30 de setembro de 2022


Paulo Jeronimo: a ABI não é cúmplice da miséria


18/10/2021


Pronunciamento do presidente da ABI, Paulo Jeronimo, no Forum do Conselho federal de Economia (Cofecon). 

Gostaria, inicialmente, de agradecer o convite para participar deste evento.  Para nós jornalistas é muito importante saber da consideração que os senhores têm pela nossa Associação Brasileira de Imprensa – ABI.

Não é minha intenção ensinar padre nosso ao vigário. Mais do que ninguém, os economistas estão entre os que entendem de fato o tamanho da encrenca em que estamos metidos. Seria redundante ocupar este espaço para falar sobre o aumento assustador da miséria; do desemprego; da queda do PIB; a mortandade provocada pela crise sanitária; pela irresponsabilidade criminosa dos governantes e da criminosa destruição das políticas de inclusão social.

Represento a categoria dos jornalistas e comunicadores. Somos treinados para mostrar a realidade deste País através das imagens e das palavras. Por isso, tomo a liberdade de reavivar na memória dos senhores uma foto publicada, na primeira página do jornal Extra, na sua edição de 29 de setembro passado.

Um cidadão negro “garimpa”, dentro da caçamba de um caminhão, restos de carcaças de animais. Uma tentativa desesperadora na busca de alguma proteína animal para sobreviver à fome. Um detalhe: o caminhão em questão não estava parado na porta de uma favela. Mas, sim no bairro de classe média da Zona Sul do Rio, a Glória. 

Esta foto é um ícone do ponto a que chegamos. Para muitos isso é o fundo do poço. Talvez, mais grave do que isso só a antropofagia. Pelo descaso das autoridades e das elites brasileiras não estamos muito distantes do canibalismo como forma de sobrevivência. 

Ter a cabeça coberta por cabelos brancos traz suas vantagens. Como jornalista, vivi a recessão crônica que dominou os chamados “anos de chumbo”. Tempos em que a Nação era governada a golpes de tortura, censura e extermínios. Heranças de uma ditadura militar que durou mais de duas décadas. Ainda me recordo do início dos anos 90, quando o presidente José Sarney encerrou a sua administração com estonteante índice inflacionário de 1.764,86 por cento.

Também convivi com dívidas externas que, na época, diziam ser impagáveis. Lembram-se da sucessão de planos econômicos que, às vezes, não duravam seis meses? Graças à mobilização das forças políticas, vencemos essas adversidades. 

Represento uma entidade que tem 113 anos de existência. Sempre atuou como uma representante da sociedade civil organizada Sempre defendeu a Liberdade de Imprensa, o Estado Democrático Direito e a Democracia. O pedido de impeachment de Fernando Collor de Mello foi redigido por Dr. Barbosa Lima Sobrinho, na qualidade de presidente da ABI.

“Dr. Barbosa”, como o chamamos, liderou um ato político para tirar a Nação de um atoleiro. Infelizmente, regressamos nos dias de hoje, de volta ao pântano. A dignidade – não só a do cidadão que aparece dentro daquele caminhão catando osso como a de todos os demais brasileiros – terá que ser resgatada.

Mas, isso só acontecerá quando a consciência da maioria de nós estiver convencida de que esta Nação não suporta mais a miséria. Infortúnio que destrói as vidas de um impressionante contingente de 13,5 milhões de desempregados, de acordo com os dados do IBGE. Algo superior à população da Bolívia.  

Reparem que não falei de pobreza. Refiro-me, única e tão somente, aqueles que estão abaixo da linha de miséria.  Daqueles que estão precisando garimpar restos de carcaças de ossos para não sucumbirem.

Cantam os românticos que somos “um País bem-dotado de riquezas naturais e um povo generoso”. Nada mais equivocado. Se somos ricos em recursos naturais, certamente, somos paupérrimos quando se trata de nossas elites. Sejam elas as que representam os donos dos meios de produção, os políticos, os governantes e até mesmos os segmentos um pouco mais escolarizados.

De maneira geral predomina entre nós uma cultura que vem desde os tempos da escravatura. Nossas elites são oportunistas. Estúpidas. Exatamente, como os escravagistas do passado. São vingativas e violentas. Têm dificuldade de conviver com a diversidade de ideias. São incultas. São egocêntricas.

Os adjetivos citados não são gratuitos. Enfatizo que, até agora, nossos governantes e os chamados “representantes do povo” não sabem de onde irão retirar os recursos necessários para bancar o maior programa social brasileiro – o antigo “Bolsa Família”. Mas, não tiveram dificuldade para irrigar o Congresso Nacional com ‘emendas orçamentárias’ e “orçamentos secretos” que somam perto de R$ 28 bilhões. 

Isso não é nenhuma novidade. Serve, contudo, para mostrar o quanto é complexa a luta pela inclusão social no Brasil. O quanto é penoso querer criar políticas públicas para reduzir a desigualdade social que persiste neste País. Um parênteses: o racismo nunca acabou no Brasil.

A desventura de 600 mil vidas ceifadas pela Covid19 só não foi maior graças ao SUS. Mesmo solapado por este governo que reduziu verbas da saúde, em plena pandemia, conseguiu atender e salvar uma parte significativa dos que foram infectados pelo vírus. O SUS faz política pública de verdade. 

Se fomos capazes de criar um sistema respeitado mundialmente, como o SUS, por que não venceremos a tragédia do momento?

Como disse, a verdadeira ABI nunca se furtou à luta política. Faço parte de um grupo que se empenha pelo resgate do prestígio histórico desta entidade. Estamos entre os primeiros que pleitearam na Câmara Federal a destituição do presidente da República que aí está. O mesmo fizemos em relação ao incompetente ministro da Saúde fardado. 

Temos um ano pela frente até as eleições de 2022.  Aprendemos com o processo de 2018 o que acontece quando cruzamos os braços. Ou quando deixamos que a desinformação e o ódio tomem conta de nossas escolhas eleitorais. Sem Democracia, Estado Democrático de Direito, Estabilidade Institucional e Liberdade não há governo populista que dê jeito.

Aliás, se continuarem persistindo a polarização, o ódio e a mansidão, o atraso dos dias atuais triunfará.  

O que posso garantir aos Senhores é que a ABI não cruzará os braços. Jamais seremos cúmplices disso do que aí está. Jamais aceitaremos o genocídio que acabam de cometer neste País. Jamais aceitaremos a miséria e a profunda desigualdade reinante como consequências do atraso.

Paulo Jeronimo

Presidente da ABI 

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