Livro sobre O Semanário lançado na ABI


08/12/2010


O jornal O Semanário, fundado em 1956, pelos jornalistas Osvaldo Costa e Joel Silveira, é o tema do livro “A Imprensa Nacionalista no Brasil: o periódico “O Semanário” (1956-64)”, de Leonardo Brito, Mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro — UERJ, professor efetivo do Departamento de História do Colégio Pedro II. A obra foi lançada nesta quinta-feira, dia 9, às 18h, no saguão do 9º andar do edifício-sede da ABI.

Fruto da dissertação de mestrado defendida por Leonardo Brito na UERJ, em 2007, o livro resgata o contexto histórico do País e da imprensa brasileira a partir da trajetória de oito anos de O Semanário desde a data de sua fundação, até o ano de 1964, quando a ditadura militar determinou o fechamento da publicação. 

Ao perfil panfletário, idealista e popular de O Semanário somou-se o talentoso quadro de repórteres e colaboradores, entre os quais Barbosa Lima Sobrinho, Josué de Castro, Nelson Werneck Sodré, e Edmar Morel, avô do jornalista e historiador Marco Morel, Professor Orientador de Leonardo Brito.

Com tiragem de 60 mil exemplares e circulação nacional, O Semanário atraia leitores de perfis distintos, que, entretanto, se identificavam com o movimento nacionalista popular nos anos 1950 e 1960, e apoiavam, entre outras questões, o monopólio estatal do Petróleo, a Frente Parlamentar Nacionalista, o plebiscito sobre o parlamentarismo, a Reforma de Base proposta no Governo João Goulart. 

As críticas eram direcionadas ao lacerdismo e à União Democrática Nacional(UDN), segundo O Semanário, “os arquiinimigos a serem combatidos na Guanabara”, e ainda à conspiração golpista por parte dos setores conservadores da sociedade, e à atuação do capital estrangeiro no País. O jornalista Edmar Morel assinou uma série de reportagens ao longo de segundo semestre de 1962, a respeito da atuação ilegal do Instituto Brasileiro de Ação Democrática na captação e gerenciamento de recursos de empresas estrangeira sediadas no Brasil para o financiamento de candidatos da Guanabara e de outros estados para o legislativo federal. As denúncias resultaram na instalação da CPI do IBAD.  

Em sua última edição, publicada em 19 de março de 1964, o jornal ainda repercutia em suas páginas o Comício da Central, que reuniu 150 mil pessoas, em 13 de março de 1964, na Central do Brasil, onde o Presidente João Goulart anunciou a implementação das reformas de base e defendeu as liberdades. 

O assunto também foi tema do último texto de Barbosa Lima Sobrinho publicado em O Semanário, no qual o Presidente da ABI afirmava que diante do que havia ocorrido naquele gigantesco comício da Central as “esquerdas” haviam adquirido um novo comandante: Jango.  

A redação de O Semanário foi depredada e fechada por militares dias após o golpe de 64.

Presente ao lançamento do livro, o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, destacou o papel de O Semanário na imprensa brasileira:
—O trabalho do Professor Leonardo Brito constitui importante contribuição para o conhecimento e a lembrança de um dos mais destacados periódicos publicados no Brasil. O Semanário, fundado por um dos mestres do jornalismo brasileiro, Osvaldo Costa, exerceu um papel pedagógico muito importante para a conscientização de muitos segmentos da sociedade em relação ao interesse nacional. O Semanário foi se engajando a temas de destaque como as Ligas Camponesas, do Deputado Francisco Julião, e encerrou sua trajetória com o golpe militar de 64, que não permitiu que sua última edição fosse impressa na Tribuna da Imprensa como acontecia habitualmente. Além desta violência, O Semanário, sofreu outras que só não foram mais graves porque, de forma destemida, o combativo jornalista Edmar Morel foi à redação para salvar arquivos e coleções do jornal que só chegaram aos nossos dias graças a esta sua corajosa ação.

Em entrevista à repórter Cláudia Souza, Leonardo Brito falou sobre a relevância histórica de uma das mais longevas publicações nacionalistas do período.

ABI Online —Como surgiu a ideia de escrever sobre O Semanário?
Leonardo Brito —A proposta de escrever sobre este jornal surgiu há cerca de 6 anos, a partir  do convívio com o jornalista e historiador Marco Morel. Fui aluno dele no curso de História da Uerj. Numa das muitas conversas que tínhamos, ele comentou que seu avô, o jornalista Edmar Morel, contribuía periodicamente para um jornal que desapareceu após o dia 31 de março de 1964 (dia do golpe que derrubou o ex-presidente João Goulart). As memórias de infância do Marco remetiam a forma como o Edmar se preocupou em preservar em sua casa o acervo com todas as edições publicadas pelo jornal. Naqueles duros tempos de repressão a redação do jornal foi arrombada e depredada por militares e partidários da ditadura que se iniciava naqueles primeiros dias de abril de 1964. O Marco Morel sempre me sugeria que O Semanário era merecedor de uma pesquisa histórica. Um jornal que fez parte de uma imprensa nacionalista que não mereceu muita atenção por parte de nós, historiadores acadêmicos. É verdade que, falar em nacionalismo, nacional-desenvolvimentismo e reformas de Base, nos anos 1950-60 está muito longe de ser novo. Mas houve um movimento nacionalista na sociedade brasileira, neste período, que apesar das aproximações, não era nem ligado ao PTB(antigo Partido Trabalhista Brasileiro), nem aos comunistas do PCB. Acho que daí vem a novidade da minha proposta.
ABI Online —Como e em quanto tempo foi realizada a pesquisa?
Leonardo Brito —A pesquisa foi desenvolvida em dois anos e meio, aproximadamente, entre os anos de 2005 e 2007.
ABI Online —Que dificuldades você enfrentou para pesquisar o material?
Leonardo Brito —Poucas dificuldades, para dizer a verdade. O Edmar Morel teve até 1989, ano de sua morte, o denodo de zelar por todo o acervo em sua própria casa. Após sua morte, a família doou o acervo com todas as edições do jornal para a Biblioteca Nacional.      
A facilidade em se ter acesso ao acervo foi um dos pontos altos da pesquisa, e ao mesmo tempo intrigantes. Sempre que estava debruçado sobre o periódico, eu pensava: “como ninguém ainda feito um trabalho de fôlego sobre esse jornal?”. Há também uma coleção completa, acredito eu, no arquivo Edgar Leuenroth, na Unicamp.
ABI Online —Quem você entrevistou para desenvolver o estudo?
Leonardo Brito —A metodologia aplicada à pesquisa não se constituiu em entrevistas ou relatos orais, mas na análise dos editoriais publicados pelo jornal. Esbocei uma tentativa de entrevista com o jornalista Joel Silveira, que durante os primeiros anos de O Semanário foi um colaborador, mas ele morreu em 2007, antes que eu conseguisse qualquer contato.
ABI Online —Que tipo de orientação você recebeu para conduzir a pesquisa?
Leonardo Brito —A difícil e atenta análise das fontes. O Marco Morel como orientador nesta pesquisa de mestrado sempre me sugeriu olhar atentamente as fontes, pois elas tinham muito a dizer. É óbvio que um trabalho desta natureza não é uma descrição de fontes. Um texto acadêmico precisa sempre dialogar com outros autores e com referências teóricas que o sustentam e que garantam o caráter científico da análise proposta. 

ABI Online —Qual é o grande legado deste jornal?
Leonardo Brito —O de ter sido um importante canal de interlocução entre segmentos da sociedade civil organizada e políticos que de posições nacionalistas em grandes temas do debate público no país. É impressionante como esse debate era acalorado e mobilizador de setores médios urbanos esclarecidos.  O Semanário tinha um público muito cativo e um potencial de mobilização política que me causou surpresa, no decorrer da pesquisa.
ABI Online —Qual a importância de O Semanário para a história do país e para a imprensa brasileira? 
Leonardo Brito —Esta pergunta eu me fiz desde a época em que a idéia surgiu. Lembro-me que, de início, acreditava que O Semanário fosse uma publicação de circulação restrita ao Rio de Janeiro. A pesquisa me mostrou exatamente o contrário. O jornal possuía uma rede de distribuidores em várias capitais brasileiras e chegou, só no Rio, a ter uma tiragem de cerca de 60 mil exemplares. O Semanário foi uma espécie de outsider da imprensa brasileira nos 1950-60. Enquanto os ditos grandes jornais apontavam para um tipo de jornalismo muito influenciado pelo jornalismo americano, “objetivista”, O Semanário comportava-se como um “partido político”, ou seja, um jornal que evidenciava as suas posições políticas, ideológicas e eleitorais não apenas nos editoriais, mas em todas as matérias publicadas em suas páginas. Se me permite uma comparação, tomados os devidos cuidados e especificidades, O Semanário foi naquela época algo parecido com o que a Carta Capital, do Mino Carta é hoje. É óbvio que a Carta usufrui de uma estrutura muito maior do que O Semanário sonhou ter. A aproximação entre as essas duas publicações, a meu ver, reside no fato de trazer ao leitor uma reflexão crítica com uma linha político-editorial definida. Acho que os estudantes de comunicação e jovens jornalistas de hoje ainda conhecem muito pouco da história da imprensa brasileira da segunda metade do século XX. Os manuais de mídia e imprensa e uma boa parte dos cursos de comunicação possuem uma preocupação maior em instrumentalizar o futuro jornalista para as tarefas do ofício e do dia-a-dia da redação, e isto é até compreensível. A reflexão sobre o papel da mídia tem, a meu ver, nesses cursos um papel muito tangencial. As propostas de media criticism crescem, mas ainda são muito tímidas no Brasil.
ABI Online —Que jornalistas foram importantes para a história do jornal?
Leonardo Brito —Osvaldo Costa, seu fundador. Um jornalista várias vezes citado por historiadores da imprensa, mas ainda pouco estudado. Edmar Morel, autor de matérias memoráveis no jornal sobre o financiamento ilegal de campanhas de parlamentares federais, nas eleições de 1962. Uma série de reportagens sobre a ingerência da Embaixada dos EUA no país e do IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática — órgão ligado a setores do empresariado brasileiro) culminou em uma CPI no Congresso Nacional que revelou uma rede ilegal de financiamento de campanhas políticas. O saudoso Barbosa Lima Sobrinho que, nos últimos dois anos do jornal, contribuiu com muita freqüência para O Semanário. Há outros em que cito ao longo do livro. Destaco também a contribuição de Plínio de Abreu Ramos, um colaborador do jornal que, nos anos 1990, ao lado de Alzira Alves de Abreu escreveu as primeiras impressões sobre O Semanário.
ABI Online —Que eventos noticiosos foram mais explorados pela publicação. Quais destes resultaram em maior repercussão?
Leonardo Brito —Embora o jornal também de assuntos relativos à agenda cultural, eventos no eixo Rio-SP, sem dúvida, as matérias de maior repercussão eram da editoria de política. Os debates em torno dos projetos propostos, as disputas políticas partidárias e as crises políticas que ocorreram entre 1956 e 1964 foram as grandes manchetes da história do jornal. A tentativa de golpe contra a posse de Juscelino Kubitschek, em 1956. A renúncia de Jânio Quadros à presidência da República, em agosto de 1961 e o conseqüente veto dos militares ao Jango,vice-presidente, e as articulações de setores civis e militares que, entre 1961 e 1964, eram denunciadas quase semanalmente pelo jornal.
ABI Online —Qual era o perfil do leitor de O Semanário?
Leonardo Brito —Diversificado, mas um leitor de classe média das grandes cidades. Estudantes universitários, professores, jornalistas e intelectuais em geral que se alinhavam ao nacional estatismo nos anos 1950 e às Reformas de Base do governo Jango (ago-1961/ março-1964)
ABI Online —Qual era a tiragem do jornal e onde se localizava a redação?
Leonardo Brito —Algo em torno de 60 mil exemplares.  No início, a redação funcionou em alguns endereços diferentes, mas o endereço consagrado nas páginas foi o da Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio.
ABI Online —Qual o significado do lançamento de seu livro na ABI?
Leonardo Brito —A idéia de lançar o livro na ABI foi minha, prontamente aceita pelo Marco Morel e pelo presidente da entidade, Mauricio Azêdo, que desde o primeiro momento “abraçou” com muita satisfação a ideia. Faço um agradecimento especial aos dois. Não conheço um lugar mais apropriado para o lançamento desta obra do que a ABI, pela sua relevância histórica na defesa da democracia, na História recente do país. Quero também prestar uma reverência especial a duas historiadoras que foram muito gentis ao prontamente aceitar o convite e a tarefa de apresentar o texto ao leitor nas capas desta 1ª edição. Agradeço à Prof. Dr. Alzira Alves de Abreu do CPDOC-FGV e à minha colega Prof. Dr. Vera Bogéa Borges, do Departamento de História do Colégio Pedro II.