3 de outubro de 2022


O Porão mostra golpes jurídicos


26/08/2021


Por Vera Perfeito, diretora de Cultura da ABI

Golpes jurídicos contra a democracia no país

No Encontros da ABI com a Cultura  a entrevistada hoje, às 19h30, será a escritora Luiza Berthoud que acaba de lançar seu livro de estreia O Porão, um romance que escancara os bastidores da Faculdade de Direito da USP, sob o aspecto da literatura, do feminismo e da política e que obstruem a política brasileira. O Porão fala dos golpes contra a democracia brasileira pela classe jurídica.

Luiza Berthoud é a antiga aluna da Velha Academia que no livro conecta a vida dos jovens acadêmicos à história conturbada da política brasileira. Entrevistam a escritora o cineasta Silvio Tendler e as jornalistas Cristina Serra, Vera Perfeito e Zeze Sack, que será a mediadora. Assistam pelo canal da Associação Brasileira de Imprensa do YouTube.

A autora

A antiga franciscana da turma 181 é autora do livro que conta as histórias da Faculdade com um toque de ficção, como algum veterano bom de papo faria numa tarde qualquer de dia da semana.

Luiza Berthoud começou sua vida acadêmica na Faculdade de Direito da USP. Mas em 2010, decepcionada com o que não encontrou – “nem a grande habilidade oratória e nem a de governar” – deu uma guinada em seus projetos e mudou-se para a Califórnia. Formada com bacharelado e mestrado em História da Arte (San Francisco State University e University of California), retomou a escrita. Também foi nesse período que começou a gestação de O Porão.

– Eu quis ir para o mundo mais idealista, mas também mais honesto das artes. Engraçado como no Direito eu vi mais artifícios do que nas artes – diz.

Ela começou a escrever O Porão logo quando abandonou o Direito,” mas não conseguia escrever nada bom”, pontua.

– Eu precisava de mais distância da minha própria experiência para conseguir escrever uma personagem como a Zula, que não é uma heroína vítima de pessoas ruins. Pelo contrário, ela é imoral, corrupta, arrogante. O processo de autocriação, da Zula (e o meu pessoal), envolveu uma boa quantidade de violência contra si mesma. E isso é fundamental para momentos transformativos – relata.

E acredita que esse seu primeiro romance será entendido como auto-ficção, o que não a  incomoda, mas espera que também reflita o seu gosto pessoal de não querer ser tão contemporânea e auto defensiva. Ela odeia o estilo sem afeto e narcotizado que muitos autores da sua geração usam. Muito da literatura contemporânea parece tratar tudo como uma piada de mau gosto. Acha que a incapacidade de se comprometer com qualquer coisa e de assumir a beleza que resiste no mundo são os grilhões da sua geração.

Livro

O Porão, já está disponível para pré-venda e é o primeiro romance ambientado na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a instituição que iniciou a formação de burocratas e políticos brasileiros, consolidando a independência e o autogoverno da nova nação. Entrando no Pátio das Arcadas e descendo ao Porão, a trama costura fatos históricos com uma ficção franca e sem moralismos, retratando a iniciação ao fazer política no XI e às tradições franciscanas: as trovas e os debates calorosos, as eleições do XI e as Assembléias Gerais e, claro, a Peruada.

A história política do Brasil é pontuada – e liderada, obstruída e dobrada – por juristas filhos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. ‘O Porão’, romance de estreia de Luiza Berthoud, retrata a atmosfera labiríntica e caduca do poderio da Velha Academia e revela como os jovens “franciscanos”, futuros membros prometidos da elite brasileira, vacilam entre o idealismo e a embriaguez corrupta da política, entre a sedução da tradição e a distorção cínica da língua para o teatro do direito.

A protagonista do romance, Zula Alvarenga, é eleita ao Centro Acadêmico XI de Agosto, o berço de dezenas de políticos brasileiros. Com seu poderio, ela escreve para grandes jornais, vence debates, organiza protestos, é ouvida por senadores e ministros. Seu futuro está prometido – mas a cada glória, ela narra a demolição de si mesma. O Porãodelibera, sem moralismos, sobre aborto, status e inteligência, a irracionalidade inerente nas nossas afeições políticas, a ambição feminina e o uso alastrado de drogas por jovens protegidos. As circunstâncias políticas que Zula relata serão familiares aos ouvidos contemporâneos e fazem um presságio aos golpes que a democracia brasileira vem sofrendo desde 2014: o discurso “apartidário”, o teatro moralizante das promessas de “especialistas”, os juristas que burlam a democracia em nome do “Estado de Direito”.

– Comecei a escrever O Porão logo quando abandonei o Direito, mas não consegui escrever nada bom. Eu precisava de mais distância da minha própria experiência para conseguir escrever uma personagem como a Zula, que não é uma heroína vítima de pessoas ruins. Pelo contrário, ela é imoral, corrupta, arrogante. O processo de autocriação, da Zula (e o meu pessoal), envolveu uma boa quantidade de violência contra si mesma. E isso é fundamental para momentos transformativos – pontua Luiza.

Luisa acredita que esse seu primeiro romance será entendido como auto-ficção, o que não a incomoda, mas espera que também reflita o seu gosto pessoal de não querer ser tão contemporânea e auto defensiva. Ela odeia o estilo sem afeto e narcotizado que autores da sua geração usam. Muito da literatura contemporânea parece tratar tudo como uma piada de mau gosto. Acha que a incapacidade de se comprometer com qualquer coisa e de assumir a beleza que resiste no mundo são os grilhões da sua geração.

Na declarada derrota de sua protagonista, O Porão conta a dilapidação moral da elite intelectual da nação e faz um presságio aos golpes que a democracia brasileira tem recebido desde 2014, às vezes pelas mãos da classe jurídica. Com uma prosa lírica e ágil, Berthoud relata as antecâmaras de um momento histórico agonizante, gamificado e antidemocrático, no qual não é mais possível fazer uma política humana. Na política, a falsidade geralmente vence, mas na literatura nem tanto. O Porão tem 274 páginas e está saindo pela Numa Editora. Seu preço é R$39,90. Link: http://www.numaeditora.com/2021/07/11/o-porao-luiza-berthoud/

Escritora

Nascida em Taubaté, interior de São Paulo, em 1988, trabalha profissionalmente como historiadora da arte e produtora cultural, com atuação em diversos museus e centros culturais do Brasil e dos EUA, entre eles Pinacoteca de São Paulo e Contemporary Jewish Museum em São Francisco, EUA. Concluiu o bacharelado em História da Arte na San Francisco State University e mestrado na University of Califórnia, Davis, com ênfase em Filosofia da Arte.

Antes de estudar Artes, cursou a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (entre 2008 e 2010 e – como a protagonista do romance –  abandonou o curso). Foi eleita para o Centro Acadêmico XI de Agosto em 2009.

Antes de O Porão publicou alguns contos em inglês e um deles foi premiado pelo Yerba  Buena Center for the Arts, chegando a fazer parte de uma exposição de arte na instituição.

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