2 de dezembro de 2022


Imprensa lida com apagão em congresso chinês


23/10/2017


Os exemplares da revista britânica “The Economist”, à venda em poucos locais de Pequim, aparecem mutilados: faltam as páginas com reportagens sobre a China, cuidadosamente arrancadas.

A rede de TV CNN sai constantemente do ar. Vários sites, do “New York Times” à BBC, são bloqueados com frequência. Até o sinal de wi-fi em hotéis internacionais misteriosamente desaparece.

Ser correspondente em Pequim durante datas sensíveis ao Partido Comunista da China têm um efeito dramático no jornalismo: quanto mais próximo do local do evento, mais desinformado você fica.

Ainda assim, no escuro informativo, visitar o cenário do congresso comunista, o Grande Salão do Povo, causa estupefação. Os chineses sabem fazer isso com estrangeiros há muitos séculos (da Olimpíada à Cidade Proibida, há uma especialização na cenografia do império).

A coreografia também é ensaiada: 10 mil pessoas lotam todos os lugares do auditório principal, aquele sob uma enorme estrela vermelha no teto, e aplaudem de forma bem ensaiada. Até os 2.300 delegados viram páginas da programação em uníssono.

Sede do congresso nacional, em estilo sinossoviético, o Grande Salão foi construído em dez meses, por milhares de trabalhadores, e inaugurado em 1959, no aniversário de dez anos da chegada de Mao Tsé-tung ao poder. Há 29 salões intermináveis, com murais hiperbólicos, em homenagem a cada província, território e cidade autônoma do país, além de Taiwan.

Como boa ditadura, nem a mídia local, nem os chamados representantes do povo, têm a menor política de dar entrevistas espontâneas ou explicar o que acontece nos bastidores. O índex da imprensa chinesa, que normalmente já trabalha com listas de palavras ou temas que são proibidos ou monitorados cotidianamente, torna-se ainda mais longo e controlado.

Representantes de minorias étnicas e de regiões separatistas do país aparecem com indumentária típica e são os mais requisitados pela imprensa chinesa para expressar a unidade nacional.

Quando cobri as comemorações dos 60 anos da Revolução Comunista , em 2009, me impressionava com as ordens dadas pelo governo. Os moradores da avenida Jianguomen eram alertados a fechar as janelas e não assistir aos ensaios da parada militar. A ordem era acatada.

O Congresso termina nesta terça-feira (24), quando devem ser anunciados os novos membros do Politburo, com 25 integrantes, e, possivelmente, quem serão os sete integrantes do Comitê Permanente do Politburo, que, na prática, governam a China.

Em um país sem partido de oposição, a disputa entre as facções internas é forte. Elas variam de grupos regionais a ideológicos, em laços de parentesco e gerações.

Dada a obscuridade do debate, serão necessários alguns meses para se saber se Xi conseguiu por mais aliados na estrutura de poder.

Fonte: Folha de S.Paulo

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