19 de agosto de 2022


O Atakarejo e a milícia: ligações perigosas?


12/05/2021


Uma frase dita pelo secretário de Segurança Pública da Bahia, Ricardo Mandarino, em pronunciamento sobre o caso Atakarejo, despertou a atenção para a possibilidade de milicianos terem sido os executores dos jovens Bruno e Yan Barros, pegos furtando carne no supermercado.

Mandarino deixou uma suspeita no ar durante entrevista concedida na última quarta-feira, dia 05. Sem apontar culpados, disse o secretário: “Mandar matar é coisa de miliciano, de marginal, de bandido. Você não pode se mancomunar com a bandidagem para resolver seus problemas. É muito grave”.

Em outro trecho da entrevista, afirmou: “Aqui na Bahia, o pessoal tem que entender que não existe espaço para poder paralelo”. E continuou: “Seja empresa de segurança, seja o próprio supermercado, e eu não estou dizendo que eles são os responsáveis, ainda, mas eles estão sendo investigados. Eles têm pouco apreço pela vida humana. Eles querem resolver o problema deles da forma que eles julgam mais eficiente. Qual é a forma eficiente de resolver o problema, é matar?”.

A fala do secretário chama atenção sobre o envolvimento de milicianos e de um Grupo de Extermínio no assassinato de Bruno e Yan Barros, tio e sobrinho, dia 26 de abril.

Os jovens foram pegos frutando carne no supermercado Atakarejo do Nordeste de Amaralina, em Salvador. Horas depois os corpos foram encontrados com sinais de tortura e disparos de arma de fogo, no porta-malas de um carro na localidade da Polêmica, no bairro de Brotas, na capital baiana.

O que também chama a atenção é que quatro dias antes do crime contra os jovens o guarda municipal Marcos Cardoso foi executado exatamente na Polêmica e sua arma levada. Marcos Cardoso estava há 12 anos na GCM e era acusado de dois assassinatos, chegando a ser preso em 2017 por ter ameaçado e matado uma testemunha, junto com outro homem.

Segundo moradores do bairro, logo após a execução do guarda teve início uma série de agressões de agentes da GCM na localidade com ameaças, invasão a imóveis e disparos de armas de fogo. Vídeos foram gravados e circulam em redes sociais, de guardas usando armas de choque e pondo algemas em pessoas que não haviam esboçado resistência à prisão.

Uma testemunha diz ter tido o peito pisado por um agente e uma arma apontada para ela. Assim relatou: “Se eles quiserem descobrir quem foi que matou o guarda municipal, eles que descubram. Mas eles têm que ir às pessoas certas, e não nos moradores”, desabafa.

O termo “milicianos” é usado para identificar integrantes de organizações criminosas compostas por agentes e ex-agentes das forças armadas e da lei, como: militares, guardas municipais, policiais, bombeiros, agentes penais, além de civis, segundo informação da própria Secretaria e do ministro da Justiça. Os milicianos são normalmente agentes públicos que aterrorizam e assassinam para controlar populações pobres, sob a justificativa de estarem agindo no cumprimento do “dever”. Também são responsáveis por extorquir empresários e assassinar colegas de corporação que se opõem às suas ações criminosas.

A diferenciação dos milicianos é a vantagem de poder agir “livremente” por estarem integrados às forças de segurança, cargos que ocupam, ou terem relações neste meio. Mais do que medo, as milícias impõem o silêncio e seu objetivo visa o lucro e o poder. Buscam o controle total de áreas antes ocupadas pelo tráfico de drogas, além do domínio sobre negócios da localidade, tipo, imóveis, gás, comércios, cooperativas e empresas de segurança privada.

Moradores do bairro Fazenda Coutos, onde moravam Bruno e Yan, assassinados após terem furtado carne seca no supermercado Atakarejo, denunciaram que tanto a cooperativa de transporte de passageiros, quanto a empresa de segurança, atuantes no supermercado, pertencem a policiais militares. Procurado por repórteres de diversos veículos, o supermercado não confirma a informação.

Ações conjuntas entre as polícias e o Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), demonstram o crescimento de ações milicianas na Bahia. No último dia 05 de maio, a Polícia Militar prendeu três ex-agentes penitenciários, suspeitos na tentativa de seqüestro a um empresário de Cruz das Almas, cidade da região do Recôncavo baiano.

No dia 17 de abril, um ex-policial civil foi preso por envolvimento com uma quadrilha de traficantes da Boca do Rio, em Salvador. Ainda no mês de abril, dois policiais civis foram presos pelo Gaeco por associação com plantadores de maconha na região da Chapada Diamantina.

Em fevereiro deste ano, sete policiais militares e um policial civil foram presos por integrar uma milícia que praticava diversos crimes de homicídio e intimidação coletiva em municípios no sul da Bahia, como Vitória da Conquista, Itabuna, Ilhéus e Itacaré. Só este ano foram presos cerca de 20 integrantes das forças de segurança associados com crimes.

O crescimento de ações milicianas na Bahia nos últimos dois anos é fato constatado pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) na Bahia e em estatísticas feitas por órgãos diversos, em contato com jornalistas e pesquisadores da segurança pública no Estado.

Desde antes de ser eleito, Bolsonaro e a família têm demonstrado abertamente apoio ostensivo a grupos milicianos e de extermínio. Por que será?

Em entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan, em 2018, quando já era pré-candidato, disse: “Naquela região onde a milícia é paga não tem violência”. O próprio Bolsonaro, quando deputado, taxou milicianos como “defensores da ordem” no plenário da Câmara, em 2008. Seu filho Flavio Bolsonaro votou contra a instalação de uma CPI das milícias da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, em 2007.

Diante de tamanhas evidências é que estamos preocupados e vigilantes, por inúmeras agressões e ameaças aos profissionais de imprensa. Queremos que as instituições como SSP e MP apurem com maior responsabilidade estas evidências, punindo-as com o rigor da lei. Não podemos tolerar a continuidade dessas agressões, principalmente aos profissionais de imprensa e ao povo pobre, sobretudo negros e desempregados. Lutamos pela preservação do estado democrático de direito e respeito à sociedade.

Fábio Costa Pinto, jornalista representante regional da ABI na Bahia.

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