3 de outubro de 2022


Fofocas literárias do fin-de-siècle


30/08/2021


Norma Couri, diretora de Inclusão Social, Mulher e Diversidade da ABI. Artigo publicado no jornal Valor Econômico.

Publicar um diário em vida foi o mal que amargou Pedro Nava em suas memórias, Truman Capote ao mal disfarçar os personagens da ficção, e Mank, Herman J. Mankiewicz, ao roteirizar para Orson Welles as festanças do magnata da imprensa, William Randolph Hearst em Cidadão Kane. Eles deviam ter aprendido com os irmãos Goncourt. Edmond começou a publicar na França em 1890 o diário iniciado 30 anos antes quando tinha 38 anos e Jules, 30. Perdeu amigos íntimos e aguentou o rancor sozinho, Jules havia morrido de sífilis aos 39 anos. E nesses nove volumes ele só pinçou “verdades agradáveis”. O resto saiu 50 depois de sua morte, 4 500 páginas de crônica do fin-de-siècle, transcorrida entre a guerra franco-prussiana, o cerco de Paris, a Comuna. Mas o que Nietsche considerou “a novidade mais intere ssante da época” foram as maledicências.
Eram fofocas colhidas no restaurante Magny, nos salões da prima de Napoleão III – a princesa Mathilde -, nos prostíbulos e bordéis. E na intimidade de amigos ou nem tanto, com filtro para sexo, piadas machistas, vingança contra jornalistas e concorrentes: Gustave Flaubert, Victor Hugo, Alexandre Dumas, Charles Baudelaire, Émile Zola, Gui de Maupassant, Turguêniev, Edgar Degas, Auguste Rodin…
Acaba de sair o Diário – Memórias da Vida Literária dos irmãos Goncourt (Carambola), com 432 páginas que cobrem de 1860 a 1896 uma França de política complicada e invejável vida cultural. Em 1855 havia 50 jornais dedicados às artes plásticas, teatro, literatura e mexericos.
Flaubert faz a “dança dos idiotas no salão” na casa de Theóphile Gautier mas trabalha 10 horas por dia, “sente-se disposto lá pelas 5 da tarde que é seu meio dia”. Julga um livro pelo ritmo da leitura em voz alta e não aceita vender suas obras para o teatro: as atrizes exercem tremenda influência sobre os críticos “quando se tornam suas amantes”…
Apesar de íntimo, Flaubert é alfinetado. “Gosta de contar vantagem…tem o espírito grosseirão e empastado, como o corpo. Usa coletes brancos de 10 anos atrás. É pesadão, excessivo e sem finura. Falta charme à sua expansividade bovina…Só um livro em latim é capaz de deixá-lo de pau duro”.
Ridiculariza a ambição de Hugo em se dizer pensador, “o que lhe falta é pensamento”.  No dia em que colocou a palavra Fim em Os Miseráveis ganhou a farpa “é uma decepção… engraçado alguém ganhar 200 mil francos lamentando as misérias do povo”.
A pedra no sapato era o sucesso de público e crítica de Zola que os Goncourt não alcançavam. “Os críticos podem falar à vontade de Zola mas não podem negar que meu irmão e eu tenhamos sido os Joões Batistas da sensibilidade moderna”. Não perdôa, “o número de vezes que o autor de Naná mija …é inimaginável… com 40 anos parece mais velho que eu…tem problemas nos rins, nos olhos, sofre de palpitações…com muita habilidade, a vida se arranja para que ninguém seja feliz”.
Sobra veneno: “mulheres com uma bela bunda e pernas não tortas salvam a bandeira francesa”, “cérebro não maior de um passarinho. Ideal para engaiolar num harém”. Comentam as cópulas de Hugo, o priapismo de Rossini, a impotência de Dumas, de como George Sand escrevia sobre seus amantes ainda na cama com eles –Prosper Merimée (Carmem) foi um deles. E de como para Balzac o esperma era pura substância cerebral, sua perda equivalia à de uma criação. Dizia “perdi um livro inteiro hoje de manhã”.
“Daudet (Alphonse) relembrou o cinismo de Rimbaud sobre Verlaine: ‘Que ele se satisfaça comigo, tudo bem! Mas o contrário não acontece. Ele é sujo e tem uma pele nojenta’ ”. Verlaine é retratado como maldito, bêbado, pederasta, assassino e covarde que pintou de dourado até a campainha “do buraco miserável em que morava”. “Esfaqueou o amante…recebeu um lindo vaso decorado com clematites de Gallé e trocou…por 40 doses de absinto”. Mallarmé (Stéphane) observou os efeitos do alcoolismo no enterro de Verlaine, quando retiraram o molde de gesso para a máscara mortuária “saíu junto …uma parte da boca e um pedaço de barba”.
Flechadas disparadas, “as esculturas de Rodin descambam para o exagero”. Toulouse-Lautrec é “um homúnculo ridículo, cuja deformação caricatural parece se refletir em cada um de seus desenhos”. Os óleos de Manet são “lugares comuns”. Maupassant tem “o gérmen da loucura (depois de uma tentativa de suicídio com um caco de vidro), mente desbravadamente”. O racional e ateu Auguste Comte fugiu de um cemitério por medo de fantasmas. A Torre Eiffel não tinha serventia, a Academia de Letras cava o próprio suicídio.
“Nunca o jornalista se exibiu tanto…o jornalismo é um talento que todo homem talentoso tem; o jornalista é um homem cujo único talento é o jornalismo”. Edmond viveu celibatário como o irmão, dividindo com ele a casa e as amantes, e optou por uma velhice solitária para criar na Academie Goncourt um prêmio com “salário de assessor de ministro” para que talentos não precisassem se vender ao jornalismo. Desde 1903 caíu para 10 euros mas é o maior prêmio da França e garante um best-seller.

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