Obrigado, Janio! Obrigado, Lúcio!


20/01/2023


Por José Trajano, do Conselho Consultivo da ABI, no UOL

Estou fazendo 60 anos de jornalismo!

Comecei aos 16 no velho Jornal do Brasil, na avenida Rio Branco, centro da cidade do Rio de Janeiro, ainda um jovem que mal sabia bater a máquina. Batia com os dedos indicadores, catando milho, enquanto os colegas pareciam metralhadoras pelo jeito rápido de escrever. As imensas redações (sim, imensas) eram embaladas pelo som das Remingthon, Olivetti e Underwood e envoltas pelo fumacê dos cigarros e até de charutos.

Testemunha ocular dos fatos, como o saudoso Repórter Esso da televisão, vi, presenciei e participei de muitos acontecimentos durante este tempo de profissão, principalmente por nunca ter medo de encarar o que desse e viesse.

Sem ter cursado nenhuma universidade, aprendi no dia a dia, com muitos Mestres, como tocar o barco com ética, comprometimento com a informação, e muita empolgação. E com os dois pés na boemia, logo após o expediente.

Vi coisas do arco da velha, conheci jornalistas da pior espécie (da melhor também, mas falo disso mais adiante), especialmente durante os anos de chumbo. Gente que levou muitos companheiros à prisão ou a morte, como no episódio Vlado Herzog.

Puxa-sacos, servis, aliados ao que há de pior na política e na vida, muitos jornalistas entraram para o lixo da história. E continuam entrando, vide os Alexandres Garcia e Augustos Nunes da vida, agarrados ao bolsonarismo e suas aberrações.

Não farei aqui lista dos piores exemplos, mas dos Mestres com quem convivi e fizeram a minha cabeça. Estes, sim, merecem ser sempre citados e lembrados: Sérgio de Souza, João Máximo, Marcos de Castro, Narciso Kalili, Hamilton Almeida, Tarso de Castro.

Para não me alongar mais.

Falei de tudo isso acima para exaltar dois grandes jornalistas que estão no noticiário de hoje: Janio de Freitas e Lúcio de Castro. Que maravilha!

Janio, 90 anos, estreia amanhã como colunista do Poder 360, depois de ser demitido, por telefone, pela Folha, onde durante quatro décadas nos brindou e estimulou com suas colunas corajosas e exemplares. E olha só a sagaz observação dele, que pesquei da entrevista que anuncia a sua estreia. Um olhar de quem está atento aos dias de hoje:

“Todo mundo está de celular, quase o tempo todo olhando para a tela. Isso é um meio de comunicação fantástico, uma coisa absurda. Não é possível uma extensão tão grande, tão absoluta, tão universal das comunicações. A informação digital chegou, venceu. E só vai ampliar.”

E Lúcio de Castro, quarentão, guerreiro, que luta sozinho contra os desmandos do poder. Sujeito que desafia como poucos os poderosos com matérias investigativas e corajosas e que nos revela no @agsportlight o Palácio do Alvorada como o epicentro da organização dos atos golpistas do dia 8 de janeiro. Leiam e divulguem!

Aos dois, Janio e Lúcio, gerações diferentes – o pai do Lúcio, querido e saudoso Marcos de Castro foi colega de Janio -, muito obrigado.

Por causa de gente assim, que não passa o pano, que não se vende ao poder, que tem altivez e coragem, ainda acredito no jornalismo.

Obrigado, Janio, obrigado, Lúcio!

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