3 de outubro de 2022


PM deixou corpo de Ray no Hospital Salgado Filho


26/02/2021


O adolescente Ray Pinto Faria

PM deixou corpo de Ray, 14 anos, no Hospital Salgado Filho

Por Rogério Marques, jornalista, membro da Comissão de Direitos Humanos e Liberdade de Expressão da ABI

Ao contrário do que diz a nota dúbia e burocrática da Polícia Militar aos jornais, o adolescente Ray Pinto Faria, que morava com a família no Morro do Fubá, em Campinho, subúrbio do Rio, não foi socorrido no Hospital Salgado Filho, no Méier. Ele já chegou morto ao hospital, levado por policiais militares.

Ray, 14 anos, foi baleado durante uma operação da Polícia Militar, segunda-feira, dia 22, em várias comunidades de Campinho e outros bairros das Zonas Norte e Oeste. Depois dessas operações, em que dois adultos também foram mortos e levados para o Salgado Filho, a Polícia Militar informou que o objetivo foi coibir grupos criminosos que disputam a região da Praça Seca, na Zona Oeste.

A família de Ray afirma que ele estava na porta de casa, de manhã, jogando no celular, quando foi levado pelos policiais militares e executado. A PM nega.

Depois de procurar o menino por toda a favela, parentes e amigos de Ray foram encontrá-lo morto a tiros, no mesmo dia, no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier. Eles acusam policiais de terem levado o equipamento das câmeras de uma padaria, para evitar que as imagens incriminassem os PMs.

Por e-mail, a assessoria de comunicação da Secretaria Municipal de Saúde confirmou ao site da Associação Brasileira de Imprensa que Ray já chegou morto ao hospital:

“O paciente Ray deu entrada no Hospital Municipal já em óbito. O corpo foi trazido pela PM.”

A Polícia Militar informou ao site UOL que “o 1º Comando de Policiamento de Área (CPA) e o Comando de Operações Especiais (COE) atuaram ontem na zona norte e parte da zona oeste da cidade, para coibir a ação de grupos criminosos que disputam a região da Praça Seca, na Zona Oeste. As equipes estiveram ontem em oito comunidades: Caixa D’ Água, Camarista Méier, Campinho, Fubá, Lemos Brito, Morro do Dezoito, Morro do Urubu e Saçu. De acordo com a PM, durante as ações, foram apreendidos três fuzis, três pistolas, duas granadas e entorpecentes”.

Através de nota a corporação informou, também: “Três indivíduos foram atingidos e socorridos ao Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, onde não resistiram. Um quarto suspeito foi detido. Todas as circunstâncias das ações estão sendo apuradas pelo Comando de Operações Especiais (COE) e pelo 1° Comando de Policiamento de Área (CPA)”.

É difícil passar um mês, às vezes bem menos, sem que aconteça um novo caso de crianças ou adolescentes mortos em operações da Polícia Militar. Mais uma vez, a vítima é um jovem preto, pobre, morador de comunidade.

A família de Ray diz que ele não tinha envolvimento com o tráfico, que era um menino tranquilo e cursava o quarto ano do Ensino Fundamental da Escola Municipal Edgard Romero.

Neste momento de discursos de ódio que estamos vivendo, muitas pessoas levantam suspeitas contra Ray nas redes sociais e acusam o menino. É o retrato de uma sociedade doente, de uma época triste. Ainda que Ray tivesse algum tipo de envolvimento com tráfico ou milícias, ele continuaria sendo um menino, quase uma criança.

Muitos policiais militares também têm morrido nesses confrontos insanos. Ninguém nega isso. É preciso parar um pouco e refletir, porque alguma coisa está errada nessas operações. Os policiais, também de origem humilde, são treinados para ver os moradores de favelas como inimigos. Faltam também investimentos nas comunidades, principalmente em educação e saúde, porque a desigualdade social é uma das causas da violência.

Na terça-feira, dia em que o corpo de Ray foi enterrado, o presidente da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, disse ao jornal O Globo que entre 2007 e 2021 o estado teve 81 crianças de até 14 anos mortas por balas perdidas.

A mãe de Ray, Alessandra da Silva Pinto, disse que “ver um filho partir é conhecer a maior de todas as dores, e que tempo algum será capaz de curar.

Um primo do menino, Lucas Isaías da Silva, de 19 anos, disse que a família inteira está arrasada.

— Nós só queremos justiça, porque uma criança que tinha uma vida toda pela frente teve a vida perdida. Sonhos que ele tinha foram perdidos. Hoje, a minha prima chora, minha família chora. E hoje é a minha família, mas amanhã, podem ser outras. Vão continuar crianças morrendo? Eles matando sem mais nem menos e nossa justiça não será feita?

Sim, é preciso que se faça justiça. Ray, de 14 anos, era quase uma criança. Isso jamais poderia ter acontecido. Que a matança de crianças e adolescentes nas comunidades tenha fim.

 

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