30 de setembro de 2022


Major Curió, que comandou torturas no Araguaia, morre impune, sem pagar pelos seus crimes


17/08/2022


Por Leonencio Nossa, em UOL

Bolsonaro e Curió/ Reprodução Facebook

Figura emblemática da ditadura militar na Amazônia, o agente da reserva Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o Major Curió, de 87 anos, morreu às 2 horas da madrugada desta quarta-feira 17, num hospital particular em Brasília. Há cinco anos ele vivia recolhido em sua casa na capital federal. Internado na noite de segunda-feira, sofreu sepse e falência múltipla dos órgãos. Filho de uma lavadeira e um barbeiro de São Sebastião do Paraíso, no Sul de Minas, Curió ganhou o apelido no tempo de estudante no colégio militar e lutador de boxe amador em Fortaleza. Era uma referência às rinhas de pássaro da capital cearense.

Após se formar na Academia Militar das Agulhas Negras, Curió atuou no interior paulista e paranaense. À frente do batalhão de Francisco Beltrão, pôs sua tropa, em 1957, a favor de posseiros do município de Capitão Leônidas Marques, que travavam uma guerra sangrenta com as forças enviadas pelo governador Moysés Lupion. Ao ser informado do golpe contra João Goulart, em abril de 1964, seguiu para a cidade natal, onde promoveu um insólito julgamento dos “comunistas” locais. Um primo dele foi condenado à prisão, causando um racha na família. Era tempo de guerra fria e do avanço dos tratores do Brasil Grande na Amazônia. Curió era agente do Centro de Inteligência do Exército, o antigo do Centro de Inteligência do Exército, o antigo CIE, quando passou a atuar contra movimentos armados de oposição ao regime. Em 1972, o general Milton Tavares, chefe do órgão, organizou um plano de infiltração no Bico do Papagaio, região do sul do Pará e norte de Goiás, hoje Tocantins. Buscava informações para uma ofensiva final contra a guerrilha organizada pelo PCdoB.

As duas primeiras campanhas militares com tropas convencionais, entre abril e setembro de 1972, foram derrotadas pelo grupo de cerca de 100 guerrilheiros – uma parte formada por estudantes universitários e militantes das grandes cidades e outra, por moradores arregimentados.

Operação Sucuri

O CIE entregou a Curió a chefia em campo da Operação Sucuri. O agente fez um mapa com registros dos locais de movimentação do “povo da mata” ou “paulistas”, como os guerrilheiros eram conhecidos pela população ribeirinha e sertaneja. Para isso, infiltrou homens pelo Araguaia que se passavam por barqueiros, donos de bodega, garimpeiros e pequenos agricultores.

A partir das informações coletadas pela Sucuri, os generais Emílio Garrastazu Médici, que ocupava a Presidência da República, Orlando Geisel, a pasta do Exército, e Milton Tavares, do CIE, puseram em prática a terceira e última campanha contra a guerrilha. Desta vez, os militares enviados ao Araguaia eram apenas homens formados em guerra na selva. Por anos, a cúpula das Forças Armadas disse que os guerrilheiros morreram em combates na terceira e decisiva campanha. Não foi isso que ocorreu.

Em 1982, Médici afirmou que Curió “sabia de muita coisa”. Foi o suficiente para se criar na opinião pública uma expectativa sobre a abertura do arquivo pessoal do agente, que poderia trazer informações sobre execuções de guerrilheiros nas prisões. Até ali, a cúpula das Forças Armadas dizia que fez apenas manobras na região. Depois, insistiu que só havia matado adversários em combates na mata.

Sonia Haas, irmã do guerrilheiro João Carlos Haas Sobrinho, desaparecido na Guerrilha do Araguaia, comentou a morte de Curió: “Sebastião Curió morre hoje e passa a ser um arquivo morto, que leva consigo muitas verdades e segredos sobre a Guerrilha do Araguaia. É lastimável vivermos num pais que não é sério, nem mesmo com sua própria história. Não houve nenhuma punição a este torturador, matador de jovens, de camponeses e militantes políticos. Por onde passou deixou rastros de sangue, morte e pavor… E nós seguimos, firmes numa luta cansativa e árdua, para termos respostas, justiça e punição desta turma, que agora já vai até indo embora. Uma amiga me perguntou: será que ele nunca se arrependeu?”

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