19 de agosto de 2022


Macunaíma exibe Zéfiro, herói dos adolescentes


19/01/2021


Macunaíma exibe Zéfiro,

Herói dos adolescentes

Cineclube Macunaíma retorna com suas exibições virtuais de 2021, nesta  terça-feira, 19,  às 20 horas, no canal da Associação Brasileira de Imprensa do YouTube, apresentando o documentário Em busca de Carlos Zéfiro (2019), de Silvio Tendler, que só foi exibido uma vez no Canal Curta e retirado do YouTube.

O jornalista e conselheiro da ABI, Juca Kfouri, descobriu a identidade de Zéfiro, em 1991, e publicou uma reportagem na revista PLAYBOY que está reproduzida aqui no site. Após a apresentação do filme haverá um debate, às 21h30, com o diretor do filme, além de Juca Kfouri; o curador do Macunaíma, jornalista Ricardo Cota (mediador); a artista visual  Simone Rodrigues; a psicanalista Gloria Seddon; e o historiador José Carlos Sebe Bom Meihy. Em busca de Carlos Zéfiro estará à disposição do público a partir das 20hs desta terça-feira, até quinta-feira, 21, no mesmo horário. Inscrevam-se e divirtam-se.

Carlos Zéfiro, que comemora 100 anos em 2021, era o funcionário público Alcides Aguiar Caminha, autor dos catecismos, revistinhas com desenhos apimentados que ensinaram educação sexual aos adolescentes dos anos 1950, 1960 e 1970. O pacato bisavô, pai de cinco filhos e onze netos, foi casado a vida inteira com a mesma mulher e morador do subúrbio de Anchieta, sendo ainda parceiro de Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito em A flor e o espinho (“Tire seu sorriso do caminho”…), gravado por Elizeth Cardoso, em 1965. Ele morreu em 1992, aos 70 anos, mas as revistinhas ficaram para sempre na lembrança dos jovens das antigas gerações. Leia mais na entrevista de Juca Kfouri abaixo.

A verdadeira identidade de Carlos Zéfiro, o autor de quadrinhos eróticos e responsável pela iniciação sexual de muita gente

 Por JUCA KFOURI (reportagem publicada pela PLAYBOY, de novembro de 1991, quando o jornalista era diretor da revista)

Carlos Zéfiro está vivo! Ídolo de algumas gerações, seu trabalho ensejou sonhos e orgasmos de quem tinha entre 10 e 20 anos na década de 60. Anos dourados, quando apareceram as revistinhas de Zéfiro, chamadas de catecismos, vendidas clandestinamente. Tinham 32 páginas com histórias da mais pura sacanagem, excitantes, criativas, invariavelmente com finais felizes e até moralistas. À venda nas bancas era acompa hada de um ritual. Além dos preços sempre altos, os jornaleiros obrigavam o jovem a comprar também uma publicação “séria” e punham o catecismo dentro dela.  Uma coleção de 12 catecismos encadernados significava um testamento, que podia ser novo ou velho. A bíblia era composta por 24 catecismos.

Carlos Zéfiro está vivo e passa bem. Não tão bem como gostaria, é verdade, pois ainda se recupera de uma trombose que lhe pegou dormindo e paralisou totalmente o lado esquerdo do corpo. Mas, aos 70 anos, completados no último dia 26 de setembro, é um homem lúcido, simples, cativante e discreto, além de aterrorizado.

Ele talvez até preferisse não viver para ler o que aqui lerá, pois faz questão absoluta de manter o anonimato que cultivou por mais de trinta anos – desde quando seus quadrinhos eróticos povoaram as fantasias de algumas gerações de brasileiros, e as iniciaram sexualmente.

O medo de Zéfiro tem um número: 1 711, o da lei que rege o funcionalismo público e que prevê suspensão de pagamento da aposentaria doa ex-funcionário que for objeto de escândalo.  E Zéfiro teme ser enquadrado como tal. E perder os parcos 80.000 cruzeiros que recebe depois de quarenta anos de serviços prestados ao Departamento de Imigrantes do Ministério do Trabalho.

Zéfiro, porém, não se pertence. Alvo da curiosidade de pesquisadores, professores universitários e de jornalistas, jamais se soube quem era ele. Havia quem dissesse que se tratava de um presidiário que criava as histórias na prisão. Outros difundiam que Zéfiro seria um ex-seminarista, versão que ganhava consistência  por causa dos catecismos. Como se verá adiante, no entanto, além de funcionário público, Zéfiro era compositor, e dos bons. Tem pelo menos um grande sucesso em parceria com ninguém menos do que Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, considerado obra-prima e imortalizado por Elizeth Cardos em 1965: A Flor e o Espinho, cujos versos iniciais, que ajudou a escrever em 1956, falam por si mesmos. “Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”.

Quem mais perto esteve de Zéfiro foi o pesquisador Joaquim Marinho que, em 1983, pela Editora Marco Zero, organizou um livro com sete histórias completas de Carlos Zéfiro e reuniu intelectuais  do porte do antropólogo Roberto da Matta e do jornalista Sérgio Augusto, hoje na Folha de São Paulo, para analisar a arte zefiriana.

Marinho chegou a achar que Zéfiro fosse o consagrado pintor Aldemir Martins. Depois seguiu uma pista que daria num usineiro de Recife, famoso intelectual da aristocracia da cana, “homem chegado à libertinagem refinada”, escreveu. Em vão.

E por que Zéfiro? Para o jornalista Sérgio Augusto a escolha de tal pseudônimo só poderia se referir a um dos deuses do vento da Grécia antiga. Foi o deus Zéfiro quem recolheu a deusa do amor Afrodite assim que ela nasceu e a levou em segurança para Chipre, cumprindo o seu papel de mensageiro de Eros, o deus do amor.

Já para Roberto da Matta, em sua Para uma Teoria de Sacanagem: uma Reflexão sobre a Obra de Carlos Zéfiro, a conclusão só poderia ser uma. “Quem é, afinal, Carlos Zéfiro? Todos nós, respondemos em coro, com aquela convicção formidável”.

É possível que sejamos mesmo, embora o nome de Zéfiro tenha sido escolhido por pura imitação. Era esse o nome do autor de uma fotonovela mexicana açucarada da Editora Mex que chegava ao Brasil semanalmente. O nosso Zéfiro se limitava a tirar a roupa dos personagens e a introduzir (epa!) uma elevada dose de boa libertinagem.

“Sabe por que nunca ninguém soube a origem do pseudônimo? Porque nunca ninguém perguntou”, revela o primeiro editor  e distribuidor de Zéfiro, o livreiro Hélio Brandão, que guardou segredo sobre a verdadeira identidade do autor até que as evidências falaram mais alto.

Brandão, também chamado de Hélio Gordo, mais parece um personagem saído dos bons filmes de Fellini. Com cerca de 160 quilos e 60 anos, olhos vivíssimos, ele é uma testemunha fundamental não só para revelar a origem do pseudônimo mas, também, para comprovar que o verdadeiro Zéfiro é, tchan, tchan,tchan, tchan…o compositor Alcides Caminha.

Alcides Aguiar Caminha, eis o nome completo, um simpático bisavô, pai de cinco filhos, onze netos, casado a vida inteira com Dona Serrat, dono de uma casa pobre que desenhou e ergueu no subúrbio do Rio de Janeiro, zona norte, a cerca se 40 quilômetros do centro da cidade, no bairro Anchieta, a caminho de Nilópolis, na Baixada Fluminense.

Outro editor de Zéfiro, bem mais recente, nos anos 80, é José Eduardo de Souza, de 34 anos, dono da Editora New Wave, no Brás, em São Paulo. Ele, que não levou adiante a impressão de catecismos zefirianos por achar que “os jovens de hoje querem desenhos mais sofisticados”, avalia sem titubear. “Muita gente quis se fazer passar pelo Zéfiro. Mas o Caminha é autêntico. Eu comprava as histórias diretamente com ele”.

O próprio Caminha preferia que a certeza não fosse tanta. “Tem muita gente por aí que quer ser o Zéfiro, que o iitou. Me tira dessa”, apela intimidado com o fantasma da lei 1 711.

“Em vez de ser punido, Caminha deve ser homenageado, reivinda o premiado artista plástico Newton Mesquita.

De fato, Às portas do século XXI, não teria o menor cabimento nenhuma atitude punitiva contra um artista que faz parte da história recente do país. Em 1970, no entanto, a sotuação era bem diferente, sob a ditadura Médici.

Quem conta é Hélio Brandão: “Foi exatamente no dia em que o Brasil ganhou da Romênia  na Copa do México. A Polícia Federal me levou preso porque  haviam apreendido cerca de 50 000 exemplares de catecismos em Brasília. Depois que me livrei, felizmente sem maiores problemas, resolvi que nunca mais editaria o Zéfiro. Queimei tudo que eu tinha e desisti”, conta ainda magoado e, por incrível que pareça, ainda tenso.

Hélio distribuía os catecismos pessoalmente, banca por banca no Rio de Janeiro. “Tudo começou numa loja em cima do cine Presidente, onde funcionava a Editora Ouro. Nos reníamos lá à noite, discutíamos o roteiro e o Caminha desenhava. Ele fazia duas histórias por semana e deve ter produzido umas 600 revistas”, calcula.

Desde 1970 Hélio é dono de um sebo atrás do Teatro João Caetano, e, como Caminha, não ganhou muito dinheiro.

Caminha, por sinal, sócio da União Brasileira de Compositores, não ganhou dinheiro nem como Zéfiro nem como parceiro de Nélson Cavaquinho. “Cada seis meses eu pego uns 20 000 cruzeiros de direitos autorais”., conta, certo que nasceu no país errado. Nos Estados Unidos, por exemplo, os quadrinhos e a parceria  em apenas um grande sucesso musical fariam dele um homem rico.

Mas que não se pense  ser Caminha compositor de uma letra só.  Ao lado de Nélson Cavaquinho, por exemplo, ele compôs Notícia, em 1954, e Capital do Samba, em 1956. Notícia, para se ter uma idéia, foi gravada pelo grande sambista Roberto Silva, ídolo de João Gilberto.

Sua influência musical vem do berço. O pai um elegante e viajado contador que trabalhava para a Drogaria Granado do Rio de Janeiro, era amante da ópera, da mãe e da irmã do célebre dentista Patápio Silva, “o maior de todos os tempos”, segundo Caminha.

Da união entre o pai e Paladina, a irmã de Patápio, nasceu Odilon Caminha, o Chico Bóia, um dos primeiros baterista do Brasil, já falecido.

Alcides Caminha seguiu a mesma rota. Amigos músicos e muitas mulheres, “tantas que é impossível calcular quantas foram, informa com um sorriso maroto, antes de reconhecer que “a Serrat é uma santa, pois a tudo perdoou”. “Igual ao professor Raimundo do Chico Anysio”, diz ele, “eu não pensava em outra coisa. Só pensava naquilo”.

Frequentador do Ponto dos Compositores, na porta do Teatro Carlos Gomes, ficou amigo de Nélson Cavaquinho e seu companheiro de boêmia. “Eu só não bebia. Um copo de cerveja me bastava. Não sei como não fiquei viciado em conhaque de alcatrão , a bebida preferida do Nélson, relembra.

Arquivista compulsivo, Caminha tem mais de 7 000 letrasbrasileiras antigas em suas pastas amontoadas no quarto de dormir, dividindo espaço com bem cuidadas referências entre fotos e ilustrações, de casais nus, de cenas íntimas, bases que sempre inspiraram seu lado Zéfiro.

“Há muitos anos que não desenho nada e jamais minha família soube dos catecismos. Não posso arriscar tudo a troco de nada, insiste no aninimato.

Torcedor do São Cristovão, ex-goleiro de talento, Caminha pesa menos de 60 quilos, muito pouco para seus 1,81 metro.

O artigo 207, capítulo V, da Lei 1 711, de 28 de outibro de 1952, que trata das penalidades, informa que “ a penas de demissão  será aplicada nos casos de de incontinência pública e escandalosa, vícios de jogos proibidos e embriagues habitual”. Alcide “Carlos Zéfiro” Caminha não bebe, não joga e, seguramente, jamais produziu um escândalo que merecesse as manchetes nacionais. E, na absurda hipótese de vir a ser punido, verá que um fã seu não foge À luta nem teme  arcar com aposentaria tão infame.

Carlos Zéfiro está vivo. Via Carlos Zéfiro!

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Surge um falso Zéfiro

Numa tarde de julho recebo o telefonema de Sinval de Itacarambi Leão, diretor da prestigiada revista Imprensa, que me consulta sobre o interesse da PLAYBOY em ter acesso a obras inéditas de Carlos Zéfiro. Como a resposta é positiva, ele me põe em contato com Moacy Cirne, professor da Universidade  Federal  Fluminense e um dos maiores especialistas  em histórias em quadrinhos no  Brasil, tema sobre o qual dá aulas.

Cirne conta que acha ter descoberto o verdadeiro Zéfiro e marca um encontro entre nós três no Rio. No dia 20 de agosto, no restaurante Antiquarius, no Leblon, sou apresentado a Eduardo Barbosa que, cheio de temores, histórias e um pedido de 25 000 dólares, se dispõe a permitir  que seu nome seja revelado.

Aos 78 anos, em seu sexto casamento, o simpático Barbosa dizia temer que sua atual mulher, Naíra Sodré, jornalista do Correio da Bahia, do Governador Antônio Carlos Magalhães, fosse demitida assim que o patrão soubesse com quem ela é casada.

Moacy e eu tentamos mostrar o absurdo de seu temor. A conversa naquele dia não pôde seguir muito mais adiante devido a um porre homérico que Barbosa toma antes mesmo de começar a comer.

Um outro encontro é marcado na livraria  de Hélio Brandão  no  começo de setembro. Lá fica claro para mim que as histórias do velho desenhista Barbosa – um personagem de resto importante pelos inúmeros desenhos que produziu, desde quadrinhos religiosos até Walt Disney – não batiam. Sinto que o livreiro Hélio está constrangido, reticente e acabo recebendo um sinal para que eu o procure mais tarde – e sozinho.

Vou almoçar com Barbosa e acabo de ouvir seu depoimento – que inclui uma carreira ao lado de jornalistas como Pompeu de Souza, Prudente de Morais Neto, Danton Jobim e Samuel Wainer – e me convenço de que ele sabia tudo sobre Carlos Zéfiro mas não era Carlos Zéfiro. Aliás,  ele conhece bem Alcides Caminha e na segunda semana de setembro esteve em sua casa para pegar alguns originais de Zéfiro para, segundo ele, “xerocá-los”.

Volto a falar com Hélio Brandão, que confirma minha suspeita. ‘O Barbosa é um bom amigo há quarenta anos, grade desenhista, está sem dinheiro e não é o Zéfiro’.

Na noite anterior o professor Moacy Cirne havia me telefonado para dizer que um amigo seu, o artista plástico José Andrade, lhe contara que o verdadeiro Zéfiro era um compositor que acabara de sofrer uma trombose e que seria muito difícil convencê-lo a romper o anonimato.

De posse de informação tão preciosa, consigo arrancar de Hélio algumas  dicas para chegar a tal compositor, o verdadeiro Zéfiro, conforme ele atesta. Foram essas indicações que me permitiram, ainda, encontrar outro editor de Zéfiro, o paulista José Eduardo de Souza, que confirma a existência do  compositor e me dá seu endereço. O resto da história já se sabe.

Np dia 27 de setembro, no entanto, o jornal fluminense A Notícia traz as histórias de Barbosa como sendo as de Zéfiro. Ele já não tinha mais medo de expor o emprego da mulher e quis tomar uma glória que é de um amigo seu. De todas as suas criações, essa foi, sem dúvida, a pior. Uma barca furada que quase também me fez naufragar”

 

 

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