19/03/2026
Por Geraldo Cantarino

No início de 1976, há exatos 50 anos, o clima nas redações brasileiras era de intranquilidade e apreensão. Sucessivas prisões de jornalistas aumentavam a insegurança na categoria. O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Prudente de Moraes, Neto, chegou a enviar um telegrama ao então ministro da Justiça, Armando Falcão, manifestando preocupação com a situação. E depois participou de várias audiências em Brasília com dirigentes do Congresso, do Judiciário, e com o próprio Falcão.
Apesar do discurso de abertura política do governo Ernesto Geisel, o contexto permanecia bastante tenso. Ainda era forte a repercussão do assassinato sob tortura do jornalista Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975, pouco mais de quatro meses antes, no DOI-Codi, em São Paulo. Mais recente ainda era a morte sob tortura do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, em 17 de janeiro de 1976, episódio que levou à exoneração do general Ednardo D’Ávila Mello do comando do 2º Exército, em São Paulo.
Maurício Azedo
Luiz Paulo Machado
Em março de 1976, em meio à investida da repressão contra membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), duas prisões causaram grande preocupação nas redações e tiveram a ABI como alvo direto: a do fotógrafo de O Globo, Luiz Paulo Santana Machado, e a do redator da Editora Abril, Maurício Azêdo. Ambos eram associados da entidade e integravam a coordenação do Cineclube Macunaíma — que contava ainda com mais dois jornalistas, Fichel Davit Chargel e Ancelmo Gois. Além de conselheiro e membro da Comissão de Liberdade de Imprensa, Azêdo era também o principal editor do Boletim ABI e viria a ser presidente da entidade de 2004 a 2013.
Ancelmo Góis
Luiz Paulo e Azêdo foram presos e torturados sob acusação de envolvimento em atividades subversivas do PCB no Rio de Janeiro. Alegava-se, inclusive, que seriam responsáveis pela criação de uma base do partido na própria ABI. As detenções foram noticiadas pela imprensa, em jornais como O Globo, Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo, além de ganhar destaque na coluna “Jornal dos Jornais”, do jornalista Alberto Dines, na Folha de S.Paulo.

Agentes do Departamento de Polícia Política e Social (DPPS) prenderam Luiz Paulo quando ele se dirigia para casa após o trabalho e revistaram sua residência, em Laranjeiras. A família do fotógrafo (que era casado com a jornalista Elane Maciel) contratou o advogado Humberto Jansen para acompanhar o caso. Na defesa de Azêdo atuaram os advogados Alcyone Pinto Barreto e Augusto Sussekind de Moraes Rego.

A denúncia que seguiu para a 1ª Auditoria do Exército também incluiu Ancelmo Gois e o jornalista e publicitário Anderson Campos (também associado da ABI), representados pelos advogados Antônio Modesto da Silveira e Evaristo de Moraes Filho, respectivamente. Durante todo o processo, desde o momento da prisão dos jornalistas, a ABI esteve empenhada em acompanhar o caso. O presidente da entidade, Prudente de Moraes, Neto, manteve contatos com o Comando do 1º Exército, divulgou informações da Secretaria de Segurança Pública (SSP), e emitiu notas manifestando preocupação com as detenções e reivindicou a observância dos preceitos legais de detenção e prisão, sobretudo quanto ao tratamento dispensado aos detidos ou presos. Os quatro jornalistas foram absolvidos pela Justiça Militar em 24 de maio de 1978, dois anos depois.

Para o presidente da ABI, Octávio Costa, relembrar as prisões de jornalistas em 1976 é uma oportunidade de resgatar a memória e a verdade. “É bom não esquecer que nosso país viveu esses momentos de repressão, autoritarismo e tortura praticada pelo Estado. Ditadura nunca mais!”