Quinta-feira, 29 de julho de 2010
Reflexões sobre a carreira
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                                 Superinteressante

Massimo Gentile, da Folha de São Paulo, diz que infografia é trabalho de jornalista, pois, para ser um bom profissional, é preciso estar atualizado sobre os acontecimentos e saber o que interessa à mídia em que trabalha. Ele começou a carreira no Paesi Sera, primeiro jornal italiano a utilizar a infografia. Em 1997, desembarcou no Brasil e foi para a Bloch Editores até 2000, quando se transferiu para a Folha:
— O infografista é um jornalista que sabe desenhar, explicar e representar a informação. No Brasil há um imenso potencial criativo e ótimos profissionais com formação em desenho. Mas não basta. Aqui na Folha temos cursos de treinamento.

Seu colega de jornal Fábio Marra tem a impressão de que as faculdades “formam erradamente os estudantes de Jornalismo no quesito informação visual”.
— A responsabilidade de um bom design do jornal não é só dos profissionais da área, mas de todos os jornalistas, que muitas vezes não conseguem observar a página visualmente.

Segundo ele, em São Paulo há duas boas escolas de design de informação, o Instituto Europeu de Design (IED) e o Senac. No exterior, cita o Poynter Institute, dos EUA, e diz que na Espanha há ótimas faculdades destinadas unicamente ao jornalismo visual:
— O mercado brasileiro começa a ficar bem interessante para os profissionais da informação visual. Os jornais e as editoras perceberam a necessidade de se valorizar este departamento. Acho que não deixamos nada a desejar em relação ao mercado internacional. Existe apenas uma grande diferença: o planejamento. No exterior há um planejamento maior em relação ao que fazer com o visual da publicação. É preciso um tempo para entender o que de fato é necessário fazer. No Brasil, há pouco planejamento e a velha frase “preciso para ontem”.

Luiz Iria, da Superinteressante, é um dos mais premiados infografistas do País. Já ganhou duas vezes o Prêmio Esso na categoria Criação Gráfica e também duas vezes recebeu a medalha de ouro do Prêmio Malofiej, a maior premiação de infografia do mundo, realizada na Espanha. Sobre o mercado nacional, ele diz:
— No Brasil, a infografia ainda tem muito o que crescer, mas o mercado estrangeiro é incontestável. Jornais como El Mundo e El País, de Madri, são, na minha opinião, os melhores do planeta e dominam a linguagem desde a década de 80. Aqui, na área de revistas, a Superinteressante e a Mundo Estranho são as que mais utilizam a linguagem infográfica e já conseguiram vários prêmios no Malofiej. Além disso, muitos de nossos trabalhos já foram vendidos na América Latina e na Europa. 

O Dia


Talento e perseverança

André Hippert, do Dia, sugere aos interessados em ingressar na área um curso de Programação Visual, mas lembra que “infografia não é somente arte, mas informação acima de tudo”. Diz também que, apesar de nosso mercado ser ainda pequeno, tudo é uma questão de talento e perseverança, pois “os bons sempre alcançam seu espaço”.
— Os profissionais dessa área ainda são poucos e todos os que eu conheço, no momento, estão empregados. A relação de oferta e procura é diferente da dos demais jornalistas, que estão num mercado saturado.

Segundo Ary Moraes, do Estado de Minas, sua habilidade artística desenvolvida na infância, através de caricaturas e charges, levou-o a fazer o curso de Design na UFRJ e depois o de Jornalismo na UERJ. No Dia, onde começou carreira, conquistou, em 1996, o Prêmio Malofiej de Infográfico Mais Inovador, o primeiro recebido por um brasileiro e único a ser conferido na categoria:
— A infografia é uma coisa que as pessoas acham bacana, mas ainda não conseguem visualizar como área de trabalho. No entanto, o mercado é extremamente promissor no Brasil. Para aproveitá-lo, precisamos disseminar cultura visual nas redações e escolas de Jornalismo. O maior problema do design de notícias no Brasil tem raízes mais profundas: ainda o vemos como um recurso secundário, subordinado à edição verbal. Não se trata de discutir se um é melhor que o outro, ou de achar que um vai superar o outro. Ambos devem servir à notícia para torná-la clara, acessível. É uma questão de edição.

Renato Dalcin, do JB, diz que, para se habilitar a uma vaga no jornal, “nem sempre é preciso ter uma habilidade específica qualquer para desenho”. Dos três infografistas que trabalham com ele, apenas um tem formação na área de design:
— Eu não deixaria de dar emprego para alguém que não fosse formado. Todo mundo aqui é formado na casa, nenhum deles fez um curso, à exceção da Fernanda Fontenelle.

Esta, por sua vez, diz que sente falta de cursos específicos e avisa que quem quer ingressar na profissão deve ser antenado, estudar sempre, ler muito, ir a exposições e museus e saber o que os designers do mundo andam fazendo:
— Quando resolvi fazer faculdade, vi o curso de Design Gráfico e confesso que ignorava do que se tratava. Ao saber exatamente o que era, descobri que havia encontrado o meu caminho. Era a profissão dos meus sonhos. Ali, estava reunido tudo de que gosto e o que sabia que me estimularia a buscar sempre o meu melhor. Vim para o JB fazer estágio e acabei ficando. Considero isto aqui uma faculdade. 


Desenho e observação


Francisco da Silva, colega de Fernanda e Renato no JB, diz que a formação ainda é fraca por aqui:
— O uso mais constante da infografia no Brasil, a meu ver, se deu na marra. Eu mesmo aprendi vendo e fazendo. Com alguns amigos meus aconteceu o mesmo. Quem está interessado deve saber desenhar um pouco, se especializar e procurar ver como outros profissionais resolveram seus trabalhos.

Mario Guilherme Leite concorda que a infografia é uma área de atuação com potencialidade à expansão, mas diz que a escassez de vagas está na mesma proporção das dificuldades de renovação dos bons profissionais existentes:
— Os mercados norte-americano e europeu são bem superiores ao nosso, mas isso se deve à força dos jornais regionais, com tiragens superiores aos principais jornais brasileiros.

                      O Estado de Minas

Léo Tavejnhansky, do Globo, afirma que ter cultura geral é absolutamente necessário, pois, no cotidiano da redação, “num momento você está fazendo gráficos para a editoria de Esporte, noutro sobre a guerra do Iraque e noutro ainda sobre a descoberta de um novo planeta, e tudo isso pode acontecer no mesmo dia”.
— A infografia é pura informação. Assim, conhecimentos jornalísticos são imprescindíveis, além de saber desenhar e manejar os programas gráficos respectivos. 

Sobre as oportunidades no Brasil, ele diz:
— O mercado é maior nas capitais e ainda há muito espaço para profissionais habilidosos, mas, depois de formada uma equipe, a mobilidade é pequena. Já no mercado internacional, a maior concentração de infografistas está na Espanha, onde é possível encontrar um bom profissional da área a cada esquina. Nos EUA, a busca por especialistas é impressionante. Em todos os congressos de design, vêem-se dezenas de anúncios chamativos para atrair bons profissionais. 

Cláudio Prudente, também do Globo, lamenta a falta de cursos de formação específica no Brasil. Segundo ele, “ainda falta uma mudança na grade curricular das faculdades de Comunicação Social que incorpore a infografia e o design editorial”.
— Por enquanto, sugiro aos futuros infografistas estudar Design Gráfico ou Jornalismo, lembrando que, acima de tudo, eles serão profissionais da informação, tão jornalistas quanto quem vai à rua todos os dias fazer reportagem. É fundamental, também, saber desenhar e se expressar graficamente. Este talento até pode ser estimulado, mas sem ele é impossível se destacar nessa área.



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