Manifestação lembra os 50 anos do Comício da Central do Brasil


Por Igor Waltz*

14/03/2014


João Vicente Goulart, filho do presidente deposto pelo golpe civil-militar de 1964, discursou durante a manifestação (Crédito: Alcyr Cavalcanti)

João Vicente Goulart, filho do presidente deposto pelo golpe civil-militar de 1964, discursou durante a manifestação (Crédito: Alcyr Cavalcanti)

Uma manifestação próxima à estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, lembrou nesta terça-feira, 13 de março, os 50 anos do Comício pelas Reformas, convocado pelo então presidente João Goulart. Há meio século, Jango anunciava as propostas de reforma de base que enviaria ao Congresso, entre elas a reforma agrária, com desapropriação de latifúndios com mais de 500 hectares, e a encampação de refinarias de petróleo privadas.

Estiveram presentes ao ato desta terça-feira militantes de partidos de esquerda, sindicatos e organizações estudantis. Entre os participantes, o filho de Jango, João Vicente Goulart, que na época tinha sete anos de idade. “Nós encontramos o Brasil nas mesmas condições, 50 anos depois, precisando reformar o Estado para que possamos avançar nas áreas social, econômica e política. É uma satisfação estar aqui com os sindicatos, partidos políticos e organizações estudantis. Tenho esperança que, após 50 anos, as novas gerações possam, inspiradas nas raízes de nossa história, avançar e modificar o modelo social, econômico e político do país”, disse ele.

O presidente da Comissão Estadual da Verdade, Wadih Damous, afirmou em seu discurso que é necessário lidar com o legado que a ditadura deixou na sociedade: “Os torturados e assassinos continuam impunes. A violência policial é consequência disso. Nós temos que nos perguntar onde está Rubens Paiva, Mário Alves, Stuart Angel, mas também onde está Amarildo. Essas barbaridades, como os desaparecimentos, continuam acontecendo em plena democracia. Esse é um ato para refletirmos sobre essas questões”, destacou Damous, referindo-se aos pedreiro desaparecido depois de ter sido detido por policiais militares, descrevendo traços do autoritarismo golpista presentes ainda hoje nos sistemas de segurança pública. “Esse é o legado que continua mesmo em tempo de democracia e que temos de mudar.”

A deputada federal Jandira Feghalli (PCdoB-RJ) reafirmou a necessidade de não permitir espaços para a “direita” que se organiza contra o governo Dilma, articulando manifestações tais como a “marcha da família”.

Manifestantes se reuniram em frente à estação Central do Brasil. (Crédito: Alcyr Cavalcanti)

Manifestantes se reuniram em frente à estação Central do Brasil (Crédito: Alcyr Cavalcanti)

O advogado Marcelo Cerqueira lembrou que também esteve no comício da Central do Brasil, ao lado de Jango, quando era vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). “O Brasil perdeu uma oportunidade enorme, que era fazer as reformas de Jango. Depois, o golpe militar, com apoio americano e da direita brasileira, levou à retirada de Jango, um grande brasileiro, que se sacrificou pelo País. Perdemos a chance de sermos desenvolvidos. Perdemos 21 anos”, disse Cerqueira, que atualmente faz parte da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro.

O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, disse que “o Brasil perdeu várias oportunidades históricas de fazer uma reforma agrária verdadeira. O período em que chegamos mais próximo dessa possibilidade foi no governo João Goulart, quando assessorado por Celso Furtado, apresentou uma proposta fantástica, que teria mudado o Brasil, que era desapropriar todas as propriedades acima de 500 hectares, ao longo de dez quilômetros de cada lado das rodovias federais, das ferrovias, dos lagos e açudes. Isso teria desenvolvido o país, criado um enorme mercado interno e nos tirado da crise. O Brasil seria hoje uma grande potência”.

As reformas de base de Jango previam as reformas bancária, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária. Sustentava também a necessidade de estender o direito de voto aos analfabetos e às patentes subalternas das Forças Armadas, como marinheiros e sargentos. Previa, ainda, intervenção mais ampla do Estado na vida econômica do País e maior controle dos investimentos estrangeiros, mediante regulamentação das remessas para o exterior pelas multinacionais. Os partidos de direita e setores conservadores da sociedade argumentaram que Jango queria implantar o comunismo no país, e o depuseram no dia 1º de abril de 1964.

*Com informações da EBC e da Rede Brasil Atual.

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