3 de outubro de 2022


EVANDRO TEIXEIRA, O FOTÓGRAFO QUE DRIBLOU A DITADURA


11/08/2021


Por Alcyr Cavalcanti, conselheiro da ABI, ex-diretor de jornalismo da entidade e atualmente, presidente da ARFOC. 

Evandro Teixeira, fotografado por Alcyr Cavalcanti:

Fotos de Evandro Teixeira:

    

 

EVANDRO TEIXEIRA, O FOTÓGRAFO QUE DRIBLOU A DITADURA 

“As fotografias lindas e às vezes aterradoras-de mestre Evandro Teixeira,  completadas por um texto seco de Ivana Bentes, conta o que fizemos de fato com a Canudos de Antônio Conselheiro, afogamos o arraial. De nossa Tróia não queremos nem as ruínas. O açude de Cocorobó inundou tudo”. Antonio Callado. 

O baiano de Jequié Evandro Teixeira é o mais completo fotojornalista de nossos tempos. Nascido no interior da Bahia veio ao Rio tentar a sorte, que sempre lhe sorriu. Mas não só da boa sorte contou Evandro, muito suor muita persistência fizeram deste baiano um fotógrafo de renome mundial.  Evandro é um nome marcado pela ousadia, persistência e por que não, de umas pitadas de sorte ao longo de sua trajetória de mais de cinquenta anos. O baiano de Jequié, que não trai suas origens,  é  uma referência na nobre arte da Fotografia em todo o planeta. Há poucos anos atrás foi homenageado em Pequim durante uma exposição mundial. Suas imagens dos anos de chumbo no Brasil , do Arraial de Canudos e da  ditadura sangrenta no Chile ficarão para contar a vida como ela é, sem filtragem nem photoshop. Sua vida foi dedicada ao Jornal do Brasil onde trabalhou em suas várias sedes, desde  a Rio Branco, depois na Avenida Brasil 500, e posteriormente no  prédio  da Fundação Roberto Marinho no Rio Comprido. Com imensa tristeza foi testemunha da falência e do enterro anunciado pelas péssimas administrações de Nelson Tanure, donos de restaurantes  e seus prepostos. 

Milhares de coberturas, milhares de fotografias, onde é muito difícil fazer uma seleção para uma posterior edição. Muitas de suas imagens se destacam pela importância histórica, mas é  no sertão de Canudos que ele ainda se dedica a aprimorar seu trabalho, para ele ainda incompleto.  Faz algum tempo que Evandro tem interesse pelo velho Antônio Conselheiro e seus fieis. Muitas viagens ao interior da Bahia, de início ao aproveitar suas férias, ou suas folgas da dura rotina de um jornal. Depois pelo fascínio do Sertão, pela importância que o Arraial de Canudos tem para nossa história, do homem na eterna luta contra uma natureza inclemente e contra governos autoritários que não tem a mínima piedade, um pouco de compaixão pela miséria extremada do sertanejo. Para Evandro “ A miséria continua a mesma, Canudos é uma história que deveria ser contada pelas escolas, pelas universidades. Os moradores do Sertão são muito religiosos, ainda cultuam o beato Antônio Conselheiro a quem chamam de O Bom Jesus”.

Em 1973, pelo Jornal do Brasil foi designado para cobrir o Golpe Militar que derrubou o governo eleito pelo povo de Salvador Allende, uma tentativa de implantar um Governo Socialista conduzido pelo voto.   “Fiquei no Chile duas semanas, consegui entrar no Estádio Nacional em Santiago,  e presenciei cenas de horrores que o regime Pinochet impôs a milhares de pessoas. Consegui acesso aos porões do estádio onde todos foram executados sem piedade”. O cineasta Costa Gravas mostra essas cenas terríveis no filme “Desaparecidos um grande mistério”. A persistência de Evandro acabou conduzindo Evandro para um registro único, um furo mundial, a morte do poeta Pablo Neruda em que afirma ter muito orgulho, mas também muita tristeza de ter conseguido fotografar esse momento trágico da história não só do Chile, mas de toda humanidade. O poeta chileno havia sido homenageado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1971 e para os militares precisava ser eliminado. Com seu faro de repórter conseguiu descobrir onde Neruda estava internado, conseguiu driblar centenas de jornalistas que estavam em Santiago além do aparato policial e sorrateiramente conseguiu chegar até o corpo que estava estendido em uma maca, velado por sua esposa Dona Matilde. Tentaram impedir, mas Evandro em um raciocínio rápido usou a palavra mágica que lhe abriu as portas,  disse que era amigo de Jorge Amado, íntimo da família. Tudo ficou mais fácil, fez quantas imagens quanto pode e junto à família acompanhou o corpo até o sepultamento. “Foi uma das ocasiões que mais me emocionei, entre dezenas de fotos eu junto com a multidão   chorava,   ao ouvir o povo recitando os versos de Pablo Neruda.  Jamais me esquecerei”. 

Esse baiano de Jequié, marcado pelo signo da inquietude,  atualmente afastado do dia a dia das tarefas de um jornal,  sempre que pode vai até o Arraial de Canudos para refazer o caminho por onde o líder religioso Antônio Conselheiro e seus seguidores enfrentaram o Exército,  até serem eliminados,  em uma tentativa de apagar a História. 

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