Jornalistas celebram a memória de Carlos Luppi


Por Cláudia Souza*

18/03/2014


 

Carlos Luppi (ABI)

Carlos Luppi (ABI)

A família de Carlos Alberto Luppi agradece as manifestações de apoio e pesar pela morte do jornalista, ocorrida no último dia 4. Natural de Colatina(ES), Carlos Luppi, morreu aos 63 anos, no Rio de Janeiro, em decorrência de um infarto fulminante. Ele deixa a mulher Simonetta Ivancevic, a filha Ana Carolina Ivancevic Luppi, e a neta Lola.

A carreira de Carlos Luppi se destacou pela luta em favor da democracia e dos direitos humanos no Brasil, rendendo-lhe prêmios, obras notáveis, além do reconhecimento e a admiração dos amigos, que participaram da cerimônia budista em memória de Carlos Luppi, na noite do último dia 11, na sede regional da Soka Gakkai em Botafogo, Zona Sul do Rio.

— Como irmão mais velho do jornalista Carlos Alberto Luppi e representante de nossa família, agradeço a inserção de matérias e noticias que homenageiam e sintetizam uma vida de muitas lutas em prol dos direitos humanos. Foi-se um grande amigo e irmão, que deixou um legado que muito nos orgulha, disse Paulo Roberto Luppi.

Prêmios

Formado em Jornalismo pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Juiz de Fora (MG), Carlos Luppi foi um dos mais notáveis jornalistas investigativos do País. Publicou 11 livros-reportagem, e foi o único brasileiro a ganhar o Prêmio J. Elliot de Direitos Humanos, concorrendo com jornalistas de 120 países.

O início da carreira na imprensa foi no jornal Diário Mercantil, de Juiz de Fora. Pouco depois, venceu um concurso universitário promovido pelo Jornal do Brasil e, como prêmio, ganhou um estágio na sucursal paulista do diário. Assim que se formou conseguiu ser contratado, por decisão de Alberto Dines. Cerca de nove meses depois, foi promovido ao cargo de repórter especial. Luppi trabalhou ainda na Folha de S. Paulo, no Estado de S. Paulo, e no Jornal da Tarde, entre outros veículos.

Um de seus grandes trabalhos foi publicado em 1971, durante uma epidemia de meningite que o governo Médici teria tentado esconder da população, Carlos Luppi realizou apurações em diversos órgãos de saúde até encontrar um documento com dados que comprovavam a epidemia.

Outra matéria de destaque de sua autoria resultou na reabertura do processo do caso Araceli, menina misteriosamente assassinada nos anos 1970, em Vitória (ES).

Matéria sobre o caso Araceli /JB

Matéria sobre o caso Araceli /JB

Nos anos 1980, com a série de reportagens publicadas na Folha de S.Paulo e o lançamento do livro-reportagem “Manoel Fiel Filho: Quem vai pagar por este crime?”, Carlos Luppi derrubou a versão oficial do II Exército de que o operário Manoel Fiel Filho cometera suicídio na prisão. Órgãos de segurança emitiram nota oficial afirmando que Manuel Fiel Filho havia se enforcado em sua cela com as próprias meias. Contudo, o corpo apresentava sinais evidentes de torturas, além de hematomas generalizados, principalmente na testa, nos pulsos e no pescoço.

Teresa, mulher de Manoel Filho, abraçada ao retrato do marido assassinado(Reprodução UOL BLOG)

Teresa, mulher de Manoel Filho, abraçada ao retrato do marido assassinado(Reprodução UOL BLOG)

A investigação de Luppi comprovou que o laudo oficial que apontava suicídio como a causa da morte do operário havia sido forjado. Manoel Fiel Filho foi assassinado em 17 de janeiro de 1976, no DOI-Codi de São Paulo. Ele havia sido preso em 16 de janeiro de 1976, ao meio-dia, na fábrica Metal Arte, onde trabalhava, por dois agentes da repressão que se diziam funcionários da Prefeitura. Manoel Fiel Filho foi acusado de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro(PCB), e de ser assinante do jornal A Voz Operária.

Denúncias

De 1979 a 1990, Carlos Luppi dedicou-se a reportagens sobre a situação do menor no Brasil, que renderam os livros “Agora e na hora de nossa morte – O massacre do menor no Brasil” (Brasil Debates,1981), “A cidade está com medo” (Marco Zero, 1982), escrito em parceria com o criminalista Técio Lins e Silva, e “Malditos frutos do nosso ventre – Conflitos e confrontos” (Cone, 1987). Luppi Recebeu duas vezes o prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, uma delas pela série de reportagens “O país da pena de morte” publicada na Folha , com denúncias sobre os assassinatos cometidos pela Rota, força tática da Polícia Militar de São Paulo.

Pelo conjunto de reportagens produzidas entre 1987 e 1998 sobre a situação da criança brasileira, o jornalista ganhou o prêmio internacional Jock Elliot de Contribuição à Humanidade, concorrendo com jornalistas de 120 países.

No início dos anos 1990, Carlos Luppi abandonou as redações por achar que não havia mais espaço para o tipo de jornalismo que fazia e passou a atuar como diretor de criação em agências de publicidade, tendo recebido prêmios pela criação de campanhas publicitárias, roteiros para televisão e documentários.

livro carlos alberto luppi

Em, retornou ao jornalismo quando publicou o livro “Dinastia das Sombras – O Homem que Matou Jesus”, cujo personagem principal é vítima da ditadura militar na guerrilha do Araguaia, entremeando realidade e ficção.

Nos últimos anos, Carlos Luppi atuou como redator especial da revista e do site “Justiça & Cidadania”, e finalizou o livro “Um Vazio no Coração do Mundo”, escrito em parceria com o jornalista Hugo Studart.

Entrevista para a ABI

No ano de 2009, Carlos Luppi concedeu uma entrevista publicada no site ABI Online e no Jornal da ABI, que pode ser lida neste link.

 

 

*Com informações da Folha 

 

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