07/05/2026
Por Dafne Ashton, em Brasil 247
Foto ABR
Em entrevista ao Bom Dia 247, o escritor e teólogo Frei Betto fez um duro diagnóstico sobre a situação da esquerda brasileira e afirmou que os movimentos progressistas se distanciaram das bases populares ao longo dos últimos anos. Segundo ele, a perda de presença nas periferias, nas comunidades e nos movimentos sociais abriu espaço para o avanço do conservadorismo religioso, das milícias e do crime organizado.
Para Frei Betto, a esquerda abandonou o trabalho de educação popular e conscientização política que foi decisivo durante o período de resistência à ditadura militar e na construção das condições que levaram à eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O religioso afirmou que sindicatos e partidos perderam capacidade de mobilização social após o enfraquecimento das estruturas populares e criticou o afastamento de lideranças progressistas da realidade das periferias brasileiras.
Segundo ele, setores da esquerda passaram por um processo de elitização ao ocupar cargos institucionais e estruturas de governo.
Frei Betto destacou que o trabalho político de base exige presença constante nas comunidades e dedicação de longo prazo, algo que, em sua avaliação, foi praticamente abandonado.
Ele defendeu a retomada da educação popular inspirada no método de Paulo Freire e revelou ter sugerido ao governo federal a contratação de milhares de educadores populares para atuar em todo o país.
“O Lula não virou presidente por causa de marketing ou apoio empresarial. Ele foi resultado do acúmulo político do movimento popular construído desde a luta contra a ditadura”, disse.
O teólogo também alertou para o crescimento da influência de setores religiosos fundamentalistas nas periferias, ocupando espaços antes dominados por organizações populares e movimentos sociais.
Segundo ele, a esquerda ainda não conseguiu compreender a dimensão dessa disputa política e cultural.
“Hoje essas áreas estão dominadas por fundamentalistas, milícias e narcotráfico. Ninguém mais faz trabalho político nessas regiões”, afirmou.
Ao longo da entrevista, Frei Betto insistiu que a reconstrução das forças progressistas dependerá da retomada do trabalho de base, da formação política e da reconexão com trabalhadores, jovens e moradores das periferias.
Para ele, sem essa reorganização popular, o campo progressista corre riscos nas próximas disputas eleitorais e perde capacidade de enfrentar o avanço conservador no país.