Inéditos do Bruxo do Cosme Velho na ABL


27/06/2008


 Machado de Assis aos 57 anos

Como parte do calendário que homenageia o centenário de morte de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras abre para o público, a partir desta sexta-feira, 27, na Avenida Presidente Wilson, 203, no Centro do Rio, a exposição “Machado vive!”. A mostra, que pode ser visitada gratuitamente, reúne material inédito do escritor, entre fotografias, objetos, manuscritos, cartas e publicações. Segundo o Presidente da ABL, Cícero Sandroni, trata-se da maior exposição já organizada sobre o patrono da ABL, superando até exposição nacional do centenário de nascimento, em 1939:
— Embora seja a guardiã do mais importante espólio de Machado de Assis, a Academia recorreu a um sem-número de instituições e coleções particulares para mostrar ao público — ao longo de três andares do Palácio Austregésilo de Athayde — centenas de peças variadas conduzindo o visitante a uma inesquecível viagem pela vida, pela obra, pela época, pela ambiência do escritor.

Com a curadoria do poeta Alexei Bueno, a mostra apresenta, além de vasta iconografia de Machado, sua bibliografia completamente digitalizada, objetos pessoais — como o pincenê, a caneta-tinteiro, a famosa escrivaninha, estantes, livros e cartas de trabalho e pessoais — e ainda fotos e pertences da esposa Carolina:
— Polígrafo consumado, Machado de Assis foi dos maiores romancistas do País, grande poeta, contista quase insuperável, crítico sagaz, admirável cronista, para não falar de suas incursões teatrais — ressalta o curador, que incluiu na exibição imagens do Rio de Janeiro, grande paixão do homenageado. — Carioca até a medula, sua obra, pode-se dizer, é até mais da então Corte ou Capital Federal do que exatamente brasileira. Ela é quase toda passada na cidade onde ele nasceu e da qual praticamente nunca se afastou em seus 69 anos de existência.

Para Bueno, o autor, que carregava personalidade tímida, interiorizada e pessimista, permanece vivo e contraditório cem anos após sua morte:
— Paradoxalmente, a individualidade ímpar de Machado de Assis não se afinava com boa parte do que passa por ser o caráter típico do Brasil e dos brasileiros. Num país e numa cidade célebres pelas belezas naturais, a paisagem tem uma importância muito relativa em sua obra. Num povo geralmente conhecido pela extroversão e a alegria fácil, foi pessoalmente um tímido e literariamente um artista todo voltado para a interioridade, além de um grande pessimista de índole schopenhaueriana. Aparecendo numa época em que os ideais sociais dominavam boa parte de um romantismo de combate, Machado foi um indivíduo avesso à manifestação sonora de apoio ou repúdio a muitas das posições políticas do seu tempo.

Módulos

Dividida em 14 ambientes, a exposição detalha a trajetória do Bruxo do Cosme Velho, desde a infância pobre no Morro do Livramento até a morte. No módulo “Um poeta canhestro”, por exemplo, destaca-se sua estréia literária aos 15 anos — quando escreveu um soneto em 3 de outubro de 1854 — e ainda os pequenos textos que criou a seguir. Já em “Memória do Largo do Rossio”, o destaque é a juventude de Machado, a amizade com escritores como Casimiro de Abreu, Castro Alves e Manuel Antonio de Almeida e a efervescência em torno do maior teatro da Corte, o São Pedro de Alcântara — atualmente denominado João Caetano —, onde ele se lançou no caminho das artes e da cultura.

Em outro módulo está a paixão do escritor por Carolina Xavier de Novais, com quem se casou em 1869 e viveu até a morte dela, em 1904:
— Nascido num ambiente familiar muito humilde, filho de um pintor e uma imigrante portuguesa, epiléptico, gago, mestiço, ele superou, com absoluta discrição, todos os obstáculos físicos e sociais até alcançar, na maturidade, a posição consensual de maior homem de Letras do Brasil, que lhe pertence até hoje. Sua arte finíssima, ele criou por um esforço voluntário de aprimoramento de um gênio inato, num ambiente dos menos propícios. Sua presença na alma brasileira é ubíqua e indelével. Machado de Assis cumpriu e cumpre brilhantemente essa tarefa, característica dos espíritos inesgotáveis, das almas inapreensíveis, por sua multiplicidade, em alguma descrição sucinta, dos seres poliédricos que espalham luzes e sombras por todos os lados — frisa Alexei Bueno.

Para a escritora e acadêmica Nélida Piñon, o Brasil tem-se equivocado ao não incluir Machado entre aqueles intérpretes consagrados:
— Há anos repito, à guisa de mote, que, se Machado de Assis existiu, o Brasil é possível. A enfática declaração significa que o País não pode fracassar. Não há motivos nem fundamentos deterministas que impeçam a nação de cumprir os desígnios de sua grandeza, reconhecendo no autor uma transcendência analítica que instaura a modernidade no projeto nacional. 

  • Cronologia da vida e da época de Machado

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