12 de agosto de 2022


No Brasil, ciência e bom senso não são bem-vindos


13/08/2020


Por Nilson Lage, jornalista e conselheiro da ABI

A prisão recente de um pesquisador destacado da Fiocruz, a operação terrorista desfechada há tempos pela Polícia Federal contra o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (que, em choque, terminou se suicidando) e a absurda humilhação imposta ao cientista líder da pesquisa nuclear na Marinha são sérias advertências a quem quer que, competente, sério e patriota, tenha contribuição a dar para o bem-estar do povo ou o progresso da nação brasileira.
O conselho é que vá embora ou, se ficar, se esconda. No Brasil atual, ciência e bom senso não são bem-vindos. Governam o país os piores dentre os brasileiros – e essa não é apenas questão política, como podem testemunhar os ex-ministros Mandetta e Reich, ou o General Santos Cruz.
De um lado, clérigos fanáticos, oriundos, de igrejas negociantes; pastores teatrais e retrógrados que assaltam os fiéis, lavam dinheiro e prometem curas milagrosas.
De outro, difusa coleção de militares que defendem a tortura e o fim das instituições em nome do que eles acham que é democracia – uma espécie de câncer anarco-fascista que há décadas contamina as forças armadas desde praças milicianos das polícias estaduais que convivem e aprendem com grupos criminosos até veteranos desengajados movidos por desmedida ambição ou ganância.
Finalmente, o pior: uma enorme e furiosa estrutura de controle com dezenas de níveis de fiscalização, investigação, vigilância e castigo, construída na suposição de que todas as pessoas são desonestas. Enquanto a máquina da corrupção se move em grande escala por detrás do cenário, essa matilha fuça coisas miúdas e engana os trouxas; obriga a recorrer a expedientes como notas fiscais frias e recibos alterados; promove a delação e a deslealdade nas repartições; serve a interesses privados e de nações estrangeiras.
Trata-se de um coletivo de salvadores da pátria – promotores, procuradores, juízes dotados de enorme vaidade, impunidade garantida, escassa cultura e nenhum espelho. Bandos de bacharéis e contadores bancários atuam coordenados, comandando aparatosas swats. Não há advogado ou escritório de advocacia esperto que não tenha juízes amigos ou meios de distribuir ações a relatores simpáticos à causa nos tribunais. Nem escasseiam contatos que assegurem a desmoralização dos infelizes visados numa imprensa alto-falante, onde tudo é muito rápido para que ninguém pense..
Os bacharéis, selecionados em concursos onde se exige o espírito punitivista, vêm de faculdades de direito transformadas, aos poucos, em escolas de polícia onde se cultiva o tom retórico das palmatórias do mundo – e palmatórias são o que há de mais propício à corrupção, como se sabe..
No momento, não temos um país, mas farta distribuição de pobreza e festejada repartição dos bens nacionais.
Pode ser que deixem a carcaça para nós, quando esgotarem o petróleo, a água, as florestas, os pastos, minérios e grãos, que ficam para o fim para o xeque-mate dos Estados Unidos na segurança alimentar da China.

 

 

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