O discutido pênalti de Domingos


11/07/2008


O futebol brasileiro fracassou nas duas primeiras Copas do Mundo. No Uruguai, em 1930, o Brasil não se fez representar com a sua melhor seleção. A briga entre os dirigentes do Rio e de São Paulo tirou os jogadores paulistas do mundial. A CBD não colocou na Comissão Técnica nenhum representante daquele estado, gerando o descontentamento. Araken Patuska, que estava sem clube, foi o único paulista na seleção.

No nosso grupo estavam a Bolívia e a Iugoslávia. Na estréia perdemos para os iugoslavos por 2 a 1. No segundo jogo vencemos a Bolívia por 4 a 0, mas como a seleção iugoslava ganhou dos bolivianos por 4 a 0, se classificou e nós ficamos de fora.

Quatro anos depois, as divergências continuavam a prejudicar o futebol brasileiro. Agora, era a briga entre a CBD, entidade de clubes amadores, e a FBF, cujos filiados eram clubes profissionais. As agremiações da Federação Brasileira de Futebol se negaram a ceder os seus jogadores. Por interferência de Carlito Rocha, alguns profissionais concordaram em participar da seleção, como foi o caso de Leônidas da Silva.

Classificado nas eliminatórias com a desistência do Peru, o Brasil disputou as oitavas-de-final em jogo único, sendo eliminado pela Espanha ao ser derrotado por 3 a 1.

Na terceira Copa do Mundo, disputada na França, pela primeira vez o futebol brasileiro estava representado por seus melhores jogadores. A estréia foi contra a Polônia. No tempo normal, houve o empate de 4 a 4 e, na prorrogação, conseguimos chegar à vitória por 6 a 5. Depois enfrentamos duas vezes a Tchecoslováquia. O empate de 1 a 1 foi o resultado da primeira partida e, no jogo desempate, ganhamos por 2 a 1 e nos classificamos para as semifinais. O adversário era a poderosa campeã do mundo, a Itália.

Lance decisivo

                Domingos da Guia

Mesmo sem Leônidas, seguramos o empate de 0 a 0 no primeiro tempo. Num contra-ataque italiano aos 11 minutos do segundo tempo, Colaussi abriu a contagem. O lance decisivo da partida aconteceu quatro minutos depois. O árbitro suíço M. Wutrich marcou pênalti de Domingos da Guia em Piola, fato que dificultou a reação brasileira para superar a vantagem adversária.

Os jornais que cobriam o mundial publicaram várias matérias sobre o tão discutido lance e, em especial, a imprensa francesa. O jornalista francês A. Chantrel, no jornal Sporting, de Paris, escreveu:

Em Marselha, os brasileiros realizaram uma péssima partida. Romeu, Luizinho e Perácio, sucessivamente, tentaram substituir Leônidas, no centro da linha avante. Mas foi em vão. A turma brasileira desarticulada, fatigada, foi dominada pela Itália. Não obstante a superioridade do adversário, os brasileiros foram batidos por um pênalti dos mais discutíveis. De fato, enquanto a bola se encontrava a 40 metros da linha, Domingos deu um pontapé em Piola. Este tomba e o juiz, voltando-se, sem hesitação, concede a penalidade. A meta não estava ameaçada, pois a bola não estava em jogo.

 Silvio Piola

Houve falta, é evidente, mas o Sr. Wutrich seria mais inspirado se fizesse sair Domingos do que oferecer um ponto aos italianos, tanto mais que ele poderia pensar — e teria acertado — que Domingos não cometeu essa falta de sangue-frio, mas sim em revide a uma provocação. De qualquer modo foi esse o ponto da vitória e da eliminação dos brasileiros.”

Em outro jornal esportivo, O Football, de Paris, o jornalista Gabriel Hanot expôs a sua opinião:

Existe uma só mancha no puro cristal do futebol praticado por Silvio Piola. É uma certa tendência a dissimulação. Em Marselha, quando recebeu os golpes do grande Domingos, Piola atirou-se ao solo para obter um pênalti a favor da sua equipe. O árbitro suíço M. Wutrich ficou, com efeito, alarmado e concedeu injustamente o pênalti que Meazza transformou em gol da vitória, enquanto Piola se levantava absolutamente indene! (…)

Fala o autor

O grande Domingos da Guia, autor do pênalti, no livro “O Divino Mestre”, do jornalista inglês Aidan Hamilton, falou sobre o discutido lance:

Durante todo o ‘match’ fui provocado pelo centro-avante. Recebera ordens de Pimenta no sentido de não largar o craque italiano: ‘Você será a sombra de Piola.’ E foi o que aconteceu. Antecipava-me, com facilidade e, nas bolas altas, procurava sempre confundi-lo. Lá pelas tantas, Piola perdeu a cabeça e desandou a dizer palavrões. Explodia: ‘Você não me larga, não é? Pois vai se arrepender.’ Às ameaças do adversário, todos sorríamos. Até que ele começou, de fato, a distribuir pontapés. Os palavrões de Piola, que vinham em italiano, eram devidamente traduzidos e devolvidos.

Aos 15 minutos da fase complementar, ainda com o Brasil em pleno domínio, a defesa italiana rechaçou uma bola. Pulamos, eu e Piola. Estávamos no setor esquerdo e o centro-avante, vendo o meia em boa posição, tentou cruzar. Ora, eu vinha marcando em cima e a cabeçada do adversário saiu defeituosa. O juiz consignou bola fora. Quando voltava para posição, fui surpreendido com a violência do rapaz.

   Romeu Pelliciari

Cinicamente, o italiano atingiu o meu tornozelo. Cego de dor e de ódio, revidei. Foi o bastante. O árbitro, que não vira o lance anterior, usou o apito. Eis um momento inesquecível da minha vida. Todos os jogadores do Brasil ficaram atônitos. Martim, capitão da equipe, foi falar com o juiz. Este respondeu no seu idioma. Alucinado, o centro-médio perguntou: ‘O senhor é ladrão?’ O juiz confirmou, acenando. Com o mal consumado, nasceram alguns protestos dos dirigentes. Mas já não mais seria possível remediar a situação. A bola foi colocada na marca de cal e o placar, modificado.”

Romeu ainda fez o gol de honra brasileiro aos 41 minutos. A seleção terminou a Copa com uma bela vitória diante da Suécia por 4 a 2, em disputa do 3o lugar.

O pênalti de Domingos em Piola aconteceu no dia 16 de junho de 1938, há 60 anos, e faz parte dos inúmeros lances polêmicos que enriquecem a história do fascinante mundo do futebol.

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