Banner 2
Banner 3
Banner 1

“Pelé me salvou durante uma excursão da seleção brasileira”


05/08/2024


O sucesso que fazem hoje Messi, Cristiano Ronaldo e Mbappé mundo afora, não chega nem perto da idolatria que milhares de pessoas tinham pelo nosso Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, nos anos de 1960 e 1970 – quando a seleção brasileira conquistou o tricampeonato mundial de futebol. Nesse passado glorioso do futebol brasileiro – época sem internet e rede social, é bom lembrar – jornalista esperto sempre arranjava um jeito de levar na mala, durante suas viagens internacionais, um conjunto de camisas da seleção brasileira com o número 10 gravado nas costas. A “amarelinha do Pelé” servia como passaporte para situações complexas em aeroportos e de “souvenir” para ser oferecida em qualquer parte do mundo. Especialmente para abrir portas, escapar de encrencas e ser bem recebido.

O relato do fotógrafo Sebastião Marinho é o décimo programa do Acervo Jornalista Gustavo de Lacerda que vai ao ar, nesta terça-feira, 6 de agosto, às 11h, no canal ABI TV no Youtube. Acesse pelo link –https://youtu.be/_gJYyHrHKgE.

O jornalista Sebastião Marinho, uma lenda do fotojornalismo brasileiro e que em dezembro completa 87 anos, lembra bem dessa época. Com passagem por diversos jornais e revistas do país, especializado em cobertura esportiva, o fotógrafo fez centenas de viagens internacionais cobrindo futebol e a seleção brasileira. Conheceu praticamente todos os continentes do planeta. Em mais um episódio do Acervo Jornalista Gustavo de Lacerda, ele contou um pouco de sua trajetória e narrou uma passagem inusitada envolvendo a figura do ‘Rei do Futebol’.

Foi na alfândega do Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riade, capital da Arabia Saudita.

“Eu acho que isso ocorreu em 1969 quando a seleção brasileira estava fazendo uma espécie de excursão preparatória para a Copa do Mundo de Futebol no México. Os policiais e fiscais implicaram com meu equipamento quando a mala passou pela esteira do raio-X. Uma das lentes da minha máquina fotográfica Nikon parecia mesmo uma pistola. Resumo: fui levado para uma revista mais rigorosa numa sala reservada do aeroporto” – conta Sebastião Marinho.

Para os mais jovens, uma informação: nos anos de 1960 e 1970, os fotógrafos viajavam levando na mala um “laboratório fotográfico” para revelar os filmes (não havia a fotografia digital) e fazer a transmissão das fotografias para os jornais e revistas. Em outras palavras: era muita bagagem, muita correria e muito equipamento estranho na bagagem. O que sempre provocava desconfiança em policiais e fiscais nos aeroportos.

“Na sala durante a revista, eu fui mexer na máquina fotográfica para retirar as pilhas. A Nikon precisava de oito pilhas para funcionar. Quando eu comecei a retirar vem o espanto: os policiais começam a falar, repetidamente: “Pelé”, “Pelé”, “Pelé”. E então eu percebi o retrato do rei gravado nas pilhas Rayovac e todos olhando a imagem do Rei do Futebol. O clima mudou na hora! Eu fui liberado, mas o conjunto de pilhas ficou com os policiais e fiscais”, lembrou Marinho.

Com o sucesso no futebol, Pelé passou a ser uma das pessoas mais conhecidas do planeta. No Brasil, isso rendeu dezenas de convites para fazer propaganda e comerciais dos mais variados tipos. Uma das propagandas era exatamente das pilhas “Ray-O-Vac” em que o craque aparecia de chuteira, calção e camisa amarela e azul.

Nascido em Santos Dumont, na região da Zona da Mata de Minas Gerais, Sebastião Marinho teve uma carreira brilhante. E histórias para contar não faltam. De “lambe-lambe” na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, alcançou o reconhecimento nacional trabalhando duro. Com seu olhar atento e mãos ágeis, Marinho também chamou a atenção de Assis Chateaubriand, o todo poderoso dono dos Diários Associados, e foi professor de fotografia até mesmo de Roberto Marinho, outro “Barão” da imprensa brasileira. Chegou a receber um livro, presente da Rainha Elizabeth II, com várias fotos suas. Registros que Sebastião Marinho fez da visita da monarca britânica ao Brasil durante 12 dias, em novembro de 1968.

Na capital mineira ele começou a ter contato com a arte de fotografar trabalhando como “lambe-lambe”. Esse nome se refere ao movimento que o fotógrafo faz ao molhar a emulsão fotográfica com um pincel ou esponja para revelar a imagem, como se estivesse “lambendo” a foto. Os “lambe-lambe” eram comuns em locais públicos, como praças, parques e avenidas movimentadas, especialmente antes da popularização das câmeras instantâneas e digitais. Eles ofereciam serviços rápidos e acessíveis, como fotos para documentos, retratos e registros de eventos.

A Rainha e o Rei

Em novembro de 1968, Marinho registrou a primeira visita de um monarca britânico ao Brasil. A Rainha Elizabeth II, ao lado do Príncipe Philip, esteve em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Salvador. Cinquenta anos depois Sebastião Marinho foi agraciado com um exemplar do livro “O protocolo perde para o carinho” que celebrou a visita do casal. Nele estão publicadas várias fotos assinadas por Sebastião Marinho.

Do Maracanã aos campos de futebol pelo mundo, Marinho documentou a genialidade de Pelé, a cada drible, a cada gol, a cada soco no ar. Participou das cerimônias íntimas da família do Rei do futebol e numa delas, em Santos, no litoral paulista, em 1970, fotografou o batizado de Edinho, segundo filho de Pelé com Rosemeri Reis. Foi o único autorizado a participar de toda imprensa.

De Assis Chateaubriand, durante uma festa no Cassino da Pampulha, recebeu o convite para trabalhar nos Diários Associados. Já de Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, o presente foi um cheque de cem mil cruzeiros (Cr$100 mil) pelo treinamento que permitiu ao empresário fotografar os “Flamingos” na sua casa no Cosme Velho, na Zona Sul do Rio. Uma dessas fotos ganhou a primeira página do jornal O Globo.

Neste relato ao Acervo Jornalista Gustavo de Lacerda, Marinho aborda também as dificuldades que os fotógrafos enfrentavam antes da era digital, exigindo um grande esforço e dedicação para garantir a qualidade e a rapidez na entrega das fotos.

“Tínhamos que viajar com um mini laboratório fotográfico, era um grande desafio. Para enviar fotos ao Brasil era preciso levar um ampliador, um pano preto e se hospedar em hotel que tivesse banheira para realizar o processo de revelação. O equipamento era carregado em malas, tornando as viagens bastante complicadas e trabalhosas”, lembrou.

O Acervo Jornalista Gustavo de Lacerda é um programa da diretoria de Igualdade Étnico-Racial da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), liderada por Luis Paulo Lima, em parceria com o Departamento de Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), representado pelos professores Mauro Silveira e Carlos Alves. A série objetiva preencher uma lacuna crucial na preservação da memória e da história da imprensa negra no Brasil e, ao mesmo tempo, destacar a importância da diversidade étnico-racial no jornalismo.

Conheça outros programas do Acervo Jornalista Gustavo de Lacerda no link abaixo: https://www.youtube.com/playlist?list=PL-yIaqpLeolT5Nw8On_hMAdR8FyL2ioH7