JB anuncia fim da versão impressa


13/07/2010


“A decadência do Jornal do Brasil me faz sofrer profundamente”, essa foi a declaração do jornalista Carlos Lemos — que durante muitos anos foi um dos principais editores do JB — sobre a notícia de que o diário teve o fim decretado da sua edição impressa.
 
Lançado em 9 de abril de 1891, o Jornal do Brasil, que em 119 anos de circulação veio a se transformar em uma das mais importantes publicações do País, acaba de anunciar que não vai mais circular na sua versão em papel, sendo editado apenas no formato online. O anúncio foi feito nesta terça-feira, 13 de julho, pelo empresário Nelson Tanure, dono do empreendimento editorial.
 
O dia da circulação do último número impresso do Jornal do Brasil deverá ser anunciado no máximo até a próxima quinta-feira. De acordo com informações de fontes do mercado editorial, a decisão de Nelson Tanure de encerrar a carreira impressa do JB está ligada a dívidas acumuladas pelo diário, estimadas em R$ 100 milhões, além da queda na circulação. Como não houve compradores interessados em adquirir o centenário veículo, Tanure optou pela edição digital, visando a minimizar custos.
 
A notícia contrariou o Presidente do JB, Pedro Grossi, que foi demitido do cargo por Tanure por discordar da medida. Em entrevista ao Globo, Nelson Tanure explicou por que tomou essa decisão e os motivos da demissão de Grossi:
A decisão de acabar com o papel está sendo tomada esta semana. Teremos uma decisão na quarta-feira ou na quinta-feira. Provavelmente, seremos o primeiro jornal a estar apenas na internet. É algo que está acontecendo no mundo todo. Eu demiti o Pedro Grossi porque ele era a favor de continuar no papel, declarou Tanure na entrevista ao Globo.
 
Pedro Grossi ocupava o cargo de Presidente da empresa Docasnet, holding que administra o JB. Ele tomou conhecimento da sua demissão na última segunda-feira, 12 de julho, e enviou um e-mail aos editores e diretores do jornal, explicando que deixava a função porque discordava da decisão de o Jornal do Brasil só poder ser lido pela internet.
 
Veja a seguir o comunicado de Pedro Grossi:
 
“Prezados, em almoço realizado hoje [segunda-feira (12)], na presença do Dr. Ronaldo Carvalho e da Dra. Angela Moreira, o Dr. Nelson Tanure informou que publicará na edição de amanhã do Jornal do Brasil uma notificação assinada pela direção da empresa e dirigida aos leitores na qual explica a transposição do jornal escrito para o tecnológico (internet). Considerando que isto contraria a razão pela qual fui contratado, solicito, sem perda de meus direitos, que o expediente do jornal e de todas as revistas não conste mais meu nome”
 
A informação de que o Jornal do Brasil vai acabar com a sua versão impressa gerou um clima de preocupação entre os profissionais que trabalham na Redação do jornal. Os funcionários não querem se identificar, mas criticaram a forma como a direção do jornal vinha conduzindo o assunto. Reclamam que ficaram sabendo do suposto encerramento da publicação por meio de informações divulgadas em outros veículos.  
 
Repercussão
 
Sérgio Cabral, Conselheiro da ABI e um dos grandes colunistas que atuaram no Jornal do Brasil, no seu período áureo, disse lamentar muito a hipótese de nunca mais ler o jornal na sua versão impressa:
— É uma das piores notícias que tive como jornalista nos últimos anos. O melhor da minha carreira jornalística eu vivi no JB, período do qual eu tenho muita saudade. O meu sonho era acertar um prêmio numa dessas loterias mundiais e comprar o JB para salvá-lo. Essa decisão sobre o jornal é realmente é lamentável.
 
O colunista de O Globo, Ancelmo Gois, também lamentou a decisão dos donos do JB, mas disse que já vinha se preparando para ouvir essa notícia há muito tempo:
— Na verdade, quando entrou (o JB) no processo de decadência eu comecei a não reconhecer naquele jornal o meu Jornal do Brasil, que me causava tanta emoção, aquele que quando me perguntam eu digo que foi o responsável pela minha decisão de me tornar jornalista. Então, fui me preparando para ouvir essa notícia.
 
Em uma entrevista para o ABI Online, em 14 de agosto de 2009, publicada em seguida no Jornal da ABI, Ancelmo contou que quando era menino em Aracaju já demonstrava “uma paixão total e absoluta pelo JB. Segundo o colunista, todo dia ele e um grupo de garotos se dirigiam ao aeroporto da cidade, na carona de um jipe velho, para ir buscar os exemplares do Jornal do Brasil que chegavam ao município a bordo de um avião da Varig.
 
 
“Luto”

Nesta terça-feira, em entrevista ao Comunique-se o vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, Rogério Marques Gomes, disse que não tinha informações oficiais sobre a paralisação da versão impressa do JB.
 
Segundo o dirigente sindical, os maiores problemas relacionados ao jornal eram os atrasos salariais e a forma de contratação dos profissionais que atuam na Redação: — A maior irregularidade do JB é a contratação de um grande número de jornalistas como Pessoa Jurídica (PJ) — disse Rogério Gomes, afirmando em seguida que o Sindicato estava de luto pelo fim da versão impressa do JB. — Posso dizer que estamos de luto. É uma situação lamentável. Isso é péssimo para a democracia, porque o Rio de Janeiro fica numa situação de transmitir praticamente uma opinião só, a do grupo Globo”, afirmou o Vice-presidente do Sindicato em entrevista ao Comunique-se.
 
De acordo com Rogério Gomes a Diretoria do sindicato ia se reunir para avaliar as medidas que seriam adotadas em função da notícia. Segundo ele, a entidade teme que a situação do JB se transforme em um problema para os jornalistas como aconteceu com a extinção da TV Manchete:
— Estamos pensando em fazer alguma coisa para que essa decisão não se concretize, o que parece difícil, mas perder o JB é perder uma parte da história do Brasil. Vamos acompanhar rigorosamente de perto, pra que não aconteça o que aconteceu com a TV Manchete”, enfatizou.
 
Trabalham atualmente no Jornal do Brasil 180 funcionários, sendo que 60 profissionais formam a equipe da Redação do veículo, que tem uma tiragem de 17 mil exemplares durante a semana, e de 22 mil aos domingos, conforma dados do IVC.

* Com informações do Comunique-se e do AdNews.

 

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