16 de agosto de 2022


“Playboy na Favela;
Favelado no Asfalto”


11/11/2020


 

Cadu Barcellos (Crédito: G1)

“Playboy na Favela; Favelado no Asfalto”

Ricardo Cota*

Era assim que ele se definia, resumindo com humor sua personalidade singular. Cria do Complexo da Maré, o cineasta Cadu Barcellos tirava sarro de si mesmo ao expor suas contradições. Dono de um estilo muito próprio, sempre inventando moda, tirava de letra o preconceito que vinha de todos os lados. Se na comunidade ou nas favelas por onde transitava era muitas vezes definido como “playboy” – pela criatividade no vestir -, no asfalto era alvo do preconceito racial, que o enquadrava na condição de “favelado”.

A alma de artista, no entanto, sempre empurrou Cadu adiante. Ao lixar para a opinião alheia, ele dava exemplo a seus pares. Muito antes de ser cineasta, Cadu já havia se destacado artisticamente. Em 2002, adolescente, participou do espetáculo “Dança das Marés”, coordenado pelo coreógrafo Ivaldo Bertazzo. A iniciativa foi filmada pela cineasta Helena Solberg, que dez anos depois retornou à Maré para reencontrar os adolescentes dançarinos. Cadu foi um dos poucos que continuou firme no seu projeto artístico, agora ligado ao cinema.

Fez parte do grupo de realizadores que sob a coordenação de Cacá Diegues e Renata de Almeida Magalhães realizou “Cinco Vezes Favela – Agora por nós Mesmos”. Inspirado pela antológico “Cinco Vezes Favela”, rodado nos anos 60, o filme reunia episódios com diretores oriundos de comunidades e favelas do Rio de Janeiro. O episódio de Cadu, “Deixa Voar”, expressava bem sua visão de mundo. Flávio, um jovem de 17 anos, deixa a pipa de um amigo cair na favela rival, sendo constrangido a buscá-la. A divisão entre os mundos sob o jugo do tráfico é encarada com ironia, espelhando a utopia de Cadu de um mundo sem divisões, sem domínios, sem comandos.

Com os amigos Wagner Novais, Luciano Vidigal, e Rodrigo Felha, Cadu dirigiu ainda “Cinco Vezes Pacificação”, filme-rasante sobre a política implantada pelas UPPs no Rio de Janeiro. Foi neste período que o conheci. O filme impulsionou o debate democrático sobre os avanços e retrocessos da pacificação. Cadu, com seu ponto de vista, participou de debates sobre a violência urbana no Rio, no Brasil, na América e na Europa. Não se intimidou nas sabatinas do The New York Times ou nas cátedras da Sorbonne. Falava com segurança e muita propriedade. Junto com seus parceiros, alertou para a complexidade dos dilemas vividos nas comunidades e favelas e relatou o estresse de viver entre a desmedida autoridade policial e o desmando das facções criminosas.

Rubro-negro, bem-humorado, criativo, pai amoroso, era nosso “cover” do Gustavo Lima. No momento, estava trabalhando na equipe do Porta dos Fundos. Dali, com certeza, só ascenderia. Mas seu voo foi interrompido de forma estúpida, numa madrugada, vítima de facadas. Logo ele, que viveu propagando o amor, a paz e a camaradagem. Não faz sentido. Alguns carnavais passados, Cadu sumiu da área. Perdeu o celular e ficou incomunicável. Houve uma mobilização nas redes sociais, todos preocupados com o que poderia ter ocorrido. Quando Cadu reapareceu, liguei imediatamente para o amigo. “Que susto, hein cara?” Ele respondeu singelamente: “Caramba! Não sabia que era tão amado”. Pois é parceiro, você era, é e será sempre muito amado.

*Ricardo Cota é jornalista, foi curador da Cinemateca do MAM e, atualmente, é curador do Cineclube Macunaíma da ABI. Foi amigo do cineasta esfaqueado e morto nos arredores do metrô Uruguaiana, na madrugada de ontem.

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