12 de agosto de 2022


Jornalistas lembram dom Pedro Casaldáliga


10/08/2020


 

Dom Pedro Casaldáliga (Imagem: Jorge araujo/Folhapress)

Onde estão os Pedros Casaldáligas?

Por Ana Helena Tavares*

A pergunta que dá título a esse texto é uma indagação, quase um clamor, que passei a ouvir desde que, muito atrevidamente, resolvi escrever uma biografia do eterno bispo do Araguaia, falecido no último sábado, dia 08 de agosto, aos 92 anos. Como respondê-la é algo que me angustia.

Acredito que as pessoas são profundamente influenciadas pelo contexto de suas épocas. Nesse sentido, para ousarmos dar uma resposta, é preciso pontuar antes de tudo que a formação de Pedro, jeito informal como o bispo gostava de ser chamado, é fruto de três grandes acontecimentos que o moldaram como ser humano e pavimentaram sua fé.

O primeiro foi a guerra civil espanhola, que devastava sua terra natal durante sua infância. As cortinas da casa do menino Pere, forma como se grafa seu nome em catalão, estavam sempre cerradas. E ele era uma criança curiosa, de olhos arregalados, que queria sempre abrir aquelas cortinas. Para ele, a guerra foi, em suas palavras, uma “escola superior de jornalismo”, pois ali ele aprendeu a perguntar, mas em muitos momentos as conversas eram só para os adultos e ele era obrigado a se calar. Rebelde desde sempre, chegou a participar de uma rádio clandestina durante a guerra.

Outro acontecimento que o influenciou foi a revolução cubana. Em 1967, um ano antes de vir para o Brasil, Pedro participou, em Roma, do Capítulo Geral dos Claretianos, sua congregação. Naquele ano, Ernesto Che Guevara era assassinado. Já conhecido entre seus pares pela luta por um mundo mais justo, Pedro foi apelidado de Che pelos participantes daquele encontro e a cela onde ele dormia foi chamada de Sierra Maestra.

Temos, então, que Pedro foi marcado por uma guerra e uma revolução. Mas não só. Um evento religioso de proporções mundiais, o Concílio Vaticano II, soprou ventos que sacudiram profundamente aquele jovem missionário. O Papa João XXIII, na encíclica Mater e Magistra, publicada meses antes da abertura do concílio, inspirou-se em Êxodo 3 para lançar o método “ver, julgar, agir”. “Eu vi o sofrimento do meu povo, ouvi os seus clamores, desci para libertá-lo”. É a base da Teologia da Libertação e foi o que Pedro praticou ao longo da vida, seja na Espanha, na África ou no Brasil. E, como ele deixou registrado em um de seus poemas, fez isso “até as últimas consequências”.

Voltamos, então, à pergunta do título, reformulando-a. Quem são hoje as pessoas que vão até as últimas consequências na luta pela libertação do ser humano? Onde estão? Bem, eu posso afirmar que conheço muitas. E grande parte delas conheci por causa do Pedro. É gente que semeia esperança. Gente de todas as áreas. E muitos, muitos jovens.

É bem verdade que a maioria dos representantes que temos hoje na política institucional e partidária nos faz crer que essas pessoas não existem. O mesmo acontece se olharmos os líderes religiosos. No entanto, não comungo com aqueles que acreditam estar tudo perdido. Assim como o Vaticano II trouxe bons ventos para os jovens religiosos dos anos 60, o papado de Francisco, muito celebrado por Pedro, e eventos como o Sínodo da Amazônia, um bálsamo para os que sonham com o mundo que o bispo sonhou, podem exercer papel semelhante.

Não há em vista nenhuma revolução como a cubana, mas tenho certeza de que nos morros cariocas há alguns moleques que vivem numa casa de portas, janelas e cortinas sempre fechadas com medo da guerra civil permanente. Quem sabe um desses não vai ter vontade de abrir tudo e de viver numa casa sem muros. E quem sabe não será capaz de entender que a casa é o mundo – a Casa Comum. E quem sabe não vai querer que nessa casa tenha pão para todos.

Nesse moleque vive Pedro Casaldáliga. Como vive no índio que perdeu o pai por Covid. Como vive no entregador de aplicativo que é destratado por morador de condomínio de luxo. Pedro vive naqueles que abraçam as causas que ele abraçou, mas, principalmente, vive em todos aqueles que a sociedade gostaria que morressem.

*Ana Helena Tavares é jornalista, conselheira da ABI. Autora do livro “Um bispo contra todas as cercas – A vida e as causa de Pedro Casaldáliga” (Vozes, 2019).

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Historinhas da relação de dom Pedro com os jornalistas e com a justiça social  

Por Ricardo Carvalho*

Em 1977, os repórteres que cobriam a assembléia anual da CNBB, em Itaici, conseguiram “arrancar” do encontro o documento “Exigências Cristãs de uma Ordem Política”, que estava sendo discutido. A Folha de S. Paulo foi o único jornal a publicar a íntegra do texto, que mudaria a relação dos bispos com o regime militar. No dia da publicação, ainda em Itaici, dom Pedro me chamou de lado para “reclamar” da publicação. Estranhei a reclamação, disse que a função do repórter é publicar o que consegue… Sorrindo, dom Pedro emendou: “É que se vocês não tivessem publicado, a gente (leia-se os bispos progressistas) iria avançar ainda mais no documento”.

A força moral de dom Pedro. Quando o pai dele morreu, na Espanha, dom Pedro soube que o regime militar não daria o seu visto de retorno ao Brasil. Dom Pedro não foi se despedir do pai. Preferiu ficar com o seu povo em São Felix.

Muito inteligente e conhecedor da força dos símbolos, cada lavrador que era morto em sua prelazia, dom Pedro o enterrava com o rosto voltado para a cerca.

*Ricardo Carvalho é jornalista, diretor da ABI em São Paulo

 

 

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