9 de agosto de 2022


O Dia em que a Justiça Entrou no DOI-Codi


29/10/2021


Por Paulo Henrique Arantes, para o portal 247.

Defensores de Direitos Humanos, Núcleo Memória à frente, lançam nesta sexta-feira (29), às 18h, em live que pode ser acompanhada via @nucleodepreservacaodamemoriapolitica, o documentário “O Dia em que a Justiça Entrou no DOI-Codi”, de Camilo Tavares. Os leitores do Brasil 247 já podem assistir ao filme, de 17 minutos, clicando neste link. Participarão da live nomes como Paulo Vannuchi, ex-ministro dos Direitos Humanos, Ariel de Castro Alves, presidente do grupo Tortura Nunca Mais, Eugênia Gonzaga, procuradora da República que presidiu a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Rogério Sottili, diretor do Instituto Vladimir Herzog, e Marcelo Araújo, superintendente do Instituto Moreira Salles, além de Maurice Politi, diretor do Núcleo Memória, e do próprio Camilo Tavares.

O DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), que tornou a Rua Tutoia 921, na Zona Sul paulistana, o endereço mais tenebroso da ditadura civil-militar que subjugou o país por 21 anos, foi tombado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) em 2014, o que é muito pouco em termos de preservação da História. O prédio ainda não se tornou um memorial de verdade porque o Governo João Doria não quer.

As cenas de “O Dia em que a Justiça Entrou no DOI-Codi” foram gravadas em 9 de setembro último, quando realizou-se uma audiência pública dentro das dependências da antiga casa do terror, onde 7 mil brasileiros foram presos e torturados e onde 54 morreram nas sessões de tortura comandas pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Uma ação civil pública, proposta pelo promotor Eduardo Valério, pede que o prédio do antigo DOI-Codi passe a ser de responsabilidade da Secretaria da Cultura, e não mais da Secretaria de Segurança Pública.

Da audiência pública, por decisão do juiz José Eduardo Cordeiro Rocha, da 14ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, resultou que o prédio não poderá ter outro destino a não ser o de constituir um memorial e que o Governo do Estado teria, a partir daquela data, 90 dias para apresentar um projeto com tal finalidade.

O jornalista Ivan Seixas foi torturado ali em 1971, aos 16 anos, junto com seu pai, Joaquim Alencar de Seixas. Ambos eram militantes de organizações clandestinas contra a ditadura. Ele viu o pai morrer sob tortura. Coordenador da Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, Seixas foi o proponente do tombamento do antigo prédio do DOI-Codi e está no filme de Camilo Tavares ao lado de várias outras pessoas martirizadas naquelas salas pouco iluminadas.

“Voltar àquele lugar é como tomar o território do inimigo”, disse Ivan Seixas ao Brasil 247. Na audiência de 9 de setembro último, ele ouviu um delegado defender que o imóvel  seja transformado numa espécie de academia de Polícia. “Só se for para ensinar tortura”, retrucou na hora, em dura ironia.

Mas por que o Governo do Estado resiste a transferir as instalações para a Cultura, já que hoje o prédio é apenas parcialmente ocupado por uma delegacia? Para Seixas, “por falta de vontade política dos tucanos”.

Segundo o promotor Eduardo Valério, que não está mais à frente da ação por ter mudado de área no âmbito do Ministério Público do Estado de São Paulo, o argumento do governo é que a própria Pasta da Cultura não quer essa responsabilidade, por falta de recursos e outras desculpas do gênero. Na audiência pública, representantes da Procuradoria da Fazenda chegaram ao ridículo de argumentar que a criação de um memorial no local poria em risco a vida dos visitantes, já que havia “presos perigosos” na delegacia local – esqueceram de que não há presos custodiados no local desde 2003, quando a carceragem da 36ª DP foi desativada.

“O prédio foi tombado em 2014 e houve compromisso do então governador, Geraldo Alckmin, de transferi-lo para a Secretaria da Cultura. Alckmin não cumpriu a promessa e Doria não demonstra vontade política para tanto”, afirma Maurice Politi, também ele um sobrevivente dos horrores do coronel Ustra. “Doria contrapõe-se a Jair Bolsonaro por ter sofrido na carne com a ditadura, mas neste caso não está fazendo nada”, aponta.

Link da matéria original: 

https://www.brasil247.com/cultura/filme-sobre-o-doi-codi-e-lancado-com-a-indagacao-por-que-doria-nao-quer-preservar-a-memoria-dos-torturados

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