Os medos de Barroso e a indiferença de um certo jornalismo


15/06/2024


Por Moisés Mendes, no Brasil 247

Foto: Fellipe Sampaio/STF

O ministro Luis Roberto Barroso produziu essa semana mais uma prova de que as ameaças, violências, crueldades e perversidades do fascismo já são tratadas como parte da normalidade pela própria imprensa.

Barroso disse no Roda Viva, da TV Cultura, ao defender a contratação de seguranças para a proteção de integrantes do STF, que é preciso considerar a possibilidade de um ministro “vir a ser agredido fisicamente ou tomar um tiro num jogo de futebol ou numa sessão do Supremo”.

Não disse como se tratasse de uma hipótese qualquer. A possibilidade levantada pelo ministro é a de um atentado. Barroso explicou: “Porque se despertou um tipo de ódio, um tipo de agressividade que não existia na sociedade brasileira”.

No mesmo contexto, lembrou que leciona todas as semanas na Universidade Estadual do Rio. Que viaja às quintas-feiras para dar aulas às sextas. Disse: “Eu sempre viajei sozinho, nunca viajei com segurança. De um tempo pra cá, eu preciso viajar com segurança, como todos os ministros”.

A bancada de seis jornalistas entrevistadores e a mediadora Vera Magalhães nada quiseram saber dos temores do presidente do Supremo. Não perguntaram de quem e de onde pode partir um tiro.

Diante de um ministro que decidiu expor publicamente seus medos, nenhum dos sete jornalistas perguntou tampouco o que ele sentiu na noite de 4 de novembro de 2022, em Santa Catarina.

Naquela noite, Barroso foi acossado na praia de Porto Belo por uma turba que cercou o restaurante em que jantava com a mulher e amigos. Quatro dias depois da eleição, o ministro, que já havia sido definido como próximo presidente do STF, foi expulso da cidade.

O casal fugiu do restaurante para uma casa, que foi cercada pelos bolsonaristas enfurecidos. Teve o socorro de uma escolta e abandonou Porto Belo às 4h da madrugada. Não se sabe de fato semelhante em países considerados sob democracia.

Ninguém no Roda Viva perguntou nada ao ministro sobre o significado daquele cerco, quatro dias depois da eleição e dois meses antes da invasão de Brasília no 8 de janeiro.

Aquela era uma turba espontânea, que se juntou ali ao acaso naquela noite? Claro que não era. Foi uma manifestação organizada, no reduto da extrema direita catarinense, e um aviso de que era possível amedrontar o STF e levar o golpe adiante.

No mesmo Roda Viva, ninguém quis saber do ministro, mesmo que ele insistisse, sobre o Conselho Nacional de Justiça. Barroso preside o CNJ, no momento em que figuras do lavajatismo, que ele tanto apoiou, são investigadas pela corregedoria da Justiça.

O ministro denunciou no programa que, num intervalo da entrevista, pediu aos jornalistas perguntas sobre o CNJ. Disse rindo, e os entrevistadores também riram em sinal de desprezo pela pauta. E a mediadora disse então que não queria saber de CNJ.

A bancada não queria saber dos temores dos ministros do Supremo e tampouco tinha curiosidades sobre a possibilidade de finalmente o CNJ fazer agora o que não fez em cinco anos de Lava-Jato.

“Aconteceu um problema grave no Brasil nos últimos anos”, disse o ministro, referindo-se à expansão do fascismo. Mas ninguém quis saber nada mais desse problema grave.

Não quiseram saber nem por que um dia em Nova York Barroso cunhou a expressão ´perdeu, mané’, para se dirigir aos bolsonaristas que o perseguiam na rua e assim definir os derrotados na eleição.

A entrevista denunciou a postura de uma certa imprensa anestesiada, que não reage mais às ameaças e às ações da extrema direita patrocinadora de golpes, de atos violentos no Congresso e do PL do estuprador. Nem quando o presidente do STF diz que pode levar um tiro num estádio ou dentro do Supremo.