3 de outubro de 2022


Macunaíma no Cineclube da ABI


31/08/2021


 

O Cineclube Macunaíma exibe hoje o filme Macunaíma(1969), de Joaquim Pedro de Andrade, que estará à disposição do público  até amanha, 1º de setembro, às 22hs. Do debate, às 19h30, participam os cineastas Silvio Tendler e Alice Andrade, o diretor de fotografia Affonso Beato, a atriz Ítala Nandi , o crítico Ismail Xavier e o jornalista Ricardo Cota como mediador.

O longa (1h50) é sobre as aventuras de Macunaíma, o anti-herói preguiçoso e sem caráter. Ele nasce negro no sertão, mas vira branco, vai para a cidade com os irmãos e se envolve com prostitutas, guerrilheiras e enfrenta todo tipo de gente em sua jornada. O roteiro foi retirado do livro de Mário de Andrade. A narração é de Tite de Lemos e música composta por Heitor Villa-lobos, Jards Macalé, Sílvio Caldas, Orestes Barbosa e Antonio Maria. Do elenco, fazem parte Paulo José (Macunaíma branco e filho de Macunaíma), Grande Otelo (Macunaíma preto, filho de Macunaíma), Dina Sfat (Ci) e Jardel Filho (Venceslau Pietra Pietra), entre outros. Pelo canal da ABI do YouTube.

Filme

Com uma narrativa de caráter mítico, em que os acontecimentos não seguem as convenções realistas, a obra procura fazer um retrato do povo brasileiro, por meio do “herói sem caráter”. “Macunaíma” é fruto do conhecimento reunido por Mario de Andrade acerca das lendas e mitos indígenas e folclóricos. O livro narra, em trechos fragmentados, a vida de um personagem que simboliza uma nação, tendo como pano de fundo a cultura popular.

A cena em que Macunaíma e seus dois irmãos se banham na água que embranquece pode ser entendida como o símbolo das três etnias que formaram o Brasil: o branco, vindo da Europa; o negro, trazido como escravo da África; e o índio nativo. Nessa cena, Macunaíma é o primeiro a se banhar e torna-se loiro. Jiguê é o segundo, e como a água já estava “suja” do negrume do herói, fica com a cor de bronze (índio); por último, Manaape, que simboliza o negro, só embranquece a palma das mãos e a sola dos pés.

O livro faz parte da primeira fase modernista de Mario de Andrade. Há inúmeras referências ao folclore brasileiro. “Macunaíma” é, portanto, uma tentativa de construção do retrato do povo brasileiro. O herói, além de indolente, conduz a maioria de seus atos movido pelo prazer terreno, mundano.  É “o herói sem nenhum caráter” e uma leitura possível de que o povo brasileiro não tem um caráter definido e o Brasil é um país grande como o corpo de Macunaíma, mas imaturo, característica que é simbolizada pela cabeça pequena do herói.

“Macunaíma” é uma obra inserida nas propostas da Semana de Arte Moderna de 1922. Mario de Andrade, assim como outros modernistas, busca resgatar a imagem do Brasil, sendo, portanto, uma obra de um nacionalismo com caráter crítico e a figura do índio causa uma reflexão sobre o que é ser brasileiro.

Diretor

Filho de Rodrigo Melo Franco de Andrade (fundador do IPHAN) e de Graciema Prates de Sá, Joaquim Pedro de Andrade passou a infância no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, entre os mais importantes intelectuais brasileiros da época. Manuel Bandeira era tão amigo da família que acabou sendo seu padrinho de crisma.

Em 1950, iniciou graduação em Física na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio, onde frequentava o cineclube do CEC, criado por Saulo Pereira de Melo e Mário Haroldo Martins. Recebeu a influência de Plínio Sussekind Rocha, professor de mecânica analítica, teórico e defensor do cinema mudo e fundador do Chaplin Club.

Nessa época, Joaquim escrevia sobre cinema no jornal da faculdade e chegou a fazer experiências com cinema amador. Namorou Sarah de Castro Barbosa, com quem se casaria mais tarde e teve a filha Alice. Entre as experiências cinematográficas da época, atuou no filme Les Thibault, de Saulo Pereira de Melo, e trabalhou como assistente de direção no curta-metragem Caminhos, de Paulo César Saraceni.

A troca definitiva da física pelo cinema viria em 1957, mas antes de sua primeira experiência profissional como assistente de direção do filme Rebelião em Vila Rica, foi obrigado pelo pai a fazer um estágio em Congonhas, na restauração da obra Os Passos da Paixão, de Aleijadinho.

Seu primeiro filme como diretor foi o curta-metragem O Poeta do Castelo e o Mestre de Apipucos, filme que registra a intimidade do poeta Manuel Bandeira e a do escritor e sociólogo Gilberto Freyre. Em 1960, ele produziu o curta-metragem Couro de Gato, filmado no morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro, e fotografado por Mário Carneiro. Contemplado pelo governo francês com uma bolsa de estudos, foi estudar cinema na França.

Em 1963, foi convidado para dirigir o documentário Garrincha, Alegria do Povo, ideia de Luís Carlos Barreto, que o produziu e roteirizou, ao lado de Armando Nogueira. Em 1965, fundou a produtora Filmes do Serro e iniciou as filmagens de O Padre e a Moça, com Paulo José e Helena Ignez. Preso pela ditadura militar em 1969 e liberado alguns dias depois, começou a filmar Macunaíma, seu maior sucesso de crítica.

Casou-se pela segunda vez em 1976, com a atriz Cristina Aché com quem teve um casal de filhos e a quem dirigiu em Guerra Conjugal e Contos Eróticos. Vítima de câncer no pulmão, morreu aos 56 anos, antes de realizar seu projeto de adaptar Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, para o cinema.

Em 2006, durante o Festival Internacional de Cinema de Veneza, foi-lhe dado uma seção especial com uma retrospectiva completa de sua cinematografia. O festival exibiu seis longas-metragens restaurados em formato digital 2K por sua filha, a também cineasta Alice de Andrade.

Longa-metragens: Garrincha, Alegria do Povo (1963), O Padre e a Moça (1966), Macunaíma(1969), Os Inconfidentes (1972), Guerra Conjugal ( 1975), O Homem do Pau-Brasil (1982). Curta-metragens: O Mestre de Apipucos (1959), O Poeta do Castelo (1959), Couro de Gato(1960, posteriormente incluído como segmento do filme Cinco Vezes Favela, de 1962), Cinema Novo (1967), Brasília: Contradições de Uma Cidade Nova (1967), A Linguagem da Persuasão (1970), Vereda Tropical (1977) (Posteriormente incluído como segmento do filme Contos Eróticos, de 1977), O Aleijadinho (1978).

Convidados

O debate do Cineclube Macunaíma tem início às 19h30, comandado pelo cineasta Silvio Tendler, tendo como mediador o jornalista Ricardo Cota. Os convidados são:

Alice Andrade, cineasta carioca, flha de Joaquim Pedro de Andrade, e que estreou na direção de longa-metragem com O diabo a quatro (2004), participando de diversos festivais, entre eles o de Brasília, onde recebeu o prêmio especial do júri. Outros filmes: Memória cubana, Histórias cruzadas, Dente por dente (1994 – Curta-metragem e Prêmio de melhor roteiro e direção no Festival de Brasília), Vinte anos (2016), Bijú na Laje (2002). Foi roteirista de: Memória cubana (2010), O diabo a quatro (2004), Dente por dente (1994), e assistente de direção de Irma Vep (1996), de Olivier Assayas, Passage du tropique (1989), de André Techiné e Faca de dois gumes (1988), de Murilo Salles. Colaborou com o roteiro de Casa-grande, senzala & cia. (1987), de Joaquim Pedro de Andrade e de Com licença, eu vou à luta (1984), de Lui Farias.

 

Affonso Beato é premiado fotógrafo de destaque desde os anos 1960. Desenvolveu uma carreira internacional em que se destacam
trabalhos com o americano Jim McBride e o espanhol Pedro Almodóvar. O
reconhecimento veio com a fotografia de O dragão da maldade contra o santo guerreiro(1969), de Glauber Rocha, prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes. Carioca de 1941, estudou na Escola Nacional de Belas Artes e há mais de 30 anos se divide entre o Brasil e os EUA. Foi presidente da Associação Brasileira de Cinematografia entre 2004 e 2005 e aceito como membro da American Society of Cinematographers, sendo o primeiro brasileiro a assinar as iniciais ASC.  Trabalhou ainda com Shari Springer Berman e Robert Pulcini, George C. Wolfe, Mike Newell, Stephen Frears, Walter Salles, Jonathan Lynn, Mathew Parkhil, Carlos Diegues, Jayme Monjardim, Bruno Barreto, Suzana Moraes, Miguel Faria Jr., Arnaldo Jabor, Antonio Carlos da Fontoura, Fernando Coni Campos, Gustavo Dahl, Júlio Bressane e Paulo Gil Soares.

A atriz, produtora teatral e diretora teatral gaúcha Íttala Nandi ou Ítala Maria Helena Pellizzari Nandi no cinema constituiu uma sólida carreira, atuando em diversos filmes, pelos quais recebeu vários prêmios nacionais e internacionais como a Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 1972, por Pindorama; o Prêmio Moliére, em 1975, por sua atuação em Guerra Conjugal e a Coruja de Ouro, em 1976, pelo filme Os Deuses e os Mortos, todos na categoria Melhor Atriz. Foi indicada ao Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim, em 1974, pelo filme Sagarana, o Duelo, sendo uma das fundadoras do Festival de Gramado. Dirige também a Escola Superior Sul-Americana de Cinema e TVe, em 1982, estreou na direção cinematográfica, com In Vino Veritas, documentário sobre a colonização italiana no sul do Brasil.

É ainda produtora e diretora teatral brasileira e considerada uma das grandes damas do teatro brasileiro. Em São Paulo integra, na condição de administradora, o Teatro Oficina, de José Celso Martinez Correia. Em 1978, estreou na televisão, participando de várias novelas. É ainda diretora da Escola Superior Sul-Americana de Cinema e TV (CINETV-PR).

O curitibano Ismail Norberto Xavier é pesquisador, crítico e professor de cinema e um dos mais destacados teóricos do cinema brasileiro. Pelo canal da ABI do YouTube.

Siga a abi

© 2013 ABI - Associação Brasileira de Imprensa – todos os direitos reservados -Rua Araújo Porto Alegre, 71 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, Cep: 20030-012