Glauco Vilas Boas, o cronista da neurose humana


22/03/2010


Na terça-feira, 16 de março, o jornal Folha de S.Paulo circulou com um suplemento especial intitulado “Gibi do Glauco” em homenagem ao cartunista Glauco Vilas Boas, que morreu tragicamente assassinado, aos 53 anos de idade, juntamente com seu filho Raoni, 25, na madrugada da sexta-feira, 12, na residência em que morava, na cidade de Osasco, interior paulista.

Com 31 páginas co tirinhas coloridas e em preto e branco, o caderno apresenta um panorama da trajetória de um artista que, segundo o editor-executivo da Folha, Sérgio Dávila, “era um palhaço no sentido de que sua graça era moleca, marota, de fácil assimilação pelo leitor/espectador”.

Essa habilidade relatada por Dávila também é ressaltada pelo amigo e cartunista Aroeira, que considera Glauco Vilas Boas “um gênio”,
— Ele era genial, um inovador raro que surgiu com o desenho. Um mestre que sabia localizar a quantidade exata na forma de desenhar. Seus desenhos continham animação, como uma espécie de decupagem. O que o Picasso fez em relação ao tempo, o Glauco fez com o movimento, ele desenhava uma pessoa agora e imediatamente depois. Ao mesmo tempo era um cara engraçado, afirmou Aroeira com quem Glauco costumava tocar adordeon.

O cartunista Amorim lamentou a morte de Glauco, que considera uma perda muito grande:
— O Glauco Vilas Boas influenciou toda uma geração que cresceu aprendendo com ele. O que mais me choca é que ele passou a vida toda mostrando essa trágica realidade que acabou invadindo a sua casa. O trabalho dele foi sempre nessa direção.
Amorim elegeu o personagem Geraldão o mais representativo da forma crítica de se expressar sobre a sociedade de Glauco Vilas Boas:
— Afirmo isto pela negação que o Geraldão tem de fazer parte desta sociedade. Na verdade, o Glauco nunca disse isso explicitamente, mas o seu personagem é o indivíduo que vive dizendo “não me encaixo nisso e não quero fazer força para me encaixar”.

Cronista

O suplemento “Gibi do Glauco” é uma publicação preciosa, pois faz uma interessante retrospectiva dos desenhos de Glauco Vilas Boas desde que começou a desenhar para a Folha de S.Paulo, em 1976. Suas tiras passaram então a ilustrar diariamente as páginas de quadrinhos do caderno “Ilustrada”, dedicado ao ambiente de artes e espetáculos.

No gibi estão registrados seus principais personagens, como Geraldão, Dona Marta, Doy Jorge, Zé do Apocalipse, Faquinha (o menor abandonado) e o Casal Neuras, que acabou virando um quadro do programa humorístico “TV Pirata”.

De acordo com o editor Sérgio Dávila, a maioria dos personagens criados por Glauco foram inspirados nas suas observações sobre a vida noturna paulistana nos anos 80. No texto de apresentação do suplemento, Dávila define Glauco Vilas Boas como um crítico dos costumes, libertário, algo escatalógico e com uma sexualidade evidente e compulsiva, no melhor estilo dos cômicos populares.

Para o editor da Folha, o olhar do cartunista era privilegiado, funcionava como uma grande angular, o que o tornava um artista singular, com uma capacidade especial de falar das tragédias humanas. O “Gibi do Glauco” traz aos leitores a produção do cartunista das últimas três décadas:
— É um presente e uma homenagem ao cronista da neurose humana, da qual ele também acabaria vítima, diz Sérgio Dávila.

A seguir apresentamos uma seleção das tirinhas de Glauco Vilas Boas criadas para a Folha de S.Paulo:

Primeiros anos 

“Amor a primeira vista” Esta charge foi a primeira colaboração de Glauco para a Folha. Foi feita em 26 de março de 1977, para o caderno “Ilustrada”.

 

“Anistia”  Esta charge se refere à Anistia. Tratar de temas polêmicos foi uma marca nos desenhos do artista.

“Tortura” Os excessos da ditadura militar não escaparam do traço do cartunista.

“Governo Sarney”  Com morte de Tancredo Neves, José Sarney assumiu a Presidência da República e implantou no País um governo que ficou marcado Pelo Plano Cruzado e uma hiperinflação histórica.

“Governo Collor” Fernando Collor de Mello foi um personagem que ofereceu muitos elementos para ser criticado pelo cartunista, ao comandar um Governo marcado por um forte esquema de corrupção, que acabou resultando no seu impeachment.

“Geraldão” Geraldão é o personagem que mais apareceu nas páginas da “Ilustrada”. Foi criado em 1981, caracterizado como um sujeito comum, adolescente tardio de cerca de 30 anos. Bebe, fuma e tem uma relação neurótica com a mãe, além da sua paixão pela boneca inflável chamada Sonia Braga.

 

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