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Entrevista - José Hamilton Ribeiro
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Repórter por vocação
José Reinaldo Marques 30/09/2005
Paulista de Santa Rosa do Viterbo, 70 anos de idade e 50 de profissão, José Hamilton Ribeiro se considera um repórter por vocação. Por causa de sua obstinação pela notícia, foi muito premiado, acumulando, entre outros troféus, sete Esso de Reportagem, o Prêmio Personalidade da Comunicação 1999 e o título de “rosto do jornalismo brasileiro”, conferido pela revista Ícaro no ano passado.
Em sua eterna missão de informar, Zé Hamilton — como costuma ser tratado pelos colegas — conheceu os horrores da guerra do Vietnã, onde perdeu uma perna num acidente com uma mina terrestre, em 1968. Seu trabalho nas redações das revistas Realidade e Quatro Rodas, na Folha de S. Paulo e nos programas “Globo repórter”, “Fantástico” e “Globo rural”, em que há 25 anos exerce as funções de repórter e editor, o transformou numa referência do jornalismo brasileiro.
Nesta entrevista, ele fala da qualidade do jornalismo no País, de sua experiência na guerra e dos livros que escreveu e afirma que ainda está atrás da sua grande matéria.
ABI Online — A guerra do Vietnã, que o senhor cobriu pela revista Realidade, em 1968, foi o fato mais marcante dos seus 50 anos de carreira profissional? José Hamilton Ribeiro — A reportagem da guerra do Vietnã foi a mais marcante do ponto de vista anatômico. Mesmo assim, sucederam-se momentos de alegria e regozijo, entre uma tristeza e outra.
ABI Online — Qual deve ser o comportamento do repórter num campo de batalha? José Hamilton — Ser repórter é estar de olho aberto e consciente de sua missão de denunciar o abuso, o preconceito, a atrocidade, a violência e o poder mal-utilizado, seja no campo de batalha, ou na “vidinha mais ou menos” de cada um de nós.
ABI Online — Como aconteceu seu acidente no Vietnã? José Hamilton — O livro “Diário da guerra”, que acabei de lançar pela Editora Objetiva (RJ), trata disso. Contém um “diário” da guerra, do ano de 1968, e um capítulo novo, referente à viagem de volta que fiz ao Vietnã , há nove anos, num ambiente de paz. O que aquele povo heróico, que venceu os norte-americanos, fez com o seu país é de doer. Doeu mais do que o estrago da mina.
ABI Online — Havia outros jornalistas com o senhor no momento da explosão? José Hamilton — Sim, o fotógrafo japonês Kei Shimamoto. Ele ficou ao meu lado nos dias dolorosos que passei nos hospitais de guerra. Shimamoto vinha trabalhar no Brasil assim que terminasse a cobertura que fazia no Vietnã para uma publicação japonesa. Mas não deu tempo. O helicóptero em que viajava foi alvejado, durante uma ação, e explodiu no ar. Infelizmente Kei Shimamoto virou apenas uma página no livro norte-americano “Réquiem”, que conta a história dos repórteres-fotográficos que morreram no front.
ABI Online — O que o senhor acha da decisão do Governo Bush de tentar proibir a mídia norte-americana de mostrar imagens dos seus soldados mortos no Iraque, bem como da devastação provocada pelo furacão Katrina, em Nova Orleans? José Hamilton — Tudo que for proibição do trabalho da imprensa, sou contra.
ABI Online — Não é estranho que esse controle ocorra numa nação tida como democrática? José Hamilton — O jornalismo livre e independente é uma dádiva e um parâmetro da democracia — diferentemente da ditadura, em que o produto final da imprensa figura como um aleijão. Um velho professor de Jornalismo dizia que os três piores jornais do mundo — Pravda (da antiga União Soviética), Gramma (de Cuba) e L’Osservatore Romano (do Vaticano) — eram fruto de ditaduras. Conclusão: onde se tenta controlar a imprensa, não há democracia.
ABI Online — Recentemente, o Presidente Lula disse que fazia o papel de “rádio peão”, porque a maioria do povo não lê jornal. O senhor concorda? José Hamilton — Infelizmente, está correto. O País tem mais de 100 milhões de pessoas semi-analfabetas e outros tantos analfabetos por inteiro. O jeito de mudar isso é investir em escola de ensino básico e não apenas na universidade, como faz o Governo.
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Iara Venanzi |
 | ABI Online — Depois que foi eleito Presidente da República, Lula tem reclamado muito da imprensa... José Hamilton — Não adianta xingar a imprensa. Quando ele fez birra para comprar o avião novo, eu ouvi o Brizola dizer na televisão: “Mas, companheiro Lula, comprar avião? Logo você que em um ano e meio de Governo não fez uma sala de aula?”
ABI Online — Como o senhor iniciou sua carreira jornalística? José Hamilton — Dos meus 50 anos de reportagem, 25 foram atuando no jornalismo impresso, tanto em jornal como em revista. A outra metade eu tenho passado na TV, grande parte desse tempo trabalhando no programa “Globo rural”, da Rede Globo. Mas comecei na Rádio Bandeirantes, em São Paulo.
ABI Online — Que outra profissão o senhor teria escolhido se não tivesse abraçado a carreira jornalística? José Hamilton — O jornalismo de reportagem é vocação impositiva. Se eu fosse fazer outra coisa, na certa não seria feliz.
ABI Online — No mês que vem, o senhor participará de um Congresso na ABI sobre jornalismo investigativo. Qual será sua abordagem sobre o tema? José Hamilton — Vou fazer um balanço da minha vida de jornalista, com o cuidado de não balançar muito para ninguém marear.
ABI Online — O senhor acha que a imprensa brasileira — como escreveu o jornalista Sérgio Augusto num artigo para o Estado de S. Paulo — sofre de uma crise de qualidade? José Hamilton — O jornalismo brasileiro não passa por um bom momento e não é por falta de bons jornalistas e projetos de reportagem de qualidade. Acho que a causa reside na gestão das empresas, muitas delas enroladas com investimentos temerários fora de sua área.
ABI Online — Quem são os grandes jornalistas da sua geração? José Hamilton — Narciso Kalili, Eurico Andrade, João Antônio, Hamilton Almeida Jr., Evandro Carlos de Andrade e Cláudio Abramo. Citei somente os que já morreram. Do contrário, a relação seria longa demais.
ABI Online — Em todo o País, pessoas têm recorrido à Justiça para ameaçar com processos órgãos de imprensa e jornalistas por causa de matérias com as quais se sentem ofendidos. Qual a sua opinião sobre esse assunto? José Hamilton — É justo e saudável que pessoas atingidas pela imprensa recorram à Justiça para reparar danos causados por injustiça, injúria, calúnia, difamação. O mau uso da liberdade de imprensa pode fazer muito mal à sociedade. E mais: não devia haver prisão especial para jornalista. Condenado num processo regular, com todo o direito de defesa, ele deve sim ir beber café de canequinha.
ABI Online — Por que o senhor é um defensor de altos salários para parlamentares? José Hamilton — Porque o deputado federal e o senador, ao lado do Presidente da República, são as maiores autoridades do País. Precisam ganhar o suficiente para exercer o mandato sem pressão de nenhuma ordem. Quando eles não ganham o suficiente, são tentados a arranjar meios — como mensalão, mensalinho, valeriodutos, caixa dois etc. — para não terminarem o mandato na miséria.
ABI Online — O seu livro “Jornalistas, 37/97” é um resgate da história do sindicalismo no estado de São Paulo? José Hamilton — Esse livro não é exatamente sobre sindicalismo. É uma publicação que reflete sobre a história da imprensa ao longo dos 60 anos de existência do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (fundado em 1937) mais sob o ponto de vista dos profissionais da área do que pela representação sindical.
ABI Online — Quantos livros o senhor já escreveu? José Hamilton — Se me lembro bem, são 14, e todos eles foram conseqüência de alguma reportagem. O primeiro, “O gosto da guerra”, aconteceu em função da reportagem sobre a guerra do Vietnã que eu fiz para a revista Realidade. O segundo teve como tema uma cobertura que eu fiz sobre o Pantanal. Meus livros são o resultado de pesquisas para matérias especiais.
ABI Online — O senhor está envolvido em algum outro projeto de livro no momento? José Hamilton — Estou terminando agora um livro sobre música caipira, com uma seleção das 260 melhores modas de viola de todos os tempos, de Raul Torres às Irmãs Galvão, de Carreirinho a Rolando Boldrin. O prefácio é do Cícero Sandroni, escritor e jornalista carioca, ex-diretor da ABI e atualmente membro da ABL. A matéria-prima é coisa fina, vamos ver a obra.
ABI Online — Qual é a principal característica de um programa como o “Globo rural”, dirigido ao telespectador cuja vida é o campo? José Hamilton — É fundamental que ele não seja um programa agrotécnico, mas que, ao mesmo tempo, cubra o mundo de quem vive na roça, abordando aspectos como trabalho, angústia existencial, política, culinária, dança, cultura e diversão. É um programa cuja dimensão é a alma humana.
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