Festival 3i debate
futuro do jornalismo


22/10/2019


Grennwald: Jornalismo é ferramenta para proteger democracia

Com três dias de duração, de 18 a 20 de outubro, o Festival 3i, edição 2019, realizada na Fundição Progresso, no centro do Rio, teve casa cheia, com plateia formada em sua maioria por jovens jornalistas e estudantes de Comunicação, interessados em discutir o futuro do jornalismo no Brasil e no mundo.

Com apoio da ABI, Abraji e do Sindjor Rio, e organizado por treze veículos digitais do país, o Festival 3i foi rico em palestras, workshops, debates e mesas de discussão.

Um dos painéis, “Urgência da colaboração jornalística”, debateu a importância do trabalho associativo de jornalistas, por meio da coalização de mídias, na cobertura de temas extremamente perigosos, como crime e corrupção. Segundo pesquisa do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), 35% dos jornalistas mortos em todo o mundo desde 1992 tinham estes dois assuntos como pauta de apuração.

Foi com o jornalismo colaborativo, e o envolvimento de doze veículos com plataformas digitais, de diferentes países da América Latina, que a jornalista colombiana Maria Teresa Ronderos, uma das fundadoras do Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP, na sigla em espanhol), conseguiu apurar e concluir densa matéria sobre as teias do contrabando de cigarro na região. A repercussão do trabalho levou à recuperação de milhões de dólares para os cofres públicos. Maria Teresa ganhou o prêmio de jornalismo Rei de Espanha em 1997 por reportagem sobre como a imprensa cobriu o escândalo do uso de dinheiro do tráfico de drogas na campanha presidencial na Colômbia em 1994.

A mesma iniciativa de organizações de veículos de mídia e compartilhamento de informações foi adotada no intenso trabalho de investigação jornalística do denominado caso “Panama Papers”, que foi o vazamento maciço de documentos internos de um dos maiores escritórios de advocacia do mundo, o panamenho Mossack Fonseca, com representantes em 35 países, e com a criação de empresas de fachada. O conjunto de documentos, que totaliza 2,6 terabytes de dados e abrange periodo entre a década de 1970 e o início 2016, foi enviado por uma fonte anônima para o jornal alemão Süddeutsche Zeitung em 2015 e, posteriormente, para o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), com sede em Washington. Os documentos foram distribuídos e analisados por cerca de quatrocentos jornalistas em 107 órgãos de comunicação social em mais de oitenta países. As primeiras notícias sobre o caso foram publicadas em 2016.

“Foram mais de 11,5 milhões de arquivos secretos vazados, equivalente a 470 milhões de palavras . “Dá mais de 600 mil bíblias empilhadas, ou a altura de dois Montes Everest”, comparou o jornalista José Roberto de Toledo, da revista Piauí, membro do ICIJ. Resultado: foram descobertos 210 mil empresas offshore em 21 paraísos fiscais, envolvendo 140 políticos de mais de 50 países, entre eles, Brasil. Durante a investigação, os jornalistas verificaram que algumas das companhias de fachada mencionadas nos documentos teriam sido usadas para fins ilegais.

Com isso, foram abertas investigações policiais em 82 países e recuperados US$ 1,2 bilhão em impostos e multas. O caso Panama Papers rendeu 6 meses de publicações. Para Toledo, uma das lições básicas é que quando “o crime é transnacional, o jornalismo também precisa ser”.

A jornalista Natália Viana, da Agência Pública, acredita que, para que o jornalismo colaborativo funcione operacionalmente entre as partes , é preciso paciência, acordos verbais e por escrito, flexibilidade, jamais tomar decisões unilaterais, análises francas , autocríticas e elogios. Ela citou a experiência do Vaza-Jato, que, em seu entender, inaugurou um novo modelo de trabalho: “Um meio independente no Brasil decidiu publicar um vazamento sozinho e depois incluir parceiros. Hoje já são oito veículos envolvidos, entre eles a Pública, com estratégia de publicação conjunta”.

Para o jornalista Glenn Greenwald, do The Intercept, convidado do painel “O trabalho do jornalista: vazamentos, prospecção de dados e tecnologia”, “jornalismo é uma ferramenta para proteger a democracia, os direitos humanos, a igualdade , sempre tornando públicas informações que a sociedade tem o direito de saber sobre pessoas que têm poder”.

Com base nesse princípio, Intercept publica há meses o vazamento de informações sobre a Lava Jato. Glenn diz que passou a trabalhar em conjunto com mais veículos de mídia por questão também de segurança e de proteção.

Chico Otávio, do Globo, também deu seu depoimento. Com mais de trinta anos de reportagem, ele já cobriu casos extremos de violência, como o assassinato de Tim Lopes, e está há um ano no caso Marielle Franco. O jornalista já perdeu a conta do número de ações contra ele por alegados danos à reputação. “É a indústria do dano moral”, diz ele, alvo também de ameaças virtuais, pela internet. Chico Otavio está convencido de que há hoje um novo e grave patamar de risco no mundo do crime, com o surgimento da figura das milícias.

Fabiano Maisonnave, da Folha de São Paulo, mora em Manaus (AM) e faz reportagens sobre temas difíceis, como o trabalho que rendeu matéria sobre desvio de verbas da Petrobras, em 2003, e conflitos fundiários. A percepção de Fabiano é de que, “com Bolsonaoro, o trabalho ficou mais perigoso para jornalistas”.

A jornalista peruana Nelly Luna Amancio, da agência Ojo Publico, com matérias sobre máfias organizadas em diferentes setores, observa que “vem crescendo muito o conservadorismo na região e o ódio contra jornalistas”.

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