12 de agosto de 2022


Governo responde ação
do MPF por machismo


12/08/2020


Mulheres caminham pela Av. Paulista em São Paulo | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

BOLSONARO E A PEDRA QUE FALTAVA
Norma Couri é jornalista e titular da diretoria de Mulheres & Diversidade da ABI

Faltava mais esta para aumentar nosso sentimento de vergonha diante do mundo, a pedra que faltava para nos empurrar cada vez mais para a beira do abismo. Além de rir da morte de 100 mil brasileiros (“e daí?”, não sou coveiro”, “sou Messias mas não faço milagres”), e afirmar que a Amazônia é uma floresta preservada e não pega fogo (“é mentira”), agora viramos motivo de chacota por insinuações misógenas. Temos um presidente e um governo que respondem a uma ação por machismo. O Ministério Público Federal coletou pérolas discriminatórias e desrespeitosas proferidas pelo chefe da nação e seus ministros desde o começo da gestão Bolsonaro.

Bolsonaro sempre brilhou pelo mau gosto das frases contra as minorias, “ou se adequam ou simplesmente desaparecem”. Já afirmou que não empregaria mulher com o mesmo salário de um homem, porque as mulheres saem de licença quando engravidam. Usou termos pejorativos ao se referir até ao nascimento de sua própria filha, a quinta, depois dos quatro varões que todos conhecem. “Dei uma fraquejada”. Mesmo antes da eleição, em 2014, o Brasil já sabia quem estava por vir quando o então deputado Jair Bolsonaro disse à colega Maria do Rosário que não a estupraria, “você não merece ser estuprada”. O que dá a entender que o resto das mulheres mereceria este “privilégio”.

O então deputado já atirava preconceito para todos os lados. Num programa CQC, ao responder algumas perguntas, Bolsonaro acertou na mosca em dois alvos sensíveis. Respondeu que preferia um filho morto a um herdeiro gay. À revista Playboy já havia declarado “prefiro que um filho meu morra numa acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim, já estaria morto mesmo”.

Ao se referir a uma visita que fez aos quilombolas no Eldorado Paulista, fez uma gozação, “o afrodescendente mais leve pesava 10 arroubas, e não fazem nada, nem para procriar servem mais, e gastamos 1 bilhão com eles”.

Apertado por Preta Gil no CQC sobre o que faria se um de seus filhos se apaixonasse por uma mulher negra, rebateu:
“Oh! Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados. Nunca viveram em ambiente como insustentavelmente é o teu”.

Aos jornalistas, Bolsonaro bate todos os records de falta de compostura e grosseria.

Ao ser indagado por um jornalista se teria comprovante do empréstimo feito ao assessor parlamentar Fabrício Queiroz pelo filho Flávio, respondeu  “pergunta prá tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai”. E quando a pergunta foi sobre as “rachadinhas” do Zero 1, não perdeu tempo, “você tem uma cara de homossexual terrível”.
À pergunta sobre Ditadura Militar, não demorou para ofender a repórter, “você quer forçar a barra. Você é uma analfabeta”. E quando o tema foi sobre  patrimônio e auxílio moradia, Bolsonaro descambou para uma resposta machista, “eu usava [o apartamento funcional] para comer gente”.

Agora, integrantes da cúpula do governo e Jair Bolsonaro terão de responder pelo viés preconceituoso de suas frases, que vêm reforçando o estigma e a  violência num país que registra 503 mulheres vítimas de violência a cada hora segundo a pesquisa Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil. O Relógio da Violência do Instituto Maria da Penha acusa uma mulher vítima de violência física ou verbal a cada dois segundos no Brasil.
Segundo a ação agora apresentada à 6ª Vara Cível Federal de São Paulo, em abril de 2019 Bolsonaro afirmou que “o Brasil não pode ser o paraíso do turismo gay…Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”. Dois meses depois disse que o Brasil era “uma virgem que todo tarado quer”.

Em fevereiro deste ano tentou minimizar uma reportagem de Patrícia Campos Melo sobre fake news e a influência que os disparos falsos teriam tido na sua eleição. Bolsonaro buscou o velho cliché de que mulheres jornalistas se insinuam sexualmente para conseguir a matéria. “Ela queria dar o furo”.

O ditado “diga-me com quem andas…” não poderia ter melhor exemplo do que os ministros da Economia, Paulo Guedes, que confirmou a deselegância do presidente num twit em relação à Brigitte Macron, mulher do presidente da França, Emmanuel Macron.  “O presidente falou, é verdade, a mulher é feia mesmo”. E a inacreditável Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, que já inaugurou a pasta celebrando “menina veste rosa, menino veste azul”, referindo-se à ilha de Marajó, explica: “As meninas de lá são exploradas porque não têm calcinha”. Num evento na Câmara dos Deputados, em abril do ano passado, Damares já havia afirmado em nome de Deus a superioridade dos homens diante d as mulhe res.

“A mulher deve ser submissa. Dentro da doutrina cristã, sim…nós entendemos que, num casamento entre homem e mulher, o homem é o líder do casamento”.

Não basta o Brasil estar colocado no 154º lugar no ranking mundial de participação das mulheres no Executivo de seu país. Os procuradores que acusam Bolsonaro e seu governo citam a revogação de uma nota técnica do setor de Coordenação da Saúde da Mulher, vinculado ao Ministério da Saúde, acéfalo há meses, coordenado por um militar da ativa especialista em logística. A nota cancelada recomendava a manutenção, durante a pandemia, do acesso aos métodos contraceptivos e a realização de abortos  nos casos previstos pela legislação.

A ação do Ministério Público pede o bloqueio de pelo menos R$ 10 milhões do orçamento federal. Eles serão destinados durante um ano a campanhas de conscientização de mulheres sobre seus direitos. Nem as emas do Palácio deram resposta à ação.

 

 

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