3 de outubro de 2022


Escolha do meu pai como patrono de diplomatas mostra país que não quer ser pária


06/09/2021


Por Lygia Jobin, conselheira da ABI. Artigo publicado na Folha de S. Paulo.

Formandos do Instituto Rio Branco elegeram José Jobim, embaixador morto pela ditadura, como símbolo da turma

​Mais do que um artigo, este texto é uma carta aberta a vocês, 20
jovens diplomatas da turma do Instituto Rio Branco que formalizou, na
última quarta-feira (1º), sua entrada no Itamaraty.

​A escolha que fizeram do nome de meu pai, embaixador José Jobim,
torturado até a morte pela ditadura militar que durante 25 anos
manchou de sangue o chão do nosso país, para patrono da turma à qual
para sempre pertencerão é uma declaração explícita de que não
compactuam com o negacionismo e com a corrupção nem concordam que o
nosso país se sujeite a ser um pária na comunidade internacional.

​Tenho certeza de que saberão honrá-lo, agindo com firme delicadeza na
defesa dos interesses do país.

​Vocês conseguiram resgatar em mim o respeito que José Jobim sentia e
me ensinou a sentir pela Casa a que pertenceu. Durante anos, disse a
mim mesma que não sabia o que o Itamaraty havia feito a meu pai, mas
sabia perfeitamente o que não havia feito.

Com sua omissão, fez com que meu caminho até a conquista de um
atestado de óbito que retratasse a verdade responsabilizando o Estado
por sua morte fosse muito mais árduo. Com seu silêncio, endossou a
tese inicial de suicídio. Mas vocês, dentro da instituição à qual ele
dedicou sua vida, o colocaram de volta no lugar respeitado que durante
anos seus colegas lhe negaram.

​O orgulho que sinto por saber que parte da juventude que meu pai
tanto gostava reconhece nele um exemplo a ser seguido é imenso. A
emoção de ouvir seu nome ser proclamado patrono fez com que não
conseguisse segurar as lágrimas. Foi lindo ver a esperança de dias
mais dignos brilhar naquele momento!

Por favor, não percam esse brilho. Nós dependemos dele.

​Lamento que tenham que começar a carreira tendo na Presidência uma
figura tão nefasta quanto Jair Messias Bolsonaro. Mas vocês têm uma
vida pela frente e verão dias melhores. Nunca se esqueçam de que, por
pior que seja o presidente, defendem e representam o Brasil, não o
governo.

Assim, não percam nunca a humanidade. Não se dobrem. Não abandonem
nunca a dignidade que demonstraram ter ao defender com firmeza a
escolha do patrono da turma. Ela vale muito mais que uma promoção ou
uma remoção.

​Só me resta dizer obrigada a cada um e esperar, em breve, conhecê-los
pessoalmente para abraçar aqueles que, por opção, tornaram-se meus
irmãos.

Link:

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/escolha-do-meu-pai-como-patrono-de-diplomatas-mostra-pais-que-nao-quer-ser-paria.shtml

 

Foto O Globo

 

 

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