Marcito era desassombrado, diz a ABI


04/04/2009


Em declaração ao canal Globo News, da Rede Globo de Televisão, na noite desta sexta-feira, dia 3 de abril, o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, descreveu o jornalista e ex-Deputado Márcio Moreira Alves, o Marcito, que falecera horas antes, como um homem generoso, solidário e desassombrado, que teve a coragem de denunciar as torturas em presos políticos nos primeiros dias do golpe militar de 1º de abril de 1964. Lembrou Maurício que as reportagens e crônicas de Marcito sobre essas violências foram reunidas então no livro “Torturas e torturados”, que alcançou grande repercussão na época.

O Presidente da ABI repetiu essa definição de Marcito em entrevista ao canal SBT na tarde deste sábado no cemitério do Caju, onde o corpo do ex-parlamentar foi cremado após o velório realizado desde as 9 horas da manhã no Palácio Tiradentes, sede da Assembléia Legislativa do Estado. A cerimônia no Caju teve caráter reservado, com a presença da viúva Madalena Diegues Moreira Alves, os filhos de Marcito e outros parentes, entre os quais o cineasta Cacá Diegues, cunhado do ex-parlamentar. Entre os presentes estavam também Frei Betto, que fizera a encomendação do corpo na vigilia na Assembléia, e o advogado Hélio Saboya, ex-Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil-Seção do Estado do Rio de Janeiro e ex-Seceretário de Justiça do Estado.

Em entrevista a “O Globo” horas após o falecimento de Marcito, o Presidente da ABI disse que ele “se dedicou com igual intensidade e competência ao jornalismo e à vida pública”. Por isso, “não passou em branco pela vida”. Maurício disse mais:

“Marcito foi personalidade importante como jornalista e como homem público. Muito jovem, teve atuação marcante: ganhou o Prêmio Esso cobrindo a política em Alagoas. Além do relevo que atingiu como repórter, no golpe militar teve atuação muito forte diante das denúncias de tortura. Graças à militância na defesa da cidadania, elegeu-se deputado federal. Ali, teve uma passagem muito densa, marcada por discurso histórico, considerado ofensivo pelos militares. Deu seu recado como jornalista e como homem público. Sempre foi uma pessoa muito carinhosa, respeitosa com as pessoas humildes. Sua partiuda deixa saudades.”

Marcito (Márcio Emanuel Moreira Alves) era carioca, nascido em 14 de julho de 1936, e pertencia a uma família de origem mineira. Seu pai, Márcio de Melo Franco Alves, empresário e político, foi Prefeito de Petrópolis, RJ, e Secretário de Fazenda no Governo Negrão de Lima no antigo Estado da Guanabara, de 1966 a 1971. A mãe, Branca de Melo Alves, era militante de movimentos católicos. Ele começou como jornalista com 17 anos, como repórter policial do Correio da Manhã, e participou muito jovem de coberturas importantes, como a disputa pelo Canal de Suez entre a Inglaterra e o Egito.

Ao cobrir a crise política gerada pela proposta de impeachment do Governador de Alagoas Muniz Falcão, em setembro de 1957, Marcito foi baleado no plenário da Assembléia Legislativa do Estado durante um tiroteio entre parlamentares da situação e da oposição. Após arrastar-se pelo plenário conflagrado, foi hospitalizado com ferimento na perna. No hospital, pediu ao médico que o socorreu que passasse um telegrama de 15 linhas ao Correio da Manhã, relatando o tiroteio. Essa reportagem lhe valeu o Prêmio Esso de 1957.

Após o golpe militar, Marcito destacou-se ao lado de outros jornalistas do Correio, como Carlos Heitor Cony, pela denúncia das violências da ditadura e se engajou na resistência ao regime militar. Eleito por seus leitores, como disse em depoimento em 2004, ganhou notoriedade com um discurso em que pregou que as mulheres de oficiais os evitassem na vida sexual enquanto eles não restabelecessem o regime democrático no País e que as mocinhas casadouras deixassem de namorar cadetes.

Distribuído a rodo em quartéis, o discurso levou o Governo Costa e Silva a processá-lo perante o Supremo Tribunal Federal, que precisava de autorização da Câmara dos Deputados psara dar seguimento ao processo. Apesar de contar com uma maioria governista de dois terços dos seus membros, a Câmara rejeitou o pedido no dia 12 de dezembro de 1968 por 216 votos a 141. Com essa recusa como pretexto, no dia seguinte o Governo Costa e Silva decretou o Ato Institucional nº 5, que sufocou o País por mais dez anos. Marcito e outros dez deputados tiveram o mandato cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos.

Exilado no Chile e depois na França e em Portugal, Marcito só retornou ao Brasil com a anistia, onze anos depois. Após tentar eleição para a Câmara em 1982, sem sucesso, passou a dedicar-se apenas ao jornalismo, como articulista da Tribuna da Imprensa e, depois, em diferentes momentos, como cronista político e repórter de O Globo, Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo. Como repórter, publicou textos no livro “Brasil Profundo”, em que mostrava a vida e os problemas de cidades e populações do interior do País.

Marcito estava internado desde outubro passado, após um acidente vascular-cerebral, de que nunca se recuperou. Ele deixou viúva Madalena Diegues Moreira Alves, com quem se casou em 2004, e três filhos de casamento anterior com a francesa Marie.

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