19 de agosto de 2022


Lan: um genial ítalo-carioca apaixonado


05/11/2020


Por Vera Perfeito, diretora de Cultura e Lazer da ABI  

Cartunista Lan

Corria o ano de 1952, e o périplo ítalo-argentino do cartunista Lan acabou na primeira escala. Apaixonou-se perdidamente pelo Rio e nunca mais saiu daqui. Só na década de 2000, o portelense e flamenguista nascido na Itália e criado no Uruguai, mudou-se com a mulher Olívia – uma das famosas Irmãs Marinho que abrilhantavam os shows de Carlos Machado e os desfiles do Salgueiro – para a casa de Pedro do Rio onde viveu até hoje quando nos deixou, aos 95 anos, vitimado por uma pneumonia.

Para o livro “As noites da Fiorentina”(2004), de Fritz Utzeri e do qual participei, o Lan deu uma linda entrevista, em 2003, quando disse: “O Rio da época de ouro da Fiorentina não existe mais. Dá saudade. A música de Nonato Buzar e Chico Anysio, “Rio Antigo”, cantada por Alcione, lembra bem o que era a cidade. Mas foi a especulação imobiliária  que acabou com tudo. Eu já esculhambei muito o Sérgio Dourado. Ele fazia chantagem com aqueles que não queriam vender seus imóveis nos prédios de quatro andares da Vieira Souto. É certo que o Rio precisa de verticalização, mas a consequência  do que aí está  foi a invasão dos bóias-frias do Nordeste e a proliferação das favelas. Daí, foi um passo para o tráfico de drogas”.

O toscano de Montevarchi, Lanfranco Vaselli,  tinha 74 anos de jornalismo, sendo 57 só de charge política no Jornal do Brasil e em O Globo. Ele adorava música e teve a fase do tango – quando morou na Argentina e trabalhou para Eva Perón – a do jazz (foi para Nova Iorque e Nova Orleans), mas sua paixão ficou mesmo foi no samba quando se apaixonou pelo Rio e pela Olívia.

– Fiquei louco com as mulheres cariocas, com o cheiro da cidade, com as cores, e decidi ficar. Mas era uma outra época – afirmava ele que foi contratado por Samuel Wainer para trabalhar na Última Hora e alugou um apartamento no prédio em cima da Fiorentina.

– Pedi demissão de um noivado e de cinco empregos em Buenos Aires e me estabeleci aqui – contava Lan que conviveu com Sérgio Porto, Murilinho de Almeida e outros intelectuais, além de frequentar o Buraco Quente, da Mangueira, batendo ponto no barraco de Dona Zica e de Cartola para ouvir os sambas dele junto com Nelson Sargento. Na saída, a turma local levava Lan até uma esquina do morro, mas ficavam escondidos. Um dia o cartunista quis saber o motivo daquela atitude. E Cartola respondeu: “É que táxi quando vê crioulo não pára”.

Um de seus casos mais engraçados aconteceu na antiga boate Casablanca no show “O samba nasce no coração”, sendo Lúcio Rangel seu produtor musical. Durante o espetáculo, o Lúcio dormiu e na cena em que as pastoras e Ataulfo Alves simulavam um ensaio de uma escola de samba, uma dela dizia: “O Zé da Zilda morreu”. Nesse exato momento, o Lúcio acorda e grita: “Foda-se”. Ataulfo e as meninas tiveram um acesso de riso e foi preciso fechar a cortinas.

E lá se vai  o querido Lan que foi capaz de brigar com Gláuber Rocha, na Fiora, quando ouviu o diretor baiano dizer que Federico Fellini estava superado. “Chamei o garçom e avisei que estava lá para comer macarrão e não para ouvir cagada como a que acabo de ouvir”. Pagou a conta e nunca mais foi ver um filme de Glauber.

Que vá na luz!

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