12 de agosto de 2022


Orgulho gay e as chagas sociais do Brasil


30/06/2021


Comemora-se hoje, 28 de junho, o dia do Orgulho LGBTQIAP+

Por Norma Couri, Diretora de Inclusão Social, Mulher e Diversidade

Ninguém fez melhor pelo Orgulho LGBTQIAP+ do que Paulo Gustavo encarnando sua mãe que era uma peça. Estimulou até o âncora do GloboNews em Pauta, Marcelo Cosme, a se declarar no ar, no dia seguinte à morte do ator, “Paulo Gustavo abriu caminho para muitos gays…Ontem pensei nisso o dia todo, como me ajudou a falar com minha mãe…”. Paulo Gustavo fazendo rir tocava fundo nas chagas sociais dos brasileiros.

 Violentos assassinatos de gays e transexuais crescem no pais onde Jair Bolsonaro disse à revista Playboy em junho de 2011 “prefiro um filho morto a um herdeiro gay” e levou a galhofa da foto da capa da Folha de S. Paulo. Era o então novo secretário Malhação de Cultura, Mário Frias, nu, com a manchete O Novo Homem do Presidente.

Socos, pedradas, pauladas, facadas, olhos perfurados, roupa introduzida no ânus, estes são os relatos de pessoas transgêneras que só no ano passado registrou 175 mulheres transsexuais assassinadas. Em 2019 foram 124 segundo a ANTRA, Associação Nacional de Travestis e Transsexuais do Brasil, e do IBTE, Instituto Brasileiro Trans de Educação. Eles são perseguidos nas ruas, nas escolas, apunhalados simplesmente por caminhar de mãos dadas.

Por isso a importância de cada vez mais pessoas saírem daquele armário que está ficando apertado demais, como aconteceu quinta-feira 24/6 com o escritor Bernardo Carvalho na entrevista ao Globo pelo lançamento de O Último Gozo do Mundo. Ao relatar seu desconforto com os alunos na aula sobre O Erotismo de George Bataille, quando foi chamado de conservador, canalha, machista, tomou um calmante e a decisão de confessar: “Ser gay me ajudou, ou não ía abrir a boca”.

O Brasil não é um país seguro para LGBTQIAP +, já admitiu o diretor canadense Kimahli Powell, da ONG Rainbow Railroad para refugiados. E para não refugiados também: Bárbara Pastana, ativista do Pará, perdeu a guarda do filho ao postar na Internet a foto do filho com a peruca que colocou de brincadeira na Parada de Orgulho Gay de Belém este ano.

Por isso a importância para esta comunidade de uma linguagem, ainda mal aceita pelo resto da sociedade, que troca as terminações identificadoras de gênero. O “a” ou “o” vira “e”, o que transforma um menino ou menina em “menine”. Redações de jornais já recebem releases com a saudação “bom dia para todxs”, como faz a jornalista Eliane Brum. E quem for ao restaurante Futuro Refeitório em Pinheiros, São Paulo, será recebido com saudações e cardápios nesta língua. Para o grupo é importante mas na penúltima série do Método Kominski da Netflix, quando Morgan Freeman insiste em usar num programa a terminação — que em inglês requer “they” em vez de “he” ou “she” –, foi interpelado por Michael Douglas e explicou que foi forçado para dizer “essa bobagem” pelo diretor do programa.

Uma série da Netflix, As Telefonistas (Las Chicas del Cable) exibe o preconceito pelo amor de Carlota e Sara já na Espanha dos anos 1920, 30. Até hoje relações entre homossexuais seguem como crime em 69 países. Países conservadores amigos de Bolsonaro como a Polônia insistem em leis anti- LGBTQIAP +. Mas Canadá, Alemanha, Dinamarca e Austrália já oferecem passaporte aos não binários (com x no lugar de gênero). Aos poucos a Justiça vai autorizando aqui e ali pessoas não binárias a portar identidades com a inscrição “sexo não identificado”. No mundo, e no Brasil engatinhando, aumentam as iniciativas para inserir LGBTQIAPs+ no mercado de trabalho, com o slogan A Dignidade não tem Gênero. 

Uma vitória foi a quantidade de pessoas transgênicas eleitas com votações nas eleições de 2018 – que elegeram justamente Jair Bolsonaro, o transfóbico.

Chegamos hoje em 2021, Dia do Orgulho LGBTQIAP +, com preconceitos e uma polêmica em torno do Burger King que resolveu utilizar relatos de crianças de famílias trans na sua propaganda. Mas a comunidade está abrindo espaços. João do Rio, pseudônimo do famoso cronista João Paulo Emíio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (1881-1921), era o alvo perfeito para ataques no Rio de Janeiro do começo do século passado por ser negro, gordo e homossexual. Mas hoje a Coordenadoria de Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio queria inaugurar uma placa em homenagem a este ícone gay na Associação Brasileira de Imprensa. Valeu o empenho que só não se concretizou porque o prédio é tombado.

Hoje não vão faltar homenagens na data que marcou em 1969 a Revolta de Stonewall em Nova York quando a comunidade LGBTQIAP+ reagiu aos constantes ataques policiais ao bar que era point dos homossexiais e transsexuais . Daniela Mercury vai fazer uma live cantando Eu Sou Tua Esposa que fez para celebrar o casamento no civil há oito anos com a jornalista Malu Verçosa. E Lulu Santos canta Toda Forma de Amor num clipe. Ainda tem lives de Zélia Duncan, Diogo Nogueira, Adriana Calcanhoto, o grupo Calcinha Preta…

Tem homenagens à poeta Safo, nascida há 2.600 anos, que se tornou ícone LGBTQIAP+ para ensinar mulheres a entender seus desejos não aceitos. E a Fernando Pessoa pelos poemas homoeróticos como Antinoo e Daisy –“…contar àquele pobre rapazito/ que me deu tantas horas tão felizes”. O poeta português é reconhecido e negado, na mesma proporção, como homossexual.

A comunidade ganhou espaços impensáveis noutras épocas, como a página inteira colorida no Globo deste sábado 26/6 com a frase “Se o Orgulho LGBTQIAP+ Não Foi Ouvido Pelas Ruas Esse Ano, Agora Ele Pode Ser Lido”. 

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