3 de julho de 2022


Mário de Andrade no Rio: um mundo novo, quase incompreensível.


25/02/2022


Por Rogério Marques, conselheiro da ABI

Este é o título de um belo texto que o jornalista e escritor Moacir Werneck de Castro (1915-2010) escreveu em 1984 para a Revista do Brasil, que já não existe. Infelizmente, perdi esta revista — um daqueles casos de empréstimo sem retorno. Mas guardei parte do texto precioso de Werneck de Castro, que merece muito ser lido, e também algumas anotações que fiz na época sobre o texto do jornalista. 

Neste mês de fevereiro comemora-se o centenário da Semana de Arte Moderna. Foi também num mês de fevereiro que Mário de Andrade morreu de infarto, aos 51 anos — 25 de fevereiro de 1945.

Antes do texto de Werneck, com base nas anotações que guardei, aqui vai uma pequena introdução, para situar um pouco do Rio e da vida de Mário de Andrade naquela época.

Abril de 1938. O escritor e poeta paulistano Mário de Andrade chega ao Rio, onde morou, trabalhou, fez novas amizades e bebeu até 1941. Moacir, com 20 e poucos anos, conviveu com Mário nessa temporada, quando o autor de Macunaíma já estava na faixa dos 40. Essa convivência, mais algumas cartas trocadas posteriormente com amigos que fez no Rio, entre eles o próprio Werneck de Castro, nos permite conhecer, na intimidade, aquela experiência carioca de Mário. 

Seu primeiro endereço no Rio foi um modesto apartamento de quarto e sala na esquina das ruas Santo Amaro e do Catete, onde a Zona Sul carioca guarda um jeito de subúrbio. Depois viveu também no bairro de Santa Teresa. 

De São Paulo, o poeta e escritor trouxe os problemas de depressão que o perseguiram por tantos anos, até o fim da vida. Conseguiu emprego como diretor do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal, “encarregado de reger a cadeira de História e Filosofia da Arte”. 

Vamos, portanto, ao texto de Moacir Werneck de Castro, com o título “Mário de Andrade no Rio: um mundo novo, quase incompreensível”. O texto original não tem os entretítulos. 

                                        UMA ESQUINA NO CATETE

Retrato de Mário de Andrade, por Tarsila do Amaral (reprodução Romulo Fialdini)

(…) “O local de moradia tinha a vantagem de permitir ao professor ir à pé para o trabalho, três quadras adiante, ao lado do Palácio do Catete. Era uma esquina de bairro quase central, muito movimentada, com bondes estrondando nos dois sentidos da Rua do Catete. A poucos metros, na mesma Santo Amaro, o clube High Life era um vulcão adormecido que só despertava, violentamente, nos bailes de Carnaval. Na direção do Centro, também a alguns passos, ficavam, de um lado, o Palácio São Joaquim, reduto das excelsas virtudes arquiepiscopais de D. Sebastião Leme, e, do outro, bem em frente, a Taberna da Glória, com suas mesas na calçada, onde pululava madrugada afora uma estranha fauna de boêmios, sambistas, intelectuais, artistas, estudantes e mariposas da noite. Mais adiante era a Rua Conde de Lage, com os seus famosos bordéis, e a Lapa dos bares e cabarés, que muitos chamavam de “Montmartre carioca” (sem nunca terem ido a Montmartre, naturalmente). Para os lados do Largo do Machado ficavam as pensões onde moravam e comiam (muito mal) a intelligentsia pobre. Numa delas, na Rua Correia Dutra, 164, viviam naquele tempo Graciliano Ramos (lá escreveu Vidas secas, ao sair da prisão), com sua mulher Heloísa e duas filhas pequenas, no mesmo quarto de fundos, além de Rubem Braga, Lúcio Rangel e o autor destas linhas. (…)

                                        O QUARENTÃO ELEGANTE

A princípio achávamos, os moços seus amigos — uns vinte a vinte e dois anos mais moços –, que Mário devia ser rico. Aquele quarentão elegante, vestindo ternos do melhor linho branco, gravatas vistosas, lenço perfumado, chapéu caro (que aliás, aos poucos, foi deixando de usar, contagiado pela “bagunça”, como dizia, dos hábitos cariocas), era imprudentemente lépido ao puxar a carteira na hora da conta do chope na Taberna da Glória ou no Bar da Brahma. Um dia se queixou a Rubens Borba de Moraes de que não aguentava mais aquela “exploração carioca e nortista de um paulista inexperiente”. Ora, inexperiente podia ser, mas trouxa não era quem inventou Macunaíma, e acabou fazendo sentir aos seus jovens companheiros que assim não era possível, tanto mais que as chopadas se tornavam habituais. (…)

As cartas escritas durante o período em que ele viveu no Rio, principalmente para Paulo Duarte, contêm inúmeras referências a farras e bebedeiras. Fala em “porres colossais, dois ou três por semana”, numa carta de 17 de dezembro de 1939, e conta: “Os outros dias me trato. O último médico que me examinou , poucos dias faz, me garantiu que tenho todas as vísceras atrapalhadas e estou condenado à morte”. Daí toma “um porre tão fabuloso que além de, pela segunda vez, perder por completo o acordo de mim… ainda fiquei dois dias de cama, imóvel”.

                                       COCAÍNA E OUTRAS DROGAS        

Os seus jovens companheiros de bar, diga-se a verdade sem qualquer intenção (que no caso seria idiota) de resguardar-lhe a memória, jamais o vimos nesse estado. Rubens Borba escreve que uma manhã foi encontrá-lo em seu apartamento numa ressaca dramática. E [Francisco] Mignone, segundo me disse, se recorda de que uma vez ele bebeu desesperadamente e no dia seguinte telefonou, envergonhado, a perguntar pelos óculos que tinha perdido. (…)

Também o uso de drogas tem sido mencionado, mas acredito, com o aval de Pedro Nava, um dos seus médicos, que ele jamais se viciou. Nava dá pleno crédito a uma carta que Mário lhe mandou em novembro de 1943, confirmando isso e contando que uma vez (foi em 1923, no Recife) já passara “um carnaval inteiro, cinco dias, a cocaína; só tinha tido dificuldade em largar o Sedol que usara para vencer uma dor muito forte. Dos vícios, dizia, o único que o venceu foi o fumo. Não escondia já ter experimentado de tudo em matéria de tóxicos. Curiosamente, na nossa roda, a única experiência nessa matéria foi um tubo de Pervitin trazido pelo futuro embaixador Everaldo Dayrell de Lima, que precisava vencer as noites para o concurso do Itamarati. O episódio não deixou rastros na modesta rotina chopística da Taberna da Glória. Mais tarde, numa carta de São Paulo, Mário me contava que só podia dormir com Beladernal e trabalhar a poder de Orredrina. 

O fato é que ele reconhecia estar se suicidando aos poucos. Vivia cheio de fobias, não podia andar na rua sozinho ou beber sozinho no bar, sentia-se vigiado, perseguido, ameaçado — “uma coisa cruel, irrespirável, insuportável, uma angústia culminante que não posso descrever”, diz ele numa de suas confissões lancinantes.

                                     “ASSOMBROSA SENSUALIDADE”        

Ainda está por ser analisado em profundidade o seu estado psíquico nesses anos. Creio que há fatores digamos conjunturais a levar em conta, mas o mal lavrava dentro dele, desde antes, e o mistério deve ser encontrado em sua própria obra, particularmente na poesia. À luz da correspondência é possível penetrar mais fundo nesse mistério. Com a ajuda, por exemplo, de uma confissão que ele faz na mais extensa e importante de suas cartas, com data de 14 de dezembro de 1940, dirigida à sua fiel amiga Oneida Alvarenga. Mário cita ali como de importância decisória para a sua formação a sua “assombrosa, quase absurda” e, segundo Paulo Prado, “monstruosa” sensualidade — não a sensualidade “mesquinhamente fixada na realização de atos de amor sexual, mas de uma faculdade que, embora sexual sempre e de uma intensidade extraordinária, é vaga, incapaz de se fixar numa determinada ordem de prazeres que nem sempre são mesmo de ordem física. Uma espécie de pan-sexualidade, muito mais elevada e, afinal de contas, casta, do que se poderia imaginar”. Esse trecho e o mais que se segue projetam uma luz intensa sobre o processo criador do poeta, esse mesmo que escrevia na “Moda do corajoso”: “Meu espírito sublima / O fogo devorador””. Eis a palavra-chave: sublimação. Mas isso é tema para psicólogos e psicanalistas, e se tivéssemos de indicar um, apontaríamos aquele que melhor conhece a vida e a obra de Mário de Andrade: Hélio Pellegrino.” ​

Edifício no bairro do Catete onde morou Mário de Andrade. (Foto Rogério Marques)

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Cinco anos depois deste artigo, em 1989, Moacir Werneck de Castro lançou o livro “Mário de Andrade — exílio no Rio”, com mais de 20 cartas endereçadas por Mário ao autor.

Mário de Andrade morreu em 25 de fevereiro de 1945, em São Paulo, aos 51 anos, de infarto.

A Revista do Brasil foi fundada em 1916 e teve cinco fases, com interrupções. A última de 1984 a 1990, período em que ressurgiu por proposta de Darci Ribeiro.

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