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José Trajano: ‘Brasil foi um fiasco na Copa, Neymar é péssimo ídolo e as bets dominam tudo’


10/07/2026


Por Gabriel Zorzetto, no Estadão

Em um raro artigo redigido para o jornal The New York Times, Bob Dylan comentou os prós e contras de ser um octogenário. “O mundo move sem pedir licença”, ele escreveu. Pois bem, esta frase usada pelo Nobel de Literatura é perfeitamente apropriada para descrever o novo livro de José Trajano, Abarracamento, rotulado no prefácio de Matinas Suzuki Jr. como um “romance cronológico”, pelo fato de o tempo ser coprotagonista ao lado do personagem Tojamir.

O nome estranho do carioca “à moda antiga” remete às iniciais de craques da malfadada seleção brasileira da Copa do Mundo de 1950, derrotada pelo Uruguai na final em pleno Maracanã. To de Tomás, o nome de Zizinho, Já de Jair da Rosa Pinto e Mir de Ademir.

Na obra recém-publicada, o leitor acompanha a trajetória e as reações de Tojamir, ano a ano, de 1950 a 1990, às margens dos grandes acontecimentos no futebol, na cultura e na política. Nele, há muitos traços de seu autor, que fará 80 anos em outubro e também abusa de uma máxima de Leonel Brizola (1922-2004) sobre a passagem do tempo: “Eu venho de longe”, costuma dizer, ao lembrar algum fato de outrora.

Trajano, que se tornou um dos mais respeitados jornalistas esportivos do País sem ter qualquer tipo de formação, também foi testemunha de transformações. Viu a imprensa acertar e errar, governos ascenderem e ruírem, ídolos nascerem e morrerem, seleções vencerem e fracassarem. Nem por isso, deixou sua personalidade forte ser abalada. O tijucano de cabelos brancos e temperamento explosivo não tem papas na língua, prioriza valores éticos em vez de métodos, é um boêmio nato, de esquerda, e que não se deixa ser manipulado por corporações ou algoritmos.

Ele passou por veículos de destaque como Jornal do BrasilFolha de S. Paulo e TV Cultura, mas ganhou notoriedade pela criação da ESPN Brasil, em 1995, quando subverteu a fórmula americana do canal original e implementou uma programação alinhada aos interesses nacionais, criando programas clássicos como Pontapé InicialLinha de PasseLoucos por FutebolBate-Bola, entre outros, ou ressignificando um telejornal tradicional como o SportsCenter, cuja versão tupiniquim, nas madrugadas, fez história sob o comando da dupla Paulo Soares (1962-2025) e Antero Greco (1954-2024).

Defensor do jornalismo “raiz” e descontraído (mas sem ser “engraçadinho”), foi diretor do canal por assinatura por mais de 15 anos e revelou dezenas de profissionais na área. O comunicador deixou a emissora em 2016, quando já não exercia nenhum cargo de chefia e acumulava desavenças com os executivos da Disney, dona da marca ESPN.

Leia a entrevista na íntegra abaixo.

José Trajano, jornalista e escritor, posa em seu apartamento em São Paulo
José Trajano, jornalista e escritor, posa em seu apartamento em São Paulo Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Qual foi o maior problema da seleção brasileira nessa Copa do Mundo?

São tantos problemas que escolher um fica difícil. Mas eu acho que foi o técnico.

Por quê?

Porque depositaram nele todas as esperanças e foi um fiasco. Não deixou nenhum legado, convocou mal, cedeu à convocação do Neymar, mudou o time no último jogo de uma maneira absurda. Ele foi o responsável pela derrota do Brasil contra a Noruega. Acho até injusto depositar em cima dele todos os males, mas a expectativa era muito grande e deu tudo errado.

Acredita que agora, com um ciclo completo de trabalho ao longo de quatro anos, ele possa evoluir com a equipe?

O tal do Rodrigo Caetano, o gerente de futebol da CBF, qualificou o trabalho do Ancelotti como positivo. Dizer que foi positivo o Brasil chegar em 11º lugar, a pior colocação do Brasil em todos os tempos, é uma vergonha. Então, eu não daria mais chance ao Ancelotti. Por R$ 5 milhões por mês? O técnico do Marrocos está há quatro meses à frente da seleção e classificou para as quartas de final. Aí você fala: ‘Colocar quem no lugar?’. Eu não sei. O problema não é meu. Estou aqui para criticar e exigir.

Lucas Paquetá, Neymar e Vini Jr. após eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2026
Lucas Paquetá, Neymar e Vini Jr. após eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2026 Foto: Seth Wenig/AP Photo

O que dizer do Neymar?

Ah, era a crônica de uma morte anunciada. Falávamos para não levar o Neymar, aí o Ancelotti cedeu e levou o sujeito sem a menor condição. E a entrada dele no jogo final foi uma tragédia. Muita gente acha que o Neymar de hoje é o Neymar de ontem. E a meninada, como nunca teve um ídolo de verdade no futebol, ainda tem o Neymar como um grande ídolo. Mas nós sabemos muito bem que o Neymar abandonou o futebol faz tempo. Vou dar um exemplo de como ele é um péssimo ídolo. Ele foi para os EUA em péssimas condições e, quando teve uma folga, comprou um relógio de R$ 5 milhões em Nova York. Eu não tenho nada a ver com ele comprar relógios. É a ostentação que me incomoda. Em contrapartida, o Haaland, com aquela cara de viking, comprou o livro mais caro da história da Noruega e doou para a biblioteca de sua cidade natal.

Como analisa o grupo de jogadores ao entorno do Neymar?

Nos clubes alguns se dão muito bem. Mas, em termos de seleção, nunca venceram nada. É hora de renovar. Os líderes que disputaram a Copa atual estão na hora de pedir o boné.

Como vê a relação do brasileiro com a seleção hoje?

Quando o Brasil partiu para os EUA, partiu totalmente desacreditado. Mas bastou estrear na Copa que a coisa mudou. Você via bandeirolas, cabelos pintados de verde e amarelo, bares lotados, ruas pintadas, tudo o que você imaginava que não fosse acontecer. O brasileiro se jogou de corpo e alma, mesmo não acreditando muito nessa seleção. O sentimento do brasileiro com a seleção é meio confuso. Tenho quase certeza que as pessoas gostam muito mais do seu time do que da seleção.

Essa relação mudou com o passar dos anos?

Acho que sim, porque são 28 anos dando vexame, sem conquistar títulos, sem ir sequer a uma final. As pessoas foram desacreditando. E tem outra coisa, os nossos ídolos vão embora cedo. A maior parte dos jogadores da seleção atua no exterior. Se o Ibañez passar na rua, no centro de São Paulo, quem vai saber quem é ele?

O técnico Carlo Ancelotti ao lado de Samir Xaud, presidente da CBF
O técnico Carlo Ancelotti ao lado de Samir Xaud, presidente da CBF Foto: Pedro Kirilos/Estadão

É possível separar a seleção brasileira da CBF?

É complicado. Ela está nas mãos da CBF. Quem elege o presidente da CBF são os presidentes das federações. Quem elege os presidentes das federações são os presidentes dos clubes. É uma panelinha só.

Mas você consegue torcer para a seleção brasileira?

Eu não torço contra, mas também não me apaixono a ponto de ficar desesperado ou sofrer.

E a nova gestão da CBF?

Consta que ele (o presidente Samir Xaud) é um pau-mandado, está deslumbrado com o cargo, e quem manda é o filho do Gilmar Mendes, o Chico Mendes.

Não vê um futuro bom para a CBF?

Nunca teve, né? Vários ex-presidentes foram presos. Vem desde o João Havelange, que era tido como um homem íntegro, mas cedeu, como presidente da Fifa, a Copa para a Argentina em plena ditadura argentina. Depois veio o genro dele, Ricardo Teixeira, acusado de corrupção. Aí veio Del Nero, depois José Maria Marin. Olha a gentalha. Então, eu não confio. Quem dirige o futebol brasileiro não está muito preocupado com a formação de atletas nem com o nível do nosso futebol. É politicagem.

Vamos falar sobre seu novo livro. O Mario Vargas Llosa dizia que há dois tempos na literatura: o cronológico e o psicológico. Nos romances, quase sempre é o psicológico que prevalece. ‘Abarracamento’, portanto, é uma exceção. Por que optar por uma narrativa cronológica?

É uma narrativa preguiçosa (risos). É mais fácil usar esse maneirismo de organizar tudo em uma cronologia do que escrever textos mais longos. Com frases curtas, você coloca ali elementos que confundem o real com o imaginário. O que eu escrevo não são livros do tamanho dos grandes escritores que nós temos por aí. No caso deste, é bem rápido de ler. É um bom passatempo. O livro conta um pouco da história do Brasil.

O que te despertou a escrever tantos livros recentemente?

Sobra tempo para escrever. Se eu ainda estivesse trabalhando o dia inteiro, como na época da ESPN, não conseguiria.

E outra observação interessante do Matinas, no prefácio: ele diz que ainda existe um preconceito silencioso dos círculos literários em relação ao esporte. Concorda com isso?

A literatura esportiva ainda é colocada em segundo plano. Muitos livros são comemorativos: “100 anos do Palmeiras”, “50 anos do gol de fulano”, e por aí vai. Literatura de verdade — e não estou falando dos meus livros — é, por exemplo, O Drible, do Sérgio Rodrigues, um dos melhores romances dos últimos tempos. Mas ainda existe um certo pé atrás. Talvez, com a Copa do Mundo e mais lançamentos, isso mude.

‘Hoje todo mundo se sente agredido. O meu jeito de ser foi próprio de uma época’, diz José Trajano
‘Hoje todo mundo se sente agredido. O meu jeito de ser foi próprio de uma época’, diz José Trajano Foto: Daniel Teixeira/Estadão

O quanto do José Trajano existe no Tojamir?

Muito. Primeiro, Abarracamento, o distrito, na zona rural de Rio das Flores, é onde ficava — e a fazenda ainda está lá, meio abandonada — a propriedade da minha família, onde morava meu avô. Meu avô era administrador da fazenda do irmão dele. Ele tinha um irmão muito rico, e ele era o irmão pobre. Então eu dei azar (risos). Eu era neto do avô pobre. Mas passei boa parte da minha infância em Abarracamento. Acompanhei de perto muita coisa que aparece no livro.

O livro também fala sobre a passagem do tempo. Em outubro você fará 80 anos, como está encarando essa marca?

Tem uma dor aqui, tive uma doença ali, uma cirurgia acolá. Isso tudo faz parte. Mas, no dia a dia, o que você sente mais é a perda dos amigos. Quando entrei no jornalismo, eu era o mais novo de todos. Agora sou o mais velho de todos.

Você levou uma vida muito intensa. Sempre foi boêmio, teve um temperamento forte. Te surpreende chegar a essa idade?

Surpreende. Eu não sei por que fui escolhido. Vários amigos meus se foram e eram muito mais saudáveis. Não bebiam, não fumavam. Hoje faço ginástica e pilates na tentativa de me cuidar mais. Evidentemente, não fumo há muitos anos. Era cervejeiro, ficava acordado até tarde. Agora estou levando a vida com mais calma. Mas, acima de tudo, você tem que permanecer ativo.

Eu queria entender como é a sua relação com a ESPN hoje. Você ainda assiste ao canal?

Assisto. Quando eu saí, fiquei viúvo da ESPN. A minha relação com a emissora era muito forte. Eu era um cara que trabalhava muito e, quando não estava lá, ficava em casa prestando atenção. Depois, aos poucos, fui voltando. Comecei a ver os jogos, os campeonatos de futebol, deixando os programas de lado. E a vida foi seguindo. Ficou um retrato gostoso na parede. Prometi que nunca mais falaria nada, mas já me manifestei nas redes sociais. Já critiquei quando transmitiram um campeonato de quem come mais cachorro-quente no Dia da Independência dos EUA. É um negócio terrível. Hoje em dia os americanos mandam muito no canal e os argentinos também. Na nossa época, tentávamos driblar esse tipo de coisa.

Hoje, parece existir uma fórmula global, com programas padronizados. Sente que aquilo pelo que batalhou se perdeu de alguma forma?

Se perdeu um pouco, sim. Chegou um momento em que nosso objetivo era mostrar o Brasil para os brasileiros por meio do esporte. Nós criamos programas como Brasil da Copa do Brasil e Caravana do Esporte. Isso tudo foi se perdendo. Hoje você vê muito debate de estúdio. Dizem que o jornalismo é caro. Virou todo mundo sentado em volta de uma mesa dando opinião. Reportagem de verdade é raridade na TV esportiva. No começo da CazéTV vi algo parecido com aquela ESPN que nós fazíamos. Me refiro ao atrevimento da linguagem, o desprendimento, o jeito de se contrapor ao modelo tradicional. Nós éramos completamente diferentes do SporTV, por exemplo. Hoje eu já não acho tão parecido.

Como vê a CazéTV hoje?

Ela democratizou a maneira de ver televisão, mas tem vários aspectos que precisam ser entendidos. A CazéTV não é exatamente aquilo que muita gente imagina, como se fosse apenas uma televisão do Casimiro. Por trás dela existem empresas como a LiveMode e a XP. É um grupo muito poderoso. Às vezes passa a impressão de que é uma produção feita no fundo do quintal, mas não tem nada de fundo de quintal. Se fosse, não compraria direitos de transmissão da Copa do Mundo, das Olimpíadas e de tantos eventos. Por que eles driblaram a Globo? Porque transmitem todos os jogos, mesmo com o delay, e as pessoas querem assistir aos jogos. Além disso, eles têm bons comentaristas, jovens e bem informados, ao contrário daquele marasmo da Globo, de comentaristas como o Denílson, que acrescenta pouco. Mas há problemas, como toda hora incentivar o público a apostar e constantemente promover a própria emissora.

Sobre as bets, acha que é compatível o jornalista esportivo fazer publicidade para uma casa de apostas?

Não. Isso já vem de longe. Eu e o Juca (Kfouri) somos poucos os que nunca fizemos esse tipo de publicidade. Mas as bets compraram todo mundo. Será que o Galvão Bueno precisava fazer isso com o dinheiro que ele já tem? A CBF, o Campeonato Brasileiro, a Globo e a maioria dos clubes têm patrocínio de bets. E os jornalistas ganham muito dinheiro com isso. Às vezes o sujeito ganha R$ 10 mil, R$ 20 mil no trabalho dele, e aparece uma empresa oferecendo R$ 200 mil ou R$ 300 mil para colocar um boné, vestir uma camiseta e fazer propaganda. Então, disseminou de um jeito ruim. Para acabar com esse problema, só apertando a legislação, como aconteceu com a propaganda de cigarro e de bebidas alcoólicas.

[Nota da redação: O Governo Federal anunciou na quinta-feira, 9, novas restrições a publicidade de apostas esportivas. A principal mudança é a obrigatoriedade de exibir uma advertência antes de toda publicidade de bets. Os conteúdos comerciais deverão incluir uma dessas três advertências a seguir: Apostar faz você perder dinheiro; Apostar pode causar dependência; Aposta não é investimento].

Da esq. para a dir.: Raí, Oswaldo de Oliveira, Juca Kfouri, Sócrates e José Trajano após reunião com Lula em 2002
Da esq. para a dir.: Raí, Oswaldo de Oliveira, Juca Kfouri, Sócrates e José Trajano após reunião com Lula em 2002 Foto: Monalisa Lins/Estadão

O seu jeito de ser marcou muita gente, para o bem e para o mal. O “trajanismo” seria aceito nas redações de hoje?

Ah, não. Eu seria demitido em dois minutos por assédio moral. Hoje você não pode fazer qualquer observação sobre o trabalho de ninguém. Todo mundo se sente atingido, constrangido, agredido. O meu jeito de ser foi próprio de uma época. É preciso entender uma coisa: nós éramos guerrilheiros. Uma coisa é entrar na Globo, na Band, na Cultura, onde já está tudo pronto. Nós não. Nós construímos uma televisão. E, para construir uma coisa do zero, é preciso muita luta.

Se arrepende de alguns exageros?

Sim. Às vezes eu falava de forma mais rude, gritava com algumas pessoas. Algumas histórias até viraram folclore, mas não posso nem contar. Mas havia um sentimento de equipe. Isso era o mais importante.

Chama atenção o fato de você não ter tido nenhuma formação profissional. Como foi possível construir toda essa visão de equipe e de gestão na ESPN?

Quando entrei no jornalismo, aos 16 anos, fui para o Jornal do Brasil. Naquela época, todo mundo queria trabalhar lá porque era uma referência absoluta. Ali estavam os grandes nomes da imprensa, e eu aprendi com esses caras. Mas o que realmente me transformou foi quando vim morar em São Paulo. Trabalhei na chamada imprensa alternativa, que fazia oposição à ditadura. Quando entrei na ESPN, levei esse espírito comigo para uma televisão americana.

Você já foi perseguido ou intimidado pelo seu jeito de fazer jornalismo?

Por gente poderosa, não. Às vezes nas ruas por questões políticas. Mas fui atacado agora por ter cometido um certo exagero em um programa que faço no UOL. Fui um pouco mais duro com um colega, discordei, sem gritaria, e pedi desculpas. Mas daí isso vira uma avalanche nas redes sociais, como se eu fosse o inimigo público número um por causa de um deslize.

[Trajano se refere a uma discussão sobre a partida Argentina 3 x 2 Egito com o jornalista Pedro Lopes ocorrida no programa Posse de Bola].

O que mais te irrita no jornalismo esportivo atual?

Aquelas figuras nefastas da imprensa que vivem atrás de likes, fazem gritaria, tentam virar personagens do caos. Nem vou citar nomes, porque se eu falar, amanhã vão publicar nas redes: “Trajano falou de mim”, e aí começa toda aquela confusão. (…) O jornalismo esportivo tradicional acabou. Hoje é outra coisa, você tem youtubers, influenciadores. Durante uma entrevista coletiva, levanta a mão um sujeito que você nunca ouviu falar e na primeira pergunta diz: “Parabéns pela vitória”. Não tem que dar parabéns coisa nenhuma. Outra coisa, hoje você quer assistir a um jogo de futebol e nem sabe onde ele vai passar. É Prime Video? TNT? Paramount? Tem de ficar procurando. Também me incomoda a repetição interminável das mesas-redondas.

Seu filho, o repórter João Castelo Branco, continua trabalhando na ESPN como correspondente na Inglaterra. Você pode falar um pouco dessa relação de pai e filho e de ele seguir um caminho parecido com o seu?

Ele nem fez faculdade de Jornalismo. Formou-se em Relações Internacionais. Entrou na ESPN como produtor. É um profissional multitarefa e muito talentoso. Ele passou boa parte da infância em Londres junto com a irmã, Marina, que é um pouco mais nova. A mãe deles, Renée Castelo Branco, casou-se depois com o Pedro Bial. Quando o Bial foi trabalhar como correspondente na Inglaterra, levou a Renée e os dois filhos. Depois o casal se separou, mas João e Marina já estavam completamente adaptados. Hoje os dois são casados. Eu tenho quatro netos: três meninas e um menino. E o Arsenal acabou se tornando a nossa forma de manter contato. Normalmente o filho torce para o time do pai. No nosso caso aconteceu o contrário: fui eu quem passou a torcer para o time do filho. Quando o Arsenal ganha, comemoramos junto, mesmo à distância. Foi assim que essa relação acabou se fortalecendo. E culminou agora, numa viagem que fiz para Londres. Quando o Arsenal foi campeão da Premier League, ele me mandou uma passagem aérea. Fiquei hospedado na casa dele. Nós fomos ao Emirates Stadium assistir juntos, no telão, ao jogo da Champions League contra o PSG, que ocorreu em Budapeste. Havia cerca de 30 mil pessoas no estádio acompanhando a transmissão. No dia seguinte, participamos do desfile comemorativo pelo título inglês. A família toda se reuniu. Foi uma festa maravilhosa, inesquecível.

Entre todos os grandes profissionais com quem você trabalhou ao longo da carreira, de quem você mais se orgulha de ter sido colega?

Do Sérgio de Souza (1934-2008), um dos maiores jornalistas deste País, que foi um dos criadores da revista Realidade. No início da minha carreira, outro mestre foi João Máximo.

E existe alguém de quem você menos se orgulha de ter trabalhado junto? Ou alguém que tenha te traído ao longo da carreira?

Talvez tenha acontecido, mas não estou nem aí. Prefiro lembrar das coisas boas. Prefiro sentir orgulho das pessoas. Olha só os quatro narradores da Globo: Luis Roberto, Paulo Andrade, Everaldo Marques e Gustavo Villani. Todos vieram da ESPN.

Em outubro, além dos seus 80 anos, teremos eleições. O que espera para o futuro do Brasil?

O País se complicou muito nos últimos anos. O Brasil se emburreceu e a disputa política ficou muito violenta. A eleição de outubro, na minha visão, é a mais importante dos últimos tempos. Tenho muito medo de que o atraso volte. Por isso, depois da Copa do Mundo, vou me empenhar na campanha dos candidatos em que acredito e tentar ajudar a melhorar a qualidade do Congresso, que é perverso e um dos piores da história política do Brasil. Nunca fui petista. Em algumas eleições votei no partido, mas minha formação política sempre foi ligada ao Brizola e ao pensamento de Darcy Ribeiro. Sou brizolista e darcyzista.