda com a participação do jornalista e radialista Paulo Marinho, integrante da Comissão de Assistência Social da ABI.

As entrevistas do Projeto Pratas da Casa são mensais, publicadas no site da ABI e/ou em suas redes sociais, sendo sempre feitas por conselheiros e associados da casa, convidados pela DAS. A primeira edição, publicada em maio de 2020, contou com o conselheiro Lóris Baena, mais antigo associado da ABI, que infelizmente nos deixou no início de março, aos 97 anos (veja mais aqui). Para sugestões, envie um email para das@abi.org.br.

*João Batista de Abreu é jornalista, sociólogo e professor titular do curso de Jornalismo da UFF.  Lucas Schuenck é jornalista formado pela UFF, ex-repórter e editor de O Fluminense e analista da Print Comunicação.

** Com edição e revisão final de Cristina Nunes e Rosayne Macedo, da Comissão de Assistência Social.

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