29/03/2026
Por Geraldo Cantarino

O escritor, roteirista e jornalista Marcelo Rubens Paiva recebeu, na sexta-feira (27), a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), em reconhecimento à sua destacada atuação na defesa e valorização da cultura brasileira, em cerimônia realizada na Sala Nelson Pereira dos Santos, no Reserva Cultural, em Niterói.
A homenagem foi proposta pela deputada estadual Verônica Lima (PT-RJ), presidente da Comissão de Cultura da Alerj. Em auditório lotado, a cerimônia contou com a presença de Marcelo Freixo, presidente da Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo), e de Antônio Cláudio Nóbrega, reitor da UFF (Universidade Federal Fluminense).
Antes da entrega da medalha e do respectivo diploma, houve uma roda de conversa sobre democracia e cultura. Marcelo Rubens Paiva traçou um panorama do período que antecedeu o golpe de 1964 até o movimento pela retomada das eleições diretas para a Presidência da República, passando pelos anos de chumbo, que deixaram marcas profundas em sua família.
Em 1971, seu pai, o ex-deputado federal Rubens Paiva, foi sequestrado por agentes da repressão, torturado até a morte e teve o corpo desaparecido, tornando-se um dos casos mais emblemáticos da ditadura. A história é relatada em seu livro Ainda estou aqui (2015), vencedor do Prêmio Jabuti, que deu origem ao filme dirigido por Walter Salles — responsável pelo primeiro Oscar do Brasil, dez anos depois, e pelo Globo de Ouro de melhor atriz para Fernanda Torres, que interpretou Eunice Paiva, advogada e mãe do escritor.
“Nós viemos de um Brasil que estava em guerra. Ele era vítima da Guerra Fria, que acabou atropelando os países. Houve uma resistência armada diante daquele absurdo que estava acontecendo”, disse o escritor. “E fomos atropelados por um movimento golpista, que temia as ações do presidente João Goulart e de um grupo de políticos nacionalistas, no qual meu pai se incluía, que ameaçavam alguns valores, especialmente os da propriedade rural. Bastou dizer ‘reforma agrária’ para o golpe civil-militar ser instalado dias depois”, completou.
Para Marcelo Rubens Paiva, até o golpe de 1964 o Brasil era uma democracia sólida e saudável, com uma cultura vibrante, expressa no cinema de Glauber Rocha, nas apresentações de Bossa Nova no Carnegie Hall, na arquitetura de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, no paisagismo de Roberto Burle Marx e nas pinturas de Candido Portinari, autor de painéis para a sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York. Um país economicamente e socialmente complexo, sem dúvida, mas em busca de sua identidade. Tudo isso muda com a instalação de uma ditadura no país.
“Então vivemos um impasse nos anos 1960: ou você ia para a guerra, resistia, ou saía do Brasil; ou ia fumar maconha nas dunas de Ipanema e Leblon — eram os chamados ‘desbundados’. A esquerda e os jornalistas se mobilizaram; alguns partiram para a luta armada — não foi um acerto, foi um erro —, mas era o que tinha que ser feito. Alguma coisa tinha que ser feita. Não era possível viver num país que estava sendo desmantelado, destruído por uma corja de militares que censurava o que havia de melhor na nossa cultura e prendia os nossos artistas”, afirmou.
Marcelo Rubens Paiva mencionou, em seguida, as prisões de Caetano Veloso e Gilberto Gil, em 1968, e de Paulo Coelho, em 1974. Citou o autoexílio de Chico Buarque na Itália, em 1969, e de Glauber Rocha na Europa, em 1971, para fugir da perseguição. Destacou que muitos outros também precisaram deixar o país, como Fernando Henrique Cardoso e José Serra, então presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), em 1964. Sindicatos foram fechados, assim como as instituições estudantis. Reitores das universidades passaram a ser nomeados pelos militares, e alguns deles eram das Forças Armadas.
“Até o técnico da seleção brasileira em 1978 era militar, por acaso, um bom técnico.” Era Cláudio Coutinho, capitão do Exército, que dá nome à pista que contorna a base dos morros do Pão de Açúcar e da Urca — “meu programa favorito no Rio de Janeiro”, recordou.
O presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), depois CBF (Confederação Brasileira de Futebol), também era militar: o almirante Heleno Nunes.
Para o homenageado, o Brasil estava tomado por aquele grupo que inicialmente chegou ao poder levado pelos civis, gostou do poder — quase como aconteceu há três anos, em 2023 — e nele se assentou, deixando apenas a área econômica para Delfim Netto, então ministro da Fazenda, “fazer as suas manobras”.
“A minha geração veio em seguida, vendo o exemplo da luta armada fracassar, vendo amigos, pais, tios, primos e irmãos sendo torturados e mortos, e repensou a sua forma de combate político, muito inspirada em Martin Luther King e em Gandhi. Passou a desenvolver a ideia — até ligada à Igreja Católica — de um combate pela não violência. Qual é a arma mais poderosa para atingir o coração e a mente das pessoas? — aliás, há um filme muito famoso da minha época, Corações e Mentes (1974), que mudou a opinião pública americana sobre a Guerra do Vietnã. É fazer arte. É fazer rock and roll, é fazer teatro, é fazer literatura. O que Ainda estou aqui fez por este país que muitos políticos não conseguiram fazer? O que agora O Agente secreto fez pelo país? O que as músicas de Chico Buarque e Caetano Veloso, o Cinema Novo, Zé Celso Martinez Corrêa, Antunes Filho, Aderbal Freire-Filho, o teatro, os programas de humor fizeram pelo país? O que o Porta dos Fundos faz pelo país, debatendo, mostrando as nossas inconsequências e contradições, mexendo com os nossos valores mais profundos? E o que a literatura é capaz de fazer? A literatura muda o mundo.”
Ele encerrou lembrando que eram as bandas de rock que davam força às manifestações das Diretas Já, como Leo Jaime e a Blitz. “A gente fazia turnês com grandes comícios das Diretas Já, em 1983 e 1984, com toda a classe artística ali apoiando aquela revolução não armada que foi a derrubada da ditadura. Então, se você me pergunta qual é o papel da arte, o papel da arte é o papel da revolução — a revolução sem violência”, concluiu.
Nascido em São Paulo em 1959, Marcelo Rubens Paiva é autor de mais de 15 livros, peças teatrais e roteiros para cinema e televisão, além de artigos para jornais. Seu livro de estreia, Feliz Ano Velho (1982), vencedor do Prêmio Jabuti, tornou-se o livro mais vendido da década de 1980 no Brasil, com tradução para seis idiomas.