Quinta-feira, 29 de julho de 2010
A arte de informar
   imprimir      enviar por e.mail      voltar

29/7/2005
Rodrigo Caixeta

Superinteressante


Quem nunca se rendeu a ler uma reportagem ao ver o infográfico que a ilustra? Cada vez mais utilizada pelos veículos de comunicação para criar o aspecto visual da informação, a infografia envolve um conceito moderno, em que se aliam imagem e texto para oferecer ao leitor melhor percepção do assunto tratado.

O termo infográfico vem do inglês informational graphics e o seu uso revolucionou o layout das páginas de jornais, revistas e sites. É uma forma de representar informações técnicas como números, mecanismos e/ou estatísticas, que devem ser sobretudo atrativos e transmitidos ao leitor em pouco tempo e espaço. Normalmente utilizado em cadernos de Saúde ou Ciência e Tecnologia, em que dados técnicos estão mais presentes, o infográfico vem atender a uma nova geração de leitores, que é predominantemente visual e quer entender tudo de forma prática e rápida. Segundo pesquisas, a primeira coisa que se lê num jornal são os títulos, seguidos pelos infográficos, que, muitas vezes, são a única coisa consultada na matéria.
 

            Cláudio Prudente

Recurso poderoso

Se o infográfico não convida o leitor para a reportagem ou se não é possível entendê-lo em poucos segundos, sua função não se cumpre. Cláudio Prudente, chefe da Diagramação do Globo, diz que a infografia já existe há muito tempo nos jornais brasileiros, “mas foi no fim dos anos 80 que passou a ser utilizada de uma forma mais consciente como recurso poderoso de informação”. 

— As redações passaram a entender que certos assuntos são mais bem-aprofundados se mostrados visualmente. Há muito o que se dizer num texto sobre um acidente de avião, mas se mostrarmos em um infográfico a localização, o tipo de aparelho, o que aconteceu, comparar números etc., a informação fica muito mais precisa e clara.

Cláudio diz que a infografia já está incorporada na cultura das redações, embora algumas incompreensões ainda sobrevivam:
— Não é raro alguns editores optarem por recursos de infografia quando querem "ilustrar" uma página, por não terem fotos disponíveis para o assunto. Este me parece o erro mais freqüente, resultado da idéia equivocada de "decoração" da informação visual. Mas esta é uma atitude que aos poucos está desaparecendo.

Ainda que cada um trabalhe de forma diferente, o editor de texto e o de arte opinam igualmente sobre a utilização do recurso segundo Cláudio:
— Os infografistas tendem a ver melhor nos assuntos do dia o que mais se presta para ser trabalhado graficamente. Ter representantes da infografia nas reuniões de pauta é fundamental — e prática comum em várias redações.




 Léo Tavejnhansky

Passo a passo

Formado em Jornalismo, o editor de arte do Globo, Léo Tavejnhansky, conta que o design de jornal, a que se dedica há mais de 20 anos, foi sua opção desde que o descobriu na faculdade:
— A infografia tem uma longa trajetória. É uma soma de disciplinas que inclui o desenho arquitetônico e o de anatomia, os gráficos estatísticos e a cartografia. Exemplos desses grafismos se perdem no tempo. Para encurtar a história, podemos dizer que as inscrições nas cavernas eram infográficos, pois os desenhos contavam histórias.

Ele lembra que o primeiro exemplo de infográfico usado em jornais data de 1702, no The Daily Courant, primeiro diário inglês, e que o The Times, de Londres, estreou um infográfico na primeira página em 1806, mostrando o passo a passo de um assassinato:
— Era tecnicamente perfeito e faria sucesso mesmo nos dias de hoje. Revistas, como a Time, usam infografias desde os anos 1930. O próprio Globo publicou um infográfico na primeira página da edição número 1, em 1925, mostrando o aumento dos automóveis no Rio de Janeiro de um ano para outro.

Em meados da década de 70, Léo diz que O Globo, como a maioria dos grandes jornais, já contava com profissionais especializados em gráficos e mapas e os departamentos de Arte começaram a ser estruturados. No entanto, apenas na década seguinte que a infografia passou a chamar grande atenção, com o lançamento, em 1982, do USA Today, que revolucionou o design dos jornais no mundo inteiro com seu uso da infografia e da cor:
— A maior expansão da técnica, porém, aconteceu em 1985, com a chegada do Macintosh. A infografia deixou de ser artesanal, industrializou-se e se espalhou pelo mundo. Hoje, ela e suas derivações são fundamentais no bom jornalismo, quer em momentos em que apresentam a notícia de maneira rápida e de fácil compreensão, quer elucidando acontecimentos intrincados, ou ainda aprofundando a informação com toques enciclopédicos. A verdade é que as pessoas entendem melhor certos fatos quando mostrados visualmente.

                                    O Globo

Léo diz que no Globo os editores entendem a infografia como imprescindível para uma boa edição e que até o repórter já sabe que deve trazer informações visuais para valorizar sua matéria:
— Na maioria dos casos, a idéia da infografia nasce com a pauta. As rotinas diárias já incluem a infografia como opção jornalística, da mesma forma que a fotografia. A partir da pauta e do espaço, os editores fazem seus pedidos. O mais comum é a Arte sugerir idéias para ocasiões especiais, quando os trabalhos podem ser elaborados com mais tempo, mas há casos como o da queda do helicóptero no Colégio Bennet, em que, no momento em que a TV deu o flash com as primeiras informações, já se começava a vasculhar a internet em busca de mapas da área e do modelo da aeronave. Quando a editoria Rio fez o pedido, já tínhamos a localização do acidente e um primeiro esboço da infografia. Porém, no caso dos depoimentos nas CPIs, que se prolongam pelo dia inteiro, a Arte precisa aguardar a chegada do texto compilado pela editoria com os pontos importantes e o espaço disponível na página.

Para Léo, o infográfico deve ir além do texto. Pode ser o principal da página, quando a informação é mais visual do que textual, ou enriquecer a matéria com informações visuais complementares, permitindo três opções de leitura, “de acordo com o interesse ou o tempo do leitor: só o texto, só o infográfico, ou os dois.” Manter o equilíbrio da página e evitar que as ilustrações tenham mais destaque que o texto é um desafio diário da edição:
— Se a foto tem mais informação que o gráfico, ela deverá ser o elemento dominante da página. É importante também que o infográfico não seja redundante, quer dizer, não repita exatamente o que a matéria está dizendo. Um bom infográfico, além de ser bem-produzido, deve responder às tradicionais perguntas: o que, quem, quando, como, onde e por quê. 




  Folha de São Paulo

Pioneiro no Brasil

Massimo Gentile, editor de Arte da Folha de São Paulo, diz que o recurso do infográfico é tradicional na cultura do veículo que foi o primeiro jornal brasileiro a usá-lo. Coordenador de uma equipe de nove infografistas, ele ressalta que “há uma relação dialética entre os editores de arte e texto, que pode ser amigável ou não”.
— As idéias de uso da infografia vêm de ambos, mas não existe regra, há a prática diária, que começa com a coleta de notícias. Depois, define-se o que o infográfico vai mostrar. Observamos como ele fica dentro da página, discutimos com os editores de texto a quantidade de informações, fazemos um esboço da página, que passa pela conferência e, então, avaliamos a sua legibilidade. Pensa-se no conjunto da página, em que o infográfico deve ocupar espaço coerente.

Fábio Marra, infografista da Folha, lembra que os primeiros Macintosh com softwares gráficos só chegaram à redação no fim dos anos 80:
— Até então, tudo era construído com habilidade manual, nanquim e letra set. Com os computadores, ficou mais fácil fazer. Ainda há editores que acreditam que jornal deve ser feito com muito texto, mas não concordo, uma vez que as pessoas lêem cada vez mais em menos tempo. Ou seja, a informação visual tornou-se uma necessidade. Além disso, segundo pesquisa do Poynter Institute, infográficos, quadros e artes são os primeiros a serem percebidos pelo leitor quando ele folheia o jornal. 



                                    Jornal do Brasil

Integração

Há oito anos no Jornal do Brasil, o editor de Arte Renato Dalcin diz que um bom infográfico deve se integrar na matéria, compor um texto:
— Tudo no jornal tende a se complementar, então é necessário que a situação precise de uma explicação qualquer que só o infográfico pode dar. O atentado em Madri, em 2004, é uma situação perfeita: na foto vêem-se os destroços, o estado dos trilhos, mas o infográfico mostra que o trem “x” estava vindo do lugar “y”, explodiu às tantas horas, na estação tal etc.

A utilização das cores num infográfico, para Renato, não é problema:
— Se a página virar preta e branca, depois de o infográfico ter sido trabalhado todo na cor, basta ele ter sido criado com contrastes suficientes para que estes sejam mantidos na escala de tons de cinza. O inverso dá mais trabalho.

O infografista, segundo Renato, deve estar antenado nos acontecimentos diários e entender a edição do jornal:
— Acompanho o noticiário geral e procuro ver se há alguma coisa de muito importante acontecendo que possa gerar arte. Somos treinados para ter uma solução rápida. Muitas vezes, porém, a solução ideal demanda mais tempo.

 Jornal do Brasil

Designer e ilustradora do jornal, Fernanda Fontenelle compara a produção de um bom infográfico com o ato de cozinhar:
— É necessária a utilização de ingredientes básicos, texto e ilustração, e um bom tempero. Nada em falta ou em excesso. E tem que ter um atrativo visual para "apetecer" ao leitor. Os temperos podem ser uma fonte diferente, um alinhamento não convencional, a boa combinação de cores e outras coisas mais.

No JB há 15 anos, seu colega Francisco Ferreira da Silva acha que os recursos gráficos estão sendo usados de forma mais criteriosa:
— No início, gastavam-se páginas inteiras com infográficos que não queriam dizer muita coisa. A primeira coisa que temos que usar é a imaginação. Produzi um infográfico sobre a dragagem que o estaleiro Brasfels deverá fazer no mar de Angra e Paraty. Como a retirada de lama prevista será de 520 mil metros cúbicos, resolvi criar o fundo da página feito de lama, sobre a qual estaria escrito com o dedo "SOS Paraty". Fiz essa arte no quintal da minha casa e fotografei para finalizar no Photoshop.


            Ary Moraes

Uso comedido

Ary Moraes, editor de Infografia e Ilustração do Estado de Minas, concorda que a utilização de infográficos está mais comedida:
— Hoje, estamos mais seletivos quanto aos assuntos que realmente devem ser apresentados por meio de infográficos. Isto deve-se tanto à necessidade de se economizar papel, como à experiência. Aprendemos que o recurso só deve ser usado quando o assunto é complexo demais para ser entendido apenas através do texto. 

Ary explica que o jornal vive uma fase de reformulação nessa área:
— O departamento fazia coisas que não lhe competiam e que roubavam tempo na produção do que deveria ser priorizado. Ministrei um treinamento para a redação ao mesmo tempo em que fazia uma espécie de “intensivão” para a turma da infografia. Hoje, aumentou o número de editores de texto que entendem os critérios para a utilização dos infográficos e que passaram a ter participação mais ativa na sua criação, muitas vezes até se antecipando aos artistas.

Segundo Ary, o desafio é combinar o poder da imagem com o texto:
— Os dois precisam “conversar” sobre o mesmo assunto e no mesmo tom, sem que um fale mais alto que o outro. Começamos discutindo a pauta, sem esquecer que trabalhamos em equipe. Não deve existir aquela coisa de “a imagem está tirando espaço da minha matéria” e vice-versa. 



Linguagem didática
 
André Hippertt, editor-executivo de Arte do Dia, diz que hoje, numa redação, todos vêem a infografia como uma poderosa aliada no repasse da informação ao leitor:
— Como O Dia é um jornal popular, com ênfase nas classes B, C e D, trabalhamos muito com infográficos, pois sua linguagem mais didática facilita a compreensão das matérias. Usamos, por exemplo, muitos infos na editoria de Economia, para que todos possam ter acesso a informações que nem sempre são fáceis de assimilar. Já em caso de grandes acidentes, é comum mandarmos um infografista para o local juntamente com os repórteres e fotógrafos.

Para André, um bom infográfico deve ir além do que o texto expõe:
— Ele deve fazer com que o leitor realmente visualize os fatos ocorridos. Muitos infos são lindos, mas difíceis de entender e carentes de informação. Infográfico não é ilustração. Sua função é, antes de tudo, informar. Ele deve ser atraente, mas de fácil leitura. 




 Luiz Iria

Referências visuais

Luiz Iria, editor de Arte da Superinteressante, diz que, na revista, todos pensam infograficamente:
— A infografia já se tornou nossa marca registrada. Até os repórteres, muitas vezes, chegam da apuração com um esboço desenhado.

Para ele, engana-se quem pensa que o texto perde sua importância dentro de um infográfico:
— Quando texto e imagem se integram, geram informação imediata. O cuidado maior que se deve ter num infográfico é o excesso na “decoração”. Nada pode ser mais importante do que a informação, que deve vir numa seqüência contínua, com começo, meio e fim. É importante destacar uma imagem principal, que mostre o ponto inicial de leitura, desperte emoção e valorize e embeleza o infográfico. Os textos nunca devem estar espremidos nos espaços ou invadir as imagens; também não devem ser longos e cansativos. Ao mesmo tempo, as imagens não podem ocupar todo o espaço da página.
 

                        Mario Guilherme Leite

Bom senso

Mario Guilherme Leite começou carreira no Dia, onde conheceu a infografia, mas só passou a atuar nesta área quando ingressou no Lance!. Segundo ele, o ponto chave de qualquer discussão passa pelo uso ou não da técnica:
— Muitas vezes os motivos que levam ao uso deste recurso não são os corretos. Não necessariamente o assunto mais importante da pauta gera ou pede bons gráficos, enquanto uma matéria de interesse menor pode propiciar excelente material.

Globo.com


Atualmente dirigindo empresa própria, a Mabuya Design, direcionada para o mercado editorial de livros e revistas, Mario já foi infografista do JB, da Gazeta do Espírito Santo, do Jornal do Commercio e do Globo.com e diz:
— Um bom gráfico deve respeitar o lead como qualquer matéria. O processo se inicia na apuração das informações. Deve-se priorizar o mais relevante, o que é informação de suporte. É muito semelhante ao esquema da pirâmide invertida: quanto maior a importância da informação, mais espaço ela ocupará na composição da área do gráfico. Por isso é preciso ter um bom entendimento de teoria e técnicas tanto artísticas quanto jornalísticas.
 



Interatividade


                                                                         UOL

Para a internet, o profissional deve criar peças realmente interativas, que ultrapassem a imobilidade dos impressos. Mas não basta se limitar aos efeitos da computação gráfica. Luciana Faria, gerente de Interface do UOL e responsável pela editoria de Arte, diz que no portal o número de textos publicados diariamente é muito grande:
— Diferentemente da mídia impressa, na internet, primeiramente, a notícia é publicada e só depois é que as eventuais ilustrações são desenvolvidas pela equipe de arte. Claro que isto muda em coberturas especiais, como na Copa do Mundo, quando muito antes do começo da competição os jornalistas e designers envolvidos no projeto fazem reuniões e discutem o melhor formato para cada tipo de página e/ou informação.

Ela resume as etapas de produção de um infográfico para o site:
— Depois que os dados são enviados pelo editor, a equipe de arte os analisa, define a melhor imagem para representar a informação e inicia-se a pesquisa de referências. O próximo passo é criar uma segunda imagem, em que serão inseridos os dados. Animações e hiperlinks são recursos muito utilizados. Mas o que define o nível de sofisticação do trabalho é principalmente o tempo disponível para sua execução.

Dominar a linguagem de cores e formatos também é fundamental:
— É da combinação entre esses dois elementos que surgem os mais belos e competentes trabalhos. A criação não é um dom, é algo adquirido através de muito estudo e trabalho.

Luciana lembra que, na web, o infografista deve estar atento também à questão do peso em kbytes:
— Não adianta fazer uma imagem deslumbrante se a página ficar pesada a ponto de o internauta desistir de vê-la pela demora em baixá-la.

Trabalhando com uma equipe de seis designers contratados, um estagiário e dois freelancers, Luciana dá dicas aos interessados em atuar nesse segmento:
— Fique atento às inovações tecnológicas, navegue muito, estude conceitos de praticidade e arquitetura de informação, mas não se esqueça de que a internet é uma mídia nova e em constante transformação — portanto, nenhum conceito é regra definitiva. 



Maturidade profissional

Daniel Chaves, editor de Arte do Globo Online, diz que o excelente grau de maturidade alcançado por artistas gráficos e designers há alguns anos no Brasil reflete-se nos infográficos, hoje não mais banalizado:

   Globo Online

 — Na internet, por exemplo, o segredo é explorar a interatividade e os recursos de animação, áudio e vídeo e a maior preocupação fica por conta do peso dos arquivos. A evolução no País na última década foi muito grande. Os profissionais brasileiros se aprimoraram, abriram os olhos para o que já vinha sendo desenvolvido em países como EUA e Espanha, e o aprendizado foi fundamental. Ajudamos também os editores de texto a compreender que, sem conteúdo, não adianta um desenho bonito. 

Sobre a produção dos gráficos, ele diz:
— Na maioria dos casos, fazemos um rascunho da idéia, tentando alinhavar a estrutura do infográfico. Algumas vezes, vai-se a campo para recolher mais informações, detalhes importantes que darão riqueza ao trabalho. Em outros casos, usa-se fotografias como referências para ajudar na representação. Daí em diante, é tudo no computador, especialmente na hora de inserir o conteúdo em texto, editar áudios, vídeos etc. A web tem linguagem própria, dá possibilidade ao leitor de interagir com o conteúdo e experimentar sensações — e o leitor gosta de se sentir participativo.
 

  • Reflexões sobre a carreira
  •     


       volta ao topo      voltar
    ABI (Associação Brasileira de Imprensa) - Rua Araújo Porto Alegre, 71 - Rio de Janeiro - RJ / CEP 20030-012 - Tel. (21) 2282-1292